Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87
Sugestão de Leitura Envie para um amigo Imprimir

Quedas e Ascensão

setembro/2012

Como se constrói a trama de um romance espírita? É comum as pessoas questionarem se todos aqueles relatos se referem mesmo a personagens reais, se não há muito de ficção do autor espiritual.

Quando existe a informação de que a história é verídica, que os nomes foram alterados, no intuito de salvaguardar a identidade dos indivíduos, a curiosidade é a nota constante, pois se deseja saber quem são eles, onde residem, como vivem, na atualidade.

Por isso, é apaixonante quando se tem a curiosidade atendida. O romance parece adquirir maior dinamismo.

Certa feita, estando em Miami, Divaldo Pereira Franco conheceu a vida de Álvaro Múnera, conhecido como El Pilarico. O grande poeta, romancista, político e jornalista francês desencarnado, Victor Hugo, disse ao médium baiano que queria escrever a história daquele ex-toureiro.

O dramaturgo investigou os arquivos históricos e teve acesso aos conteúdos espirituais de El Pilarico e, servindo-se da mediunidade psicográfica de Divaldo, escreveu Quedas e Ascensão, publicado em 2003, numa edição de dez mil volumes, pela editora Leal, Salvador, Bahia.

É a história de um menino colombiano que começou a lidar com touros aos quatro anos, acompanhado do seu pai, um aficionado de touradas. Aos doze, decidiu ser toureiro. Aos dezoito anos, as portas de uma carreira internacional lhe foram abertas, alcançando sucesso na Espanha.

Ele completou vinte e duas corridas e estava próximo da consagração. Na tarde de 22 de setembro de 1984, em Albacete, a cornada de um touro na perna esquerda o projetou no ar e o precipitou de cabeça, ao solo. Foi o fim do seu sonho, do sucesso e da fama.

Nas palavras do próprio Álvaro: A queda provocou-me uma fratura da 5ª vértebra cervical com lesão medular completa acompanhada de trauma cranioencefálico. Senti uma corrente de ar fria e perdi toda a sensibilidade do corpo.

O acidente o deixou paraplégico e cedo descobriu que, sem a fama e o glamour das arenas das touradas, amigos logo deixaram de existir. Ele diz que duas vezes Deus lhe mandara recados, que ele não soube entender: uma vez em que matou uma vaca de treino e soube depois que ela estava em gestação. Chocou-se e chegou às lágrimas quando viu ser tirado o feto do seu ventre. Outra, em que ele cravou quatro ou cinco vezes uma espada num touro e ele morreu em lenta agonia.

É a saga extraordinária desse ex-toureiro que Victor Hugo narra em Quedas e Ascensão, esclarecendo nessa obra as causas espirituais dos acontecimentos e o melhor procedimento para as suas personagens, intercalando o valor descritivo dos dramas e conflitos com a orientação espírita.

El Pilarico, que na obra é chamado de Pilarzito, conheceu a Doutrina Espírita nos Estados Unidos. Integrado num grupo mediúnico, uma médium sugeriu-lhe que ele estudasse O Livro dos Espíritos, para saber a origem da sua situação, de acordo com a lei de causa e efeito.

Com sua pena, habituada a descrever com tintas vivas as cenas da miséria moral, dos descalabros humanos, Victor Hugo relata a juventude descomprometida de Pilarzito, um homem sem Deus.

Afinal, para que Deus se tinha o mundo nas mãos e Deus era apenas uma alegoria religiosa.

A descrição do romancista francês desce a detalhes e apresenta fenômenos que a Doutrina Espírita bem explica, como o déjà-vu de Álvaro, quando vai tourear na Espanha. Ele sente que já conhece aquelas arenas das corridas, os seus corredores e estranhos presságios o fazem temer aquela tarde que transformaria a sua vida, remodelando-lhe o pensamento e as atitudes (pressentimento).

Pilarzito modifica diametralmente sua vida e se integra a programas em defesa da vida e de respeito a todo ser vivo, seja um cão, um touro.

E aí reside o extraordinário: se descobrir que aquele personagem descrito por Hugo é verdadeiro, que ele, conforme a narrativa, se transforma. Tudo isso nos emula à reflexão dos próprios atos, da própria vida e mais nos diz que é possível, sim, como afirmam os Espíritos, vencer as paixões e renovar-se, mesmo entre tormentos.

Hoje, o objetivo de Múnera é acabar com a tortura dos animais, através da Organización Fuerza Anticrueldad Unida por La Naturaleza de los Animales (FAUNA), que reúne várias associações contra os maus-tratos aos animais, apostando na vida, não na crueldade e no não sofrimento de nenhuma espécie.

A coragem de mudar. A vontade de vencer. Em sua cadeira de rodas, Pilarico é o atestado do homem que venceu a si mesmo, mesmo sendo considerado traidor pelos tauromáquicos e afirma: A cadeira de rodas é uma bênção na minha vida, porque eu nunca havia estado em contato com a dor humana. O acidente não foi o ponto de chegada, mas sim de partida. Aquele touro estava no meu caminho e direcionou-me, mas foi o processo pessoal na solidão que me fez refletir.

Ele se descreve como um Espírito em trânsito pelo planeta, alguém que pretende deixar o invólucro carnal, rumo à Espiritualidade, bem melhor do que quando aqui aportou. Um homem que busca, através das atuais ações, reparar os crimes de tortura cometidos contra os animais, durante anos.

A sua história é pública. Mas os detalhes espirituais são oferecidos por Hugo.

Recomendamos a leitura do romance, que informa a trama que antecede à atual e que determinou os trágicos acontecimentos e para quem desejar comparar as informações da obra mediúnica aos fatos, ainda poderá ouvir a palestra de Fábio Villarraga, médico espírita colombiano, feita na Federação Espírita de Cundinamarca, departamento da Colômbia, em 18 de abril de 2007, através do link http://www.youtube.com/watch?v=KkVJ4nweonM&feature=channel_video_title.

Assine a versão impressa
Leia também