Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

Publicação de obras mediúnicas

abril/2014 - Por José Passini

A publicação de livros mediúnicos tem crescido vertiginosamente. Na primeira década deste milênio, o volume aumentou de modo a chamar atenção de muitos médiuns e a excitar o desejo de lucro da parte de determinadas editoras. Entretanto, paralelamente a esse crescimento editorial, a qualidade decresceu na mesma proporção. Há livros cuja tônica é o ataque sistemático a dirigentes espíritas e ao ingente trabalho de Unificação. Outros, se constituem em descrições mórbidas de zonas espirituais inferiores, com detalhamento de monstruosidades, do poder das Trevas, sem apontar caminhos e soluções para tal estado de coisas. Alguns há que trazem sutis mensagens de desvalorização do estudo, do esforço de autoaprimoramento, veiculadas em linguagem pretensamente psicológica, conducente ao desencanto. Há ainda outros que, num discurso estéril, como arqueólogos espirituais, se lançam à pesquisa de quem foi quem, provocando discussões que só contribuem para o descrédito da Doutrina ante aqueles que dela se aproximam em busca de esclarecimento. Nisso, demonstram nunca terem lido as advertências veiculadas no trecho O esquecimento do passado, no cap. 5 de O Evangelho segundo o Espiritismo, nem tampouco o cap. 10 de Os mensageiros, de André Luiz, que mostra os prejuízos sofridos por um médium que se deixou levar por essas pesquisas do passado, nelas enovelando-se e perdendo a sua encarnação.

Diante disso, pergunta-se: Por que esses Espíritos, que agora fazem publicar tantas revelações fantasiosas a respeito da vida espiritual, relatando ambientes grotescos, aterrorizantes, pueris e mesmo cenas ridículas, levando muitos incautos à formação de quadros mentais negativos, por que não desenvolvem os palpitantes assuntos tratados por Kardec na Terceira Parte de O livro dos Espíritos, as chamadas Leis Morais? Será por falta de conhecimento ou de talento? Há todo um manancial de temas a ser examinado à luz do Espiritismo nessa parte da obra, que poderia ser intitulada Sociologia Espiritual. Por que não apresentam estudos comparativos entre a sociedade terrena e as diferentes organizações sociais existentes no Mundo Espiritual? Por que não desdobram os ensinamentos trazidos por André Luiz a respeito da interação Mundo Físico e Mundo Espiritual, conforme descrito em suas obras, notadamente em Os mensageiros, detalhando o trabalho levado a efeito, na Terra, pelos Espíritos desencarnados, com a colaboração de encarnados libertos pelo sono físico? Será que a esses médiuns e aos Espíritos que por eles se comunicam escapa-lhes a consciência do objetivo principal da Doutrina Espírita, que é a revivescência do Evangelho de Jesus, aplicado à vida diária, como fator educativo do Espírito imortal? Entretanto, o que mais se vê são relatos medíocres, fantasiosos, com pretensões de serem revelações ou romances.

Outra vertente muito explorada por Espíritos e médiuns pouco preocupados com a educação moral é a tão falada transferência, para outro planeta, dos Espíritos que não assimilaram princípios básicos de fraternidade. Esse planeta, como se fosse uma nave espacial, deveria aproximar-se da Terra a fim de buscá-los. Baseiam-se no fato de a Terra ter recebido, há milhares de anos, um grande contingente de Espíritos vindos de um planeta do sistema Cabra ou Capela, conforme descrição de Emmanuel na obra A caminho da Luz. Mas os Espíritos que fazem os relatos atuais  se esquecem de que a nossa Terra não se deslocou de sua órbita para, como um ônibus, ir lá buscá-los. Afirmativas como essas constituem-se em verdadeiras heresias astronômicas, que são feitas em detrimento do bom senso e da seriedade da Doutrina dos Espíritos.

Por que, em vez de fazerem esses relatos fantasiosos, esses Espíritos não promovem uma campanha no sentido incentivar a educação da juventude, discutindo temas como a sexualidade à luz do Espiritismo? Por que não discutem a responsabilidade na constituição de um lar, a vida em família, o encaminhamento dos filhos? Por que não incentivam a evangelização da infância, a ser levada a efeito no lar e no centro espírita? Por que não dão notícias detalhadas da vida daqueles que desencarnaram ainda na fase infantil? Por que não incentivam o Movimento Espírita a dar mais atenção ao Espírito recém-encarnado, portanto necessitado de orientação, ao invés de ficarem descrevendo cenas mórbidas de que teriam participado antes da sua encarnação? É bem verdade que a resposta recebida por Kardec, conforme o item 383 de O livro dos Espíritos, ainda não ecoou suficientemente nas consciências de muitos daqueles que dirigem comunidades espíritas em todos os níveis: Encarnando, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir os incumbidos de educá-lo. Então, por que esses Espíritos, que se dizem tão interessados em esclarecer, não encetam uma campanha no sentido de ajudar os recém-encarnados?

Por que esperar que ele se torne adulto, que erre, para depois tentar convencê-lo dos valores do Evangelho? Ou, então, aguardá-lo à mesa mediúnica, na condição de sofredor resgatado de zonas umbralinas?

É importante que se estude a obra de Kardec e de médiuns verdadeiramente afinados com os ideais do Espiritismo, ideais esses que estão muito acima da obtenção de lucro com a venda indiscriminada de obras ditas espíritas, como se o Centro Espírita, a Livraria Espírita, ou o Clube do Livro Espírita tivessem por finalidade única a obtenção de recursos financeiros a qualquer preço. Lembremo-nos de que o sucesso de um Centro Espírita não deve ser medido pela quantidade de passes que dá, nem pelo volume de água fluidificada que produz, nem pela quantidade de roupas ou alimentos dispensados, mas pelo número de Espíritos encarnados e desencarnados que encaminha rumo ao Bem, conforme ensinado e exemplificado por Jesus.

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