Jornal Mundo Espírita

Julho de 2020 Número 1632 Ano 88

Que frutos estamos produzindo?

agosto/2016 - Por Francisco de Assis Pereira

Todas as tradições religiosas propõem (ou impõem), aos seus seguidores, uma avaliação periódica de suas atitudes face aos princípios e valores que afirmam seguir.

Ilustrando a afirmativa acima lembramos Jesus a nos alertar: Muito será pedido a quem muito foi dado (Lc,12:48), como a nos lembrar que a adesão da criatura a um programa de realizações, vinculado a concepções e orientações de vida, reclama coerência na conduta cotidiana. E define, ainda, como critério de coerência comportamental, o Excelso Mestre: Cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto. (Lc, 6:44)

Não seria diferente a Doutrina Espírita em sua feição de esclarecimento e consolação. Apresentando-nos uma cosmovisão original, uma leitura das leis que regem o mundo sócio-moral e, de maior importância, uma compreensão sobre nossa origem e destinação, o Espiritismo igualmente nos estimula, permanentemente, a uma avaliação do que já conseguimos ser e atingir, a partir dos princípios, valores e propostas que nos apresenta em seu corpo doutrinário e que configuram nossas convicções.

Não é sem outra razão, senão essa necessidade avaliativa apontada, que os benfeitores espirituais, com destaque para o Espírito Bezerra de Menezes, ao nos esclarecerem sobre a grande transição, igualmente nos solicitam um exame de nosso proceder para que tomemos consciência – ainda que precária – das nossas reais condições espirituais, do patrimônio que já conseguimos reunir, em termos de atitudes alicerçadas nessa nova compreensão da vida e sua finalidade, apresentada pela Doutrina Espírita.

Na obra Opinião Espírita6, pela mediunidade de Waldo Vieira, o Espírito André Luiz nos diz que o dever do espírita-cristão é tornar-se progressivamente melhor, para destacar, em seguida:

Útil, assim, verificar, de quando em quando, com rigoroso exame pessoal, a nossa verdadeira situação íntima.

Espírita que não progride durante três anos sucessivos permanece estacionário.

O Espírito Emmanuel, pela mediunidade de Francisco Cândido Xavier, invariavelmente nos conclama a uma atitude de exame de nossa conduta, ao longo de suas mensagens, entre as quais destacamos a exortação: Convém o esforço de autoanálise, a fim de identificarmos a qualidade das próprias ações. É indispensável conhecermos os frutos de nossa vida, de modo a saber se beneficiam os nossos irmãos.4

A que frutos se refere Emmanuel?  A nossas ações, comportamentos, sentimentos, motivações, esforços, palavras, enfim, tudo o que diz respeito à expressão do nosso eu, no movimento da Vida.

É o próprio Allan Kardec quem nos dirá sobre os frutos almejados com o Espiritismo em nossas vidas, conforme consta na Revista Espírita, outubro de 1861, num discurso por ele proferido após contatos com irmãos espíritas de algumas localidades francesas e respondendo à questão sobre o que produzia o Espiritismo:

Tem impedido inumeráveis suicídios; restaurou a paz e a concórdia num grande número de famílias; tornou mansos e pacientes homens violentos e coléricos; deu resignação aos que não a tinham e consolações aos aflitos; reconduziu a Deus os que não O conheciam, destruindo-lhes as ideias materialistas, verdadeira chaga social, que aniquila a responsabilidade moral do homem. Eis o que tem feito e faz todos os dias, o que fará cada vez mais, à medida que se espalhar. 2

E, de fato, a Doutrina Espírita se espalhou e se espalha, levando a mensagem da imortalidade triunfante, da Justiça Divina, da vocação ontológica do Espírito para a perfectibilidade, aos quatro cantos da Terra exausta, em clamor pela própria necessidade de espiritualização de seus filhos, ainda tão imaturos no seu senso moral.

Observemos que essas colocações do Codificador são anteriores à publicação de O Evangelho segundo o Espiritismo, que ocorreria em abril de 1864. Nessa obra, em seu capítulo XVIII, Muitos os chamados e poucos os escolhidos, o Espírito Simeão, na única mensagem selecionada por Kardec,  comenta inicialmente a afirmativa de Jesus: Nem todos os que me dizem: Senhor! Senhor! entrarão no reino dos Céus; apenas entrará aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus.

No corpo da mensagem, esse Espírito nos leva a refletir sobre os frutos desejáveis a serem produzidos pelos seguidores da Boa Nova, frutos de vida, de esperança e de fé que devem alimentar os viajores do caminho. Atitudes pautadas nos valores do Evangelho, sentimentos e pensamentos elevados, palavras edificantes sintetizam a substância desses frutos, resultados da renovação ou construção do progresso intelecto-moral a que estamos destinados e através do qual atingiremos a felicidade almejada.

Iniciados na luz da Revelação Nova, os espiritistas cristãos possuem patrimônios de entendimento muito acima da compreensão normal dos homens encarnados, afirma Emmanuel.5 Esse patrimônio, por consequência, exige aplicação, vivência para que o ciclo do conhecimento se complete.

Com a ampla compreensão que desenvolveu em seus labores na Codificação da Doutrina, Kardec sintetiza de modo lúcido e abrangente os frutos que deveremos produzir como resultados da Revelação Espírita em nossas vidas:

Tais, em resumo, os resultados da revelação nova, que veio encher o vácuo que a incredulidade cavara, levantar os ânimos abatidos pela dúvida ou pela perspectiva do nada e imprimir a todas as coisas uma razão de ser. Carecerá de importância esse resultado, apenas porque os Espíritos não vêm resolver os problemas da Ciência, dar saber aos ignorantes e aos preguiçosos os meios de se enriquecerem sem trabalho? Nem só, entretanto, à vida futura dizem respeito os frutos que o homem deve colher dela. Ele os saboreará na Terra, pela transformação que estas novas crenças hão de necessariamente operar no seu caráter, nos seus gostos, nas suas tendências e, por conseguinte, nos hábitos e nas relações sociais. Pondo fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, elas preparam o do bem, que é o reino de Deus, anunciado pelo Cristo.3

Eis o desafio diante da árvore da vida, na qual temos colhido a seiva divina da Nova Revelação: sermos a terra fértil a receber as sementes de vida eterna para germinarmos e darmos frutos a 30, a 60, a 100 por um, de acordo com nossa capacidade de esforço para realizar o Bem.

 

Bibliografia:

1. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 123. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

2. REVISTA ESPÍRITA. São Paulo: EDICEL, ano IV, n. 10, out. 1861.

3. __________. A gênese. 37. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1996. cap. 1, item 62.

4. XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Caminho, verdade e vida. 23. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. cap. 122.

5. __________. Pelo Espírito Emmanuel. Vinha de luz. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB. cap. 60.

6. __________; VIEIRA, Waldo. Pelos Espíritos Emmanuel; André Luiz. Opinião espírita. 9. ed. Uberaba: CEC, 1998. cap. 1.

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