Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Reflexões sobre o natal….

dezembro/2015 - Por José Passini

A palavra natal, como se sabe, significa nascimento. Assim, pode-se dizer terra natal, significando terra onde nasceu alguém. Emprega-se a palavra também para significar dia do aniversário, do natalício. Entretanto, quando escrita com maiúscula, a palavra significa, para os cristãos, o nascimento de Jesus. Nesse caso, dizemos O Natal, ou o dia de Natal.

A maioria da Humanidade cristã comemora o Natal sem atentar no que significou, para a Terra, o nascimento de Jesus. A Sua vinda foi anunciada século após século, por vários profetas. O povo hebreu esperava ansiosamente pelo Messias. Esperava-O como se espera um libertador, um guerreiro que, segundo pensava a maioria, viria libertar o povo de Israel do domínio romano. Imaginavam muitos que o Messias seria um homem rico e poderoso, que viria à frente de exércitos, que venceria os romanos, devolvendo-lhes os sofrimentos e as humilhações impostos aos Judeus, anos a fio.

Contrastando com as expectativas, a vinda de Jesus não se revestiu do luxo e da pompa de um palácio, nem de demonstrações exteriores de poder. Pelo contrário, as primeiras paredes que o abrigaram foram as de um estábulo e o seu berço foi a humilde palha de uma manjedoura. O seu poder manifestou-se na firmeza de Suas convicções, na força da Verdade e na exemplificação profunda do Amor.

Sabe-se que o Seu nascimento se deu nessas circunstâncias não por estarem Seus pais em condições de penúria. José, conquanto fosse um carpinteiro pobre, tinha com que pagar uma pousada, pois conforme relatam o Evangelho de Lucas (2:7) e Irmão X (Francisco Cândido Xavier, Antologia mediúnica do Natal, ed. FEB, cap. 50), o casal procurou algumas hospedarias, mas a cidade, em vista do recenseamento, estava repleta de viajantes e não havia aposentos disponíveis. Pode parecer que Jesus nasceu em meio humilde por essa condição meramente circunstancial, de não terem Seus pais encontrado vaga em nenhuma hospedaria de Belém. O Seu nascimento num estábulo pode ter sido circunstancial, mas a condição de pobreza já estava programada, visto ter escolhido a família de um carpinteiro.

Desde o Seu nascimento, Jesus deixou mensagens da mais profunda significação na História humana. Começou por mostrar que o verdadeiro poder não se manifesta de modo visível senão àqueles que têm olhos de ver, pois emana do Espírito imortal e não da matéria transitória. Começando a vida num berço pobre, entre pessoas comuns, demonstrou a força imensa da simplicidade e da humildade.

Trinta e três anos mais tarde, para a grande massa popular de Jerusalém, naquela sexta-feira de triste memória, Jesus foi um derrotado, vencido ao peso da iniquidade e dos interesses materiais do sacerdócio judaico. Entretanto, como previsto pelo profeta, Sua passagem pela Terra seria a de um vencedor: O seu túmulo passará como o de um malvado e a sua morte como a de um ímpio. Mas, desde o momento em que oferecer a sua vida, verá nascer uma posteridade e os interesses de Deus hão de prosperar em suas mãos. (Emmanuel/Francisco Cândido Xavier, A Caminho da Luz, ed. FEB, cap. 12). E Emmanuel completa, na obra já citada, Começava a era definitiva da maioridade espiritual da Humanidade terrestre, de vez que Jesus, com a sua exemplificação divina, entregaria o código da fraternidade e do amor a todos os corações.

Por essas palavras do Benfeitor, vemos que a passagem de Jesus pela Terra não foi a de mais um missionário, mas constituiu-se num marco luminoso na História da evolução humana, foi algo de tal significação que chegou a mudar a contagem do tempo, em antes e depois de Cristo.

