Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2020 Número 1635 Ano 88

Qual a plataforma?

outubro/2020 - Por Sandra Borba Pereira

Ao ler o título deste texto talvez você, leitor, tenha espontaneamente pensado nas atuais plataformas do mundo da Internet, em uso bastante disseminado no nosso próprio Movimento, em razão da pandemia, fechamento dos prédios das instituições, necessidade de evitar aglomerações, dentre outras circunstâncias e necessidades.

Em nosso Movimento, multiplicam-se reuniões on-line, lives variadas e grande número de casas realiza campanhas para terem seus próprios canais. A mídia tem se tornado uma grande tribuna, um recurso, sem dúvida, importante e útil por diminuir distâncias e promover o encontro dos que estão em isolamento ou recolhimento social.

Há, pelo menos, dezenove sinônimos para a palavra plataforma e vários sentidos que vão da engenharia e arquitetura à política e à informática. Aqui faremos o recorte de plataforma enquanto um conjunto de propostas que, expressando  ideias e valores se converte  num caminho ou roteiro a seguir para a consecução de objetivos comuns.

Um rápido olhar ao passado nos revelará diferentes plataformas apresentadas na História, por grupos e líderes e/ou ditadores, em razão de suas concepções ideológicas e interesses de variada ordem, notadamente quanto ao poder, domínio, enriquecimento, destruição de inimigos etc. Raras dessas plataformas, em verdade, apresentam uma visão do bem comum e as propostas de efetivação das ideias de liberdade, igualdade e fraternidade, consideradas fundamentais à criação de uma sociedade justa e democrática… para todos, conforme Allan Kardec nos esclarece na página Liberdade, Igualdade e Fraternidade.1

Há, porém, uma plataforma apresentada, há quase dois mil anos, que será capaz de assegurar, se vivenciada individual e coletivamente, a criação de um estado de bem-estar sociomoral, garantindo uma cultura de respeito, concórdia e paz… para todos e para cada um, explicitada no conteúdo da Boa Nova.

Podemos inferir que as plataformas se opõem: de um lado as plataformas do mundo e do outro as plataformas do Cristo. Visualizemos, para melhor entendimento, essas plataformas e suas propostas no campo individual, inspirados em página do Espírito Emmanuel:2

PLATAFORMAS DO MUNDO PLATAFORMAS DO CRISTO
– Acomoda-te como puderes – Levanta-te e anda
– Faze o que desejas – Não peques mais
– Destrói os opositores – Ama os teus inimigos
– Renega os que te incomodam – Ao que te exige mil passos, caminha com ele mais dois mil
– Apega-te à posse, ao que é teu – Ao que te roga a túnica, cede também a capa
– Fere a quem te ferir – Perdoa sempre
– Descansa e goza – Avança enquanto tens luz
– Censura o que não te agrada – Não condenes
– Aborrece aos que te aborrecem – Ora pelos que te perseguem e caluniam
– Acumula ouro e poder para seres temido – Busca em primeiro lugar os tesouros do céu

 

Citaríamos, para ilustrar, personagens que a História nos apresenta como propositores e vivenciadores da plataforma do mundo: Gengis Khan, Átila,  Pizarro, Stalin, Hitler, dentre outros que pautaram suas vidas em conquistas e destruição.

Também encontramos os que  elegeram a plataforma do Cristo e deixaram um rastro de luz por onde passaram, convertendo-se em cartas vivas de Jesus: discípulos como Pedro, João e Paulo, mulheres como Maria de Magdala e Joana de Cusa, Agostinho, Francisco de Assis, Cura d’Ars,  Chico Xavier e tantos outros, convertidos em tochas luminosas a apontarem caminhos libertadores para a atormentada alma humana.

No nível macro, essas plataformas do mundo, ainda que disfarçadas sob a elegância da linguagem jurídica, são aquelas que asseguram as desigualdades e injustiças sociais e legitimam violência, fome, miséria e crimes através de seus programas político-partidários, favorecedores de interesses que não atendem aos interesses coletivos.

As plataformas do Cristo, no âmbito social, seriam aquelas pautadas nos princípios exarados nos Dez Mandamentos bem como nas concepções de respeito e fraternidade, ensinados e exemplificados pelo Cristo de Deus, capazes de assegurar a dignidade da vida para todos e a construção de uma cultura de paz.

Enquanto homens e nações ainda hoje se enfrentam, em razão de interesses divergentes, segue a vida sua dinâmica através do tempo, com suas  lições e  soluções.

Nunca precisamos tanto examinar criticamente as plataformas que a vida nos apresenta, tanto para aplicação no campo íntimo como nas escolhas das ações a desempenhar nos contextos familiares e sociais.

Qual deve ser a plataforma que nos harmonizará com a vivência da Lei Divina ou Natural, a única que nos conduzirá à felicidade almejada, pois nos esclarece o que devemos e o que não devemos fazer?  Observemos a grave afirmativa que o Espírito Emmanuel nos apresenta:3 Se desejas penetrar, efetivamente, o templo da verdade e da fé viva, da paz e do amor, com Jesus, não olvides as plataformas do Evangelho Redentor.

Didaticamente, Emmanuel nos apresenta quinze propostas, iniciando pelo Amor a Deus, passando pelo amor ao próximo e por atitudes éticas baseadas na fraternidade, no combate ao egoísmo e à  ignorância, no cultivo da alegria e da esperança, na prática do bem, na atitude de indulgência e solidariedade, dentre outras, para culminar na síntese Ama, compreende e perdoa sempre.

Guiados pela consciência esclarecida atingimos agora a convicção de que a Doutrina Espírita, revivendo as lições de Vida Eterna de Jesus, nos coloca mais uma vez diante da Sua plataforma iluminativa para podermos realmente realizar o nosso processo de conversão interior ao Seu programa de luz e libertação, de autoeducação e plenitude. A opção é de cada um de nós.

 

Referências:

  1. KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2002. pt. 1, cap. Liberdade, igualdade, fraternidade.
  2. XAVIER, Francisco Cândido. Religião dos Espíritos. Pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: FEB, 2006. cap. Na hora da crise.
  3. ______. Vinha de Luz. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2005. cap. 59.

 

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