Jornal Mundo Espírita

Julho de 2020 Número 1632 Ano 88

Relacionamentos sustentáveis

Cristiane Beira

julho/2016

Sustentabilidade é um termo relativamente novo e se refere à capacidade que uma população tem de suprir suas necessidades, ou seja, fazer uso dos recursos naturais do planeta, sem, no entanto, prejudicar ou interferir negativamente na sobrevivência das gerações futuras.

A preocupação com o meio ambiente apenas passou a ser pauta de encontros entre nações, recentemente. A primeira reunião aconteceu em Estocolmo, em junho de 1972: a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. No Brasil, somente em 1992 é que um evento de tal porte foi realizado, durante a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO), no Rio de Janeiro.

O fato de ninguém haver se preocupado com o desenvolvimento sustentável até então não deve causar estranheza. É que um dos mais importantes elementos geradores de novidades e mudanças é a necessidade.

A necessidade, ao longo da História da Humanidade, tem sido o motor propulsor de descobertas, invenções e transformações. Somente quando precisamos de algo é que nos motivamos em sua busca. Assim também aconteceu com a sustentabilidade.

Enquanto, na Terra, havia fartura de recursos naturais considerável e, portanto não cogitávamos o fato de uma possível escassez, ninguém se sentiu estimulado a convocar reuniões que tratassem dessa temática. Foi diante da ameaça da falta de recursos essenciais à vida que os interesses se voltaram para o assunto.

O termo sustentabilidade, entretanto, pode ser empregado em outros contextos além do ambiental. Podemos, por exemplo, utilizá-lo no âmbito de relações sociais. Um relacionamento sustentável, portanto, poderia ser descrito como aquele capaz de promover a continuidade do carinho e a manutenção da ligação afetiva ao longo dos anos.

Ao fazermos, porém, uma análise, mesmo que superficial, notaremos que os relacionamentos não demonstram, em grande parte deles, a presença de atitudes sustentáveis. De um lado desejamos que se sustentem, de outro, colaboramos, ainda que de forma inconsciente, para que se tornem insustentáveis.

Da mesma forma como no passado, somente voltamos nossa atenção ao meio ambiente quando o risco de estragá-lo definitivamente emergiu, ou seja, quando tivemos real medo de perdê-lo, também muitos de nós somente acordaremos para o fato de estarmos sendo negligentes para com nossos afetos, quando identificarmos o verdadeiro risco de vê-los partirem.

Nós não investimos na sustentabilidade em nossos relacionamentos quando:

– não desenvolvemos o ouvir com atenção em nossos diálogos;

– utilizamos palavras rudes, grosseiras, levianas ou de indiferença nos processos de comunicação;

– não treinamos a empatia, que significa entrar no sentimento do outro e compreendê-lo emocionalmente, deixando de lado nossas próprias opiniões e valores, para enxergar a realidade pela perspectiva dele;

– fazemos força para valer nossa vontade, mesmo que isso machuque o outro lado da relação;

– demonstramos indiferença diante da dor ou dos problemas alheios, justificando que colhem o que plantaram;

– não levamos em consideração os pontos de vista dos que conosco se relacionam, por não desejarmos abrir mão de nossas opiniões;

– evitamos entrar na história de vida dos outros, para não corrermos o risco de sermos requisitados diante de dificuldades futuras;

– somos econômicos e até avarentos quanto aos elogios, estímulos, reconhecimentos e declarações de amor.

Isso tudo quando não caímos, também, em disputas, comparações, inveja…

Ainda que nossa razão afirme que amamos nossos amigos e familiares, nossas sombras acabam por dominar nosso ego, levando-nos a atitudes contraditórias, paradoxais e, muitas vezes, fatais.

Aos poucos destruímos, por escolhas próprias, nossa felicidade futura. Não é à toa que, ao longo da vida, tantas mágoas vão sendo criadas no seio de relacionamentos tidos, antes, como perfeitos. Destruímos, em cada demonstração de descaso, indiferença, desconsideração, inveja, raiva e mágoa, um pedacinho da construção tão necessária em nossa vida, dos laços afetivos, sem percebermos que estamos reprogramando nosso futuro, tornando-o solitário, quando não recheado de desamores e dissabores.

Assim, deveríamos atentar para a sustentabilidade de nossas relações sociais:

– sendo receptivos, compreensivos e indulgentes;

– ouvindo, em silêncio, a história do outro, buscando a conciliação;

– oferecendo a outra face diante da provocação;

– desejando a alegria daqueles com quem convivemos;

– esbanjando palavras de estímulo, confiança, reconhecimento e amor;

– compreendendo as dificuldades e limitações de cada um;

– cativando o relacionamento.

Construiríamos, assim, relacionamentos sustentáveis, compreendendo que a presença dos afetos em nossas vidas é mais valorosa do que sair vencedor da discussão. Mais vale a convivência harmoniosa do que fazer valer nosso ponto de vista e interesses pessoais.

Para desenvolvermos, no entanto, essa habilidade, que se inicia na prática da empatia, até atingir a expressão máxima do altruísmo, necessitamos voltar a atenção para nós mesmos. Allan Kardec nos alerta: Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 4), justamente porque esse é o caminho para a paz e o amor na sociedade.

O importante, então, é que tomemos consciência de que já estamos preparados e em condições de modificar nossos comportamentos, vencendo, aos poucos, o egoísmo e interesses pessoais, e iniciando nossos primeiros passos no caminho do autodescobrimento, quando teremos ensejo de iluminar as sombras interiores que obscurecem nossos relacionamentos.

Não esperemos, portanto, a solidão se avizinhar, como resultado da falta de cuidado com nossos relacionamentos, mas invistamos para que se tornem sustentáveis e nos acompanhem por toda a eternidade.

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