Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Reação em cadeia

julho/2013
Simples como um raio de luz e poderoso como chama crepitante, o Espiritismo é a resposta sábia dos Céus às interrogações da criatura aflita na Terra, conduzindo-a ao encontro de Deus[1]. O Espiritismo é assim definido por Vianna de Carvalho, Espírito.

Esse mesmo autor, no entanto, faz importante observação: O Movimento Espírita não é o Espiritismo. O primeiro é constituído pelos indivíduos, bons e maus, conhecedores e ignorantes das verdades do mundo espiritual, ativos ou ociosos, que se deveriam integrar de corpo e alma ao serviço de renovação interior e da divulgação pelo exemplo.[2]

O Espiritismo é a Doutrina dos Espíritos dirigida aos homens.

Os espíritas, que alcançaram o verdadeiro entendimento do Espiritismo e suas propostas, vêm fazendo dos Centros Espíritas escola de almas que agasalham os corações batidos pelos vendavais das paixões, celeiro de esperança na inquietude da noite das aflições, casa de incessante socorro aos enfermos d’alma, oásis em escaldante deserto de egoísmo e injustiças.

São esses espíritas que, ao tempo em que distribuem a luz do conhecimento e do consolo, primeiramente iluminam-se a si próprios, mantendo constante esforço por se fazer melhor a cada novo dia. E fazem a diferença.

Nem todos os espíritas, porém, agem assim. Por mais paradoxal que seja.

Em mais uma importante constatação e chamamento de atenção, Manoel Philomeno de Miranda, intervém:

Muitas células de cultura da fé espírita encontram-se gravemente ameaçadas pelo “vírus” do “amor-próprio” nos companheiros, e que lenta, mas seguramente, vai devorando a concórdia, disseminando o miasma asfixiante da incompreensão.

A princípio discretamente, depois vigoroso, o desentendimento cria a antipatia, cristaliza a aversão e fomenta o ódio, que nasce sutil e se nutre de “pontos de vista” como fatores primaciais do desequilíbrio.[3]

Conscientemente ou não, há esses disseminadores da discórdia, provocadores da desunião, estimuladores da suspeita, destruidores de obras de amor.

Alguns desses pomos da discórdia se elegeram líderes por si mesmos, outros se dizem trabalhadores, outros simples frequentadores do Centro Espírita. Todos esses, no entanto, se dizem espíritas, mas são propagadores da desarmonia e de ideias destrutivas, infelicitadoras, divisionistas, buscando encontrar ressonância nos corações à sua volta. Semeiam,sorrateiramente, a divisão, lançando tochas de discórdia que esperam provocar a dúvida e a incerteza nos espíritos, revelar fraquezas verdadeiras ou simuladas e pôr em confusão os membros da instituição.

Desde os primórdios do Espiritismo, Allan Kardec chama a atenção sobre os falsos irmãos (Revista Espírita, março de 1863), dentre os quais aqueles que são mais adocicados e mais insinuantes; sob seu olhar oblíquo e com palavras melosas, sopram a discórdia, pregando a desunião; lançam jeitosamente sobre o tapete questões irritantes ou ferinas, assunto de natureza a provocar dissidências; excitam um ciúme de preponderância entre os diferentes grupos, e ficam encantados em vê-los se lançarem pedra.

Mas não são adversários confessos que assim agiriam. O Espiritismo, cujos princípios têm tantos pontos de semelhança com os do Cristianismo, também deve ter os seus Judas, para que tenha a glória de sair triunfando dessa nova prova. (Revista Espírita, junho de 1865).

E Allan Kardec acrescenta: Mas ficamos de olho sobre eles, certos de que um dia mostrarão as suas verdadeiras intenções, porque é tão difícil a um falso Espírita arremedar sempre o verdadeiro Espírita, do que um mau Espírito simular um Espírito superior; nem um nem o outro podem sustentar por muito tempo seu papel.

Jesus recomendou: Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores.[4]

Não nos enganemos.

Se não conseguimos harmonizar-nos num grupo de corações, estamos doentes emocionalmente, necessitados de refazimento interior e medicação auxiliar.[5]

Precisamos, urgentemente, renovar essa paisagem, e o fazermos em forma de reação em cadeia.

Nesse sentido, leciona o Venerando Benfeitor Espiritual, Bezerra de Menezes: Solidários, seremos união. Separados uns dos outros seremos pontos de vista. Juntos, alcançaremos a realização de nossos propósitos.

Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me.[6]

O ensinamento do Cristo sobre renunciar a si mesmo é um apelo atual, vigoroso, que não contemporiza com o império dominador que construímos para o eu. Enaltece a humildade verdadeira.

É hora de estancar-se o passo na correria desenfreada em busca das ilusões, a fim de fazer-se uma análise mais profunda em torno da Doutrina Espírita e dos seus objetivos, saindo-se das brilhantes teorias para a prática, a vivência dos seus ensinamentos libertadores.

Menos competição e mais cooperação, deve ser a preocupação de todos os espíritas sinceros… [7]

Temos necessidade de cultivar a lavoura do auxílio-mútuo, realizando um programa de trabalho fraterno na base da tolerância.

É imperioso atender às linhas severas e racionais da edificação, mediante o trabalho constante, ajudando, indistintamente, contribuindo para a solidariedade geral, e chegaremos à Caridade excelente, sem a qual é impossível a salvação.

(…) E arranquemos, em caráter definitivo, a gramínea invasora da desunião e do capricho...[8]

Fraternidade, fraternidade, que falta que você faz!

 


[1] FRANCO, Divaldo P. Aos espíritas. Organizado por Álvaro Chrispino. Espíritos Diversos. Cap. 15.

[2] ______. Espiritismo e vida. Vianna de Carvalho. Cap. 30.

[3] ______. Sementeira da fraternidade. Diversos Espíritos. Cap. 29.

[4]Mateus 7 : 15.

[5]FRANCO, Divaldo P. Sementeira da fraternidade. Diversos Espíritos. Cap. 29.

[6]Mateus 16 : 24.

[7]FRANCO, Divaldo P. Espiritismo e vida. Vianna de Carvalho. Cap. 11.

[8]______. Sementeira da fraternidade. Diversos Espíritos. Cap. 29.

 

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