Jornal Mundo Espírita

Abril de 2021 Número 1641 Ano 89

Quem foi André Luiz?

março/2021 - Por José Passini

A obra Nosso Lar, de André Luiz, trouxe inegavelmente novos horizontes aos estudos do Espiritismo. Sua publicação, em 1944, pela Federação Espírita Brasileira, causou muitas discussões, pois até aquela época havia muito poucas informações de como se organiza a vida fora da do mundo material, na erraticidade, como é dito em O Livro dos Espíritos. Em verdade, já havia informações vagas, conhecidas de bem poucas pessoas, nas obras de Emanuel Swedenborg, engenheiro mineralogista, e do Reverendo Vale Owen. Essas obras traziam algumas informações, mas não recebiam grande atenção nem eram objeto de estudo.

Com a publicação do livro Nosso Lar, houve um interesse maior em se conhecer como se organiza a vida fora do mundo material, no assim chamado Mundo Espiritual. Realmente, a obra de André Luiz é um divisor de águas. Descortinou novos horizontes, abrindo um entendimento mais amplo, mais concreto do nosso destino após a desencarnação. Mostrou, com muita clareza, que depois de deixar a vida física, o Espírito pode, dependendo dos seus méritos, continuar atuando em organizações sociais até muito mais perfeitas que na Terra, ou encaminhar-se para locais onde impera a dor e o desequilíbrio.  Essa obra foi, inegavelmente, a resposta do Alto às inúmeras interrogações de como se organiza a vida no Além. Uma verdadeira bênção esclarecedora.

O Autor usa um pseudônimo, conforme esclarece Emmanuel, o diretor espiritual de toda a obra de Chico Xavier1: Por trazer valiosas impressões aos companheiros do mundo, necessitou despojar-se de todas as convenções, inclusive a do nome, para não ferir corações amados, envolvidos ainda nos velhos mantos da ilusão.

Mas, apesar da ponderação do Benfeitor, não tardou o aparecimento daqueles que, rendendo-se à curiosidade, não respeitando o anonimato de André Luiz, perfeitamente explicado por Emmanuel no seu prefácio, encetaram buscas e levantaram hipóteses sobre a identidade do Espírito que se apresentava sob esse pseudônimo, numa triste profanação, num desrespeito à vontade do Autor e num menosprezo às ponderações de Emmanuel.

A tese que tem ganhado forças é a de que André Luiz foi Carlos Chagas, tendo alguns escritores, algumas editoras e até alguns palestrantes encontrado coragem para não só publicar o nome, mas até de ilustrar artigos e palestras com fotos do famoso cientista. Além desses disparates, foram publicadas fotos de uma pintura representando André Luiz, produzida, segundo foi explicado, por alguém que se baseara em descrições de Chico. Aqueles que adotaram a figura como real, a teriam mostrado ao Chico, que teria concordado com a semelhança do Espírito que se apresentava com o nome de André Luiz. Entretanto, essa figura não coincide com a imagem de Carlos Chagas.

Mas, passemos a fatos que desmentem essa identidade atribuída a André Luiz. Se atentarmos para o diálogo dele com o Ministro Clarêncio, quando pensava em solicitar-lhe trabalho, este lhe diz2: Já sei. Verbalmente pede qualquer gênero de tarefa; mas, no fundo, sente falta dos seus clientes, do seu gabinete, da paisagem de serviço com que o Senhor honrou sua personalidade na Terra. E prossegue referindo-se às atividades desenvolvidas por ele: … nos quinze anos de sua clínica, também proporcionou receituário a mais de seis mil necessitados.

 O Ministro Clarêncio deixa muito claro que André Luiz foi médico, clínico e não cientista, pesquisador de renome internacional, como o foi Carlos Chagas. Além do mais, ele fala em só quinze anos de atividade, pois André Luiz desencarnou prematuramente em consequência de desregramentos vários, descritos na obra. Carlos Chagas descobriu a doença de Chagas em 1906 e em 1911 já chefiava uma campanha de profilaxia à malária. Trabalhou, portanto, 28 anos, ou seja, de 1906 até a sua desencarnação em 1934.

André Luiz deve ter desencarnado em 1931, pois em 1939 Lísias dizia-lhe3: Estamos em agosto de 1939. Seus últimos sofrimentos pessoais não lhe deram tempo para ponderar sobre a angustiosa situação no mundo, mas posso afiançar que as nações do planeta se encontram na iminência de tremendas batalhas.  Talvez não saiba ainda que a sua permanência nas esferas inferiores durou mais de oito anos consecutivos.

 Pelas citações acima, chega-se à conclusão que André Luiz desencarnou em 1931, ou pouco antes, conforme a obra Nosso Lar, vitimado por um câncer nos intestinos, depois de uma permanência de quarenta dias em hospital. Carlos Chagas desencarnou em 1934, aos 55 anos, vitimado por um infarto do miocárdio, quando preparava uma conferência que faria no dia seguinte.

Além do mais, André Luiz teve três filhos: duas moças e um rapaz. Carlos Chagas deixou dois filhos do sexo masculino.

Carlos Chagas foi filho de um fazendeiro que desencarnou quando ele tinha apenas quatro anos. André Luiz conviveu com seu pai, conforme relato do seu encontro, na colônia Nosso Lar, com Silveira, que fora cliente de seu pai, que era comerciante. André Luiz lembra-se de que, jovem, apoiara o pai em atitude de cobrador insensível em relação a Silveira que passava por dificuldades financeiras.

Será que o caso Humberto de Campos não serve de exemplo? A Federação Espírita Brasileira e Francisco Cândido Xavier, apesar de haverem obtido por decisão judicial, o direito de continuar a publicação de obras com o nome do Espírito Humberto de Campos, decidiram, com a anuência do autor, publicar o que foi escrito posteriormente sob o pseudônimo Irmão X. Atitude merecedora de aplauso, pois o que mais interessa é o conteúdo da obra e não o nome do seu autor.

Uma pergunta, para finalizar: Como pode o sensacionalismo sobrepujar o bom nome, a sobriedade e a veracidade da Doutrina Espírita?

 

Referências:

  1. XAVIER, Francisco Cândido. Nosso lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 1978. Novo amigo.
  2. cit. cap. 14.
  3. cit. cap. 24 e 7.
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