Jornal Mundo Espírita

Maio de 2019 Número 1618 Ano 87

Reflexões

fevereiro/2018 - Por Rejane Planer

Recentes estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre trabalho infantil no Brasil indicam que  1,8 milhões de crianças de 5 a 17 anos trabalhavam no Brasil, em 2016, sendo que a metade dessas (quase um milhão de crianças!) estavam em condições de trabalho infantil, porque tinham de 5 a 13 anos ou porque, apesar de terem de 14 a 17 anos[1], não possuíam o registro em carteira (808 mil) exigido pela legislação.[2]

São números muito significativos. Quase um milhão de crianças, que deveriam estar sob cuidado de seus genitores ou nas escolas vão à luta por condições melhores de sobrevivência, muitas delas em condições de serviço inapropriadas, para dizer o mínimo.

Nas telas mentais vemos imagens de crianças dormindo nos pórticos dos edifícios e nas ruas, crianças esmolando nos sinais de tráfego, jovens delinquentes. Lembramos que esta era a situação da criança há cem anos, quando eram levadas para o trabalho em outras regiões, para pelo menos terem o que comer ou compunham a mão de obra da indústria, dos fazendeiros e das famílias mais abastadas.

Na Europa, essa situação, comum no início do século XIX, foi-se extinguindo, dentro de um contexto histórico de sofrimento, devido ao impacto de duas guerras mundiais, mas que levou o Estado a colocar em vigor e prover os meios de aplicação de leis mais justas, que protegem a criança e a educam. Educação tornou-se prioridade e criou-se uma nova sociedade.

Infelizmente, a situação não é a mesma em todos os países europeus ou em outros continentes. A sociedade atual continua contaminada pelo egoísmo e pela indiferença. Pode-se pensar que trabalhar pela subsistência do dia a dia é melhor do que vagar pelas ruas. Mas, que sociedade é esta que não cuida das gerações futuras, que delinearão a sociedade do porvir?

Vivemos um momento tecnológico sem igual. Os meios de comunicação possibilitam-nos tomar conhecimento do que acontece nos quatro cantos do globo. O conforto e a facilidade de lidar com as tarefas do dia a dia, como a alimentação e a higiene pessoal e domiciliar estão ao alcance de uma grande parte da população.  Mas, o indivíduo anda apressadamente pelas ruas das cidades, em busca de ascensão social e econômica. Absorto em suas preocupações, evita olhar as condições precárias de seus companheiros de jornada, porque não fazem parte de seu grupo social. Quando se engaja em atos de caridade, coloca-se distante. Doa com as mãos, mas o coração permanece afastado.

Não há como deixar de refletir sobre nosso papel individual e coletivo nesta sociedade e, consequentemente, na família, o seu alicerce, a sua base.

A sociedade atual, formada por indivíduos de vários níveis evolutivos, com muitos idealistas, mas ainda poucos trabalhando com coragem e força de vontade para o Bem, é característica de mundos de expiação e provas, como a nossa casa planetária, ressalta o mestre lionês Allan Kardec. A transição inicia-se, mas para que aconteça é necessária a ação conjunta: um indivíduo consciente ajuda a criar uma sociedade mais consciente.

Ao enfatizar a importância da família, a Doutrina Espírita esclarece que família biológica é o cadinho de experiências e oportunidades de criar ou fortalecer laços de fraternidade, que vem a somar à grande família espiritual.

O venerando Espírito Joanna de Ângelis diz que o destino da sociedade está indissoluvelmente ligado ao destino da família.[3] A família é o nicho onde a criança cresce e recebe os conceitos éticos e morais que lhe irão nortear a vida. Por isso, a família é o alicerce da sociedade. A escola é, de certa forma, a parceira desse programa de educação infantil e deveria servir de abrigo para a criança e o jovem, provendo condições de se desenvolver, conhecer e aprender uma profissão.

Quando a família se desestrutura, seja porque os pais não têm condições de prover as condições mínimas de sobrevivência à sua prole ou porque lhe são indiferentes, as crianças e jovens ficam largados pelas ruas. Se a família perde seu valor de núcleo formador da sociedade e a sociedade carece de programas educacionais e sociais, que visam fortalecer a família e promover a inclusão social de seus componentes, a sociedade adoece.

Não podemos virar o rosto e ignorar tal situação!

Individualmente, precisamos estar conscientes de nosso papel na família. Pai e mãe, irmãos, avós, tios, cada um tem sua responsabilidade na criação da prole. É compreensível que cada um desses elementos da constelação familiar tem um papel diferente, com responsabilidades diferentes, mas todos relevantes. Cada um tem suas opiniões e interesses, mas o exemplo de amor e respeito, de compreensão e tolerância pelas limitações de cada um, precisa ser exercitado por todos. Quando os jovens não encontram um porto seguro na família, buscam organizar tribos e reagem a tudo que os vincule à estrutura familiar[4] e são vítimas fáceis da sociedade que os atrai com prazeres imediatos e variados. Perde-se a unidade familiar; corrompe-se a sociedade.

A Mansão do Caminho, em Salvador, na Bahia, fundada há 65 anos, por Divaldo Pereira Franco e Nilson de Souza Pereira é excelente exemplo de ação no Bem. Atendendo às necessidades sociais atua educando crianças, jovens e famílias, fornece auxílio a idosos, provê meios de subsistência aos mais carentes e tornou-se modelo de organização social e educacional para a região e o mundo. Na grande família espírita brasileira identificamos muitas iniciativas que lhe seguem o exemplo, cada uma atuando em sua região.

Que neste início de ano, quando ainda sentimos os eflúvios do Natal, no qual relembramos e comemoramos a vinda gloriosa de Jesus à Terra, há mais de 2000 anos, para ensinar o Amor e o caminho para a paz e a felicidade através da caridade e do perdão, possamos refletir sobre os valores mais importantes para nós, espíritas, Espíritos seguidores do Mestre Jesus, que ainda iremos muitas vezes encarnar neste abençoado planeta azul.

  1. A legislação em vigor no Brasil, a Constituição Federal de 1988, permite o trabalho a partir dos 16 anos, exceto nos casos de trabalho noturno, perigoso ou insalubre, nos quais a idade mínima é de 18 anos.
  2. Veja: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/18383-pnad-continua-2016-brasil-tem-pelo-menos-998-mil-criancas-trabalhando-em-desacordo-com-a-legislacao.html
  3. FRANCO, Divaldo Pereira. Constelação familiar. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2008. Citação da contracapa.

4 .Op. cit. cap. Constelação familiar.

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