Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2017 Número 1601 Ano 85

Quando chega a morrer – As várias formas de morrer

novembro/2017 - Por Edson G. Tristão

A morte sempre foi objeto de preocupação para o ser humano. Por maiores que sejam suas condições de riqueza e poder, ela chega inexoravelmente, desde que a finitude está implícita nos nossos ciclos de vida. Além das tentativas de protelar esse momento de transição para que seja o mais tardio possível, tenta-se ainda obter uma boa morte, quando o momento for realmente inadiável. Ela deveria ser rápida, indolor e sem sofrimento.

Como nem sempre é assim, introduziu-se conduta com vistas a abreviar a vida de pacientes em estado terminal ou que se encontrem em grande sofrimento físico e psíquico. O nome dado a esse tipo de morte passou a ser conhecido como eutanásia, termo introduzido na literatura pelo médico, político e filósofo inglês Francis Bacon, em 1623, na obra Historia Vitae et Mortis.1 Trata-se de palavra de origem grega, em que eu significa bom e thánatos, morte. A principal razão de quem defende essa prática é que todo o indivíduo tem o direito de pôr fim à sua vida, caso esteja em situação de grande sofrimento físico e psíquico.

A eutanásia é classificada em ativa (direta), quando, por exemplo, é injetada uma substância letal na veia. É passiva (indireta), quando se negam determinados cuidados médicos, sem os quais o doente morrerá. Foi o caso da norte-americana Terri Schiavo, que ficou anos em estado de coma vegetativo até que, em 2005, seu marido conseguiu na Justiça que o hospital interrompesse a alimentação parenteral que a mantinha viva. Ela não recebeu nenhum medicamento para abreviar a vida, apenas foi deixada sem a alimentação endovenosa. A eutanásia se caracteriza, sobretudo, pela intenção, aparentemente boa, de provocar a morte de outra pessoa, com o objetivo de eliminar seu sofrimento.

Duas outras palavras se originaram daquele radical: distanásia e ortotanásia. A distanásia é o oposto da eutanásia. Dys significa dificuldade e, conforme acima explicado, thanatos, morte. Também conhecida como obstinação terapêutica. Ela acontece quando existe a persistência dos profissionais de saúde em continuar administrando medicamentos e usando tecnologias que permitam prolongar a vida do doente, mesmo sem chances de reversão do estado grave em que ele chegou. A ortotanásia é o que acontece quando simplesmente se aceita, com realismo e sensatez, o estado terminal do paciente, reconhecendo-se que as capacidades humanas não são mais suficientes para impedir a iminência da morte. Ela evita que se caia na obstinação terapêutica (distanásia), mas também se recusa a intervir por ação ou omissão a fim de acelerar a morte do paciente (eutanásia).

A distanásia pode ser considerada uma forma de desespero e a falta de confiança em Deus, enquanto a eutanásia não deixa de ser um atentado contra a vida, pois causará a morte de outro.

A interferência para encurtar ou alongar a vida humana em doentes terminais ou portadores de doenças graves é um dos dilemas mais difíceis da medicina, sendo seus aspectos constantemente debatidos em congressos médicos. Sabe-se que em alguns países, como a Bélgica e Holanda, a eutanásia está oficializada, quando ocorre concordância da família ou do próprio paciente. Essa conduta, no entanto, não é aceita pela medicina brasileira, que não concorda com a eutanásia ativa, uma vez que a formação médica tem como missão a luta para restabelecer a saúde e não levar à morte. A eutanásia passiva conta com a simpatia da maioria dos médicos e da sociedade, que admite ser intolerável ficar prolongando a vida de um paciente em situações como a do coma vegetativo, sem qualquer perspectiva de retorno à vida.

A humanização da morte nos pacientes terminais tem ganhado espaço nas condutas atuais, optando-se por permitir que ele morra em sua casa, rodeado pelos familiares ao invés de no leito de UTI. Hoje é possível o paciente escolher a forma de tratamento que deseja, assim como o local da sua morte, que pode ser no hospital ou na residência. Esses desejos tornam-se legais através de um documento redigido pela pessoa, no pleno gozo de suas faculdades mentais, com o objetivo de dispor acerca dos cuidados, tratamentos e procedimentos aos quais deseja se submeter quando estiver com uma doença ameaçadora da vida e ele não estiver em condições de decidir ou manifestar sua vontade. Esse documento é chamado de Testamento Vital.1

O tema morte e o morrer é tão delicado que atualmente está aparecendo o médico tanatologista, especialista em morte. Ele atua junto à equipe médica, paciente e familiares, ajudando a encontrar os melhores caminhos a serem seguidos nesses casos.