Com o Cristo, o próprio conceito humano de religião mudou completamente. Não mais aquela religião mística, contemplativa, ritualística, cheia de oferendas e fórmulas repetitivas no interior dos templos. Religião, conforme Seus ensinamentos e, principalmente Seus exemplos, passou a ser, para aquele que lhe entendeu as lições, um novo modo de viver, de se relacionar com o próximo, em todos os ambientes, em todos os momentos. Ensinando que Deus está presente em todo o Universo, alargou os limites dos templos, transformando o mundo num templo imenso.

Jesus, com simplicidade e humildade, mudou milenares conceitos religiosos, a começar pela ideia errônea que se tinha a respeito de Deus, substituindo o conceito Deus temor por Deus amor. Repetiu antigos conceitos de fé a respeito da justiça de Deus, mas em frases de luminosa beleza, colocou a misericórdia acima da justiça, apresentando Deus não mais como aquele soberano inflexível, e sim como Pai amoroso e bom. A bondade e a humildade eram tidas como atributos dos fracos, daqueles que não sabiam lutar, sendo, por isso, os humildes desprezados pelos fortes e poderosos. Jesus veio mostrar a força da humildade, pois Ele, a criatura mais humilde e mansa que a Terra conheceu, abalou para sempre os conceitos de força e de poder, deixando lições que sobreviveram e ganharam adeptos com o passar dos séculos, apesar dos esforços daqueles que quiseram sufocá-las.

Ensinou, consolou, amparou, curou, libertou do mal pobres e ricos, fracos e poderosos, com a mesma naturalidade e solicitude amorosa. Soube contrapor-se ao mal com sinceridade e firmeza, sem arrogância ou revolta, mesmo nos momentos mais difíceis do Seu testemunho. Como diz Emmanuel, na obra já citada, Combateu pacificamente todas as violências oficiais do judaísmo, renovando a Lei Antiga com a doutrina do esclarecimento, da tolerância e do perdão. Espalhou as mais claras visões da vida imortal, ensinando às criaturas humanas que existe algo superior às pátrias, às bandeiras, ao sangue e às leis humanas. Viveu essas verdades, enfrentando sereno e calmo a farsa do Seu julgamento, a zombaria, os flagelos, a cruz e a morte. Coroando Sua passagem pela Terra, deixou o marco da Imortalidade gloriosa ao ressurgir no esplendor do Seu corpo espiritual, mostrando aos discípulos a vitória da vida sobre a morte.

Da palha da manjedoura à ressurreição gloriosa, Sua passagem pela Terra foi um marco luminoso.

Nasceu sobre a palha simples de um estábulo, mas mudou o próprio calendário terrestre.

Transformou aparentes derrotas em marcos luminosos para a evolução humana.

Condutor da evolução humana, não apenas apontou o caminho a ser seguido mas, como Mestre perfeito, o trilhou, Ele próprio, à frente.

De Sua origem humilde, elevou-se como um gigante do Bem, cujas palavras amorosas ressoam até hoje.

É o aniversário desse Missionário Maior, enviado por Deus à Terra, que comemoramos no dia de Natal. Por termos consciência do valor da mensagem que Ele nos deixou, é que devemos, nesta época do ano, meditar sobre como lhe oferecemos essa comemoração. O que temos a oferecer ao Mestre? É de senso comum que as lições bem aproveitadas agradam aos mestres.

Estaremos demonstrando a Jesus que somos discípulos aplicados?

Podemos apresentar-lhe algum progresso desde o último Natal?

Quanto crescemos em tolerância, bondade, paciência, benevolência, caridade?

Será que essas festas ruidosas, com bebidas, com excesso de comida, de doces, de presentes estariam ao gosto de Jesus, que primou sempre pela sobriedade e pelo equilíbrio?

Como nos sentiríamos, se o Sublime Aniversariante viesse à nossa mesa participar da festa que, afinal, é em Sua homenagem? Justo festejemos com alegria, com boas refeições, na companhia de familiares e amigos queridos, num clima de tranquilidade e paz. Podemos e devemos festejar o Natal, mas sempre com a preocupação de agradar ao Aniversariante. E se O festejássemos depois de termos repartido um pouco, ainda que seja daquilo que temos de supérfluo, com os que nada têm?

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