Ética Médica

No dia 28 de novembro de 2006, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução CFM  1.805/2006, favorável à ortotanásia. O documento informa que, na fase terminal de enfermidades graves e incuráveis, é permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente, garantindo-lhe os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, na perspectiva de uma assistência integral, respeitando a vontade do paciente ou seu representante legal. Abriu-se, a partir desse momento, um espaço oficial para a medicina paliativa, que permite aos pacientes terminais morrer com dignidade. Em seus preceitos, ela preconiza: o cuidado com o sofrimento, o não abandono do doente, a informação ao paciente sobre seu estado e as decisões sobre o seu tratamento. Determina-se que seja assistido para superar seus medos e confortado em sua fé. Finalmente, entende que ele possa se despedir da vida onde achar melhor.2

A Visão Espírita

A visão espírita se baseia na realidade da alma, que é o ser inteligente da criação, povoando todo o Universo, além do mundo material, conforme O livro dos Espíritos.3 Sendo a alma independente da matéria, ela continuará existindo após a morte do corpo físico. Esse Espírito continuará animando outros corpos em novas existências, aprendendo e desenvolvendo suas potencialidades em vidas sucessivas. Pelo uso do seu livre-arbítrio, tomará decisões certas ou erradas, desenvolvendo assim o seu caminho através dos milênios, sendo o artesão do seu futuro.  A dor e o sofrimento poderão se tornar suas companheiras, assim como a alegria e a felicidade. Caberá a cada pessoa essa decisão, que será fruto dos seus atos, pensamentos e comportamentos. Todas elas, no entanto, contribuem para o seu progresso, desde que aparecem não como punição ou recompensas mas como processos educativos da alma.

As doenças têm origem nesse mecanismo, marcando presença quando ocorre o desequilíbrio físico ou mental. A partir do momento em que a pessoa doente entende o mecanismo da reencarnação como uma lei natural de evolução, terá noção clara da sua situação no final da trajetória terrena. Ao entender a dor, a tristeza da despedida e o adeus às pessoas amadas, não sofrerá, pois saberá que está cumprindo mais um ciclo necessário. Estará apenas mudando de endereço, voltando para a pátria espiritual, que é a verdadeira, a fim de examinar sua existência ocorrida na Terra e planejar o futuro.

Na questão 258 do mesmo livro, Allan Kardec questiona se, antes de começar uma nova existência corporal, o Espírito, ainda no mundo espiritual, tem consciência e previsão do que lhe sucederá no curso de sua vida terrena. Os Espíritos respondem: Ele próprio escolheu o gênero de provas por que há de passar e nisso consiste o seu livre-arbítrio.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo4, Kardec pergunta: Um homem está agonizante, vítima de cruéis sofrimentos: sabe-se que seu estado é desesperador; é permitido poupar-lhe alguns instantes de angústia, apressando o seu fim?

O Espírito São Luiz responde: (…) O materialista que não vê senão o corpo e não considera a alma, não pode compreender essas coisas; mas o espírita que sabe o que se passa além do túmulo, conhece o valor do último pensamento. Abrandai os últimos sofrimentos quanto esteja em vós, mas guardai-vos de abreviar a vida, não fosse senão de um minuto, porque esse minuto pode poupar muitas lágrimas no futuro.

O Dr. José Roberto, da Associação Médico-Espírita – AME/ES, membro do Conselho Regional de Medicina daquele Estado e um dos responsáveis pela Comissão de Ética da AME/Brasil, assim relatou no MEDNESP de 2009, realizado em São Paulo, as condutas éticas a serem seguidas pelos médicos espíritas:

  1. Somos contrários a qualquer meio intencional que antecipe a morte natural do ser humano, seja pela eutanásia, ativa ou passiva, ou pelo suicídio assistido.
  2. Contrários à distanásia, por entender tratar-se de um prolongamento inútil da vida, por uma obstinação terapêutica, que leva o doente a uma morte dolorosa, com sofrimentos orgânicos, físicos e espirituais.
  3. Favoráveis à ocorrência da morte natural. Aquela que se dá no tempo certo, respeitando a autonomia do paciente, suas crenças, medos, desejos e esperanças, oferecendo-lhe o apoio médico, psicológico, religioso e familiar. Contribuir para que ele possa morrer sem dor e viver com dignidade seus últimos instantes de vida terrena. Compreende que o processo de morrer é uma fase importante para o aperfeiçoamento do Espírito, repleto de experiências enriquecedoras tanto para o médico como para o paciente, sobretudo, quando ambos têm olhos voltados para a realidade da vida imortal.

Bibliografia:

  1. SOARES, José Roberto. Eutanásia, distanásia e ortotanásia. Rev. Saúde e Espiritualidade, AME Brasil, maio/jun. 2015. p. 40-45.
  2. PESSINI, L. Dignidade e solidariedade no adeus à vida. Jornal do Conselho Federal de Medicina, 1997.
  3. KARDEC, A. O livro dos Espíritos. Tradução de J. Herculano Pires. 69. ed. São Paulo: LAKE, 2012. pt. 2, cap. 1, q. 76.

4) ________. O Evangelho segundo o Espiritismo. 128. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.  cap. 5, item 28.

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