Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2017 Número 1597 Ano 85

Promessas de guerra

julho/2016

Esta é a tradução dada ao filme The water diviner, lançado em maio de 2015, em nosso país.

Com direção de Russel Crowe, conta o drama de um fazendeiro australiano e sua família, num período que envolve os horrores da Primeira Guerra Mundial.

Connor é um homem simples, dedicado à esposa e aos três filhos. Os laços familiares são muito valorizados.

Igualmente a educação dos filhos. Sobretudo, o incentivo a que tentem, façam, não aceitem derrotas, que lutem para conseguir o que desejam. E ele é o pai que está ao lado para ensinar a pescar, a trabalhar, a fazer coisas.

É um homem rude, ao mesmo tempo, terno. Prescreve a observância dos deveres e, pelo exemplo, ensina o amor que deve unir a família.

Logo, em observando aquele universo familiar de cinco pessoas, remetemos o pensamento aos ensinos espíritas e aos conceitos de como são programadas as famílias, na erraticidade, sob determinação de fortes laços de afeição.

Famílias pelos laços espirituais, que se formam e retornam para os duros resgates pela dor, entre elas, a da separação física.

Nestes dias de tanta pressa, acompanhar a rotina de um pai dedicado é estimulante. Ele trabalha arduamente a terra, mas as noites são tributadas aos filhos, em especial, para os quais, lê histórias de aventuras.

E quem pensa que o que as crianças ouvem, no reino da fantasia, não as poderá estimular de alguma forma, ao bem, à perseverança, estão enganados. Em muitas ocasiões, e isso bem demonstra o filme, mesmo adultos, em meio a graves problemáticas, lembrarão da ação heroica, de uma frase específica, do incentivo à continuidade da luta, para superar a dificuldade.

Com dor na alma, assistimos o partir de três filhos jovens para uma guerra insana. Os homens de Estado planejam a guerra, e os jovens seguem para os campos de batalha, lacerando os corações dos pais.

Juventude destroçada em pleno desabrochar dos sonhos, em que o amor, a construção de uma família, o riso, a dança, os folguedos, ainda estão tão latentes.

Pensássemos um tanto mais no quanto perde a Humanidade numa batalha, seja porque motivo for, e possivelmente, com nossa criatividade, encontraríamos outras fórmulas de resolver conflitos de ideologias, de território, de posse, de poder.

Quanto ainda nos distanciamos da paz é o que nos sugerem as batalhas sangrentas que retratam a invasão da Turquia, por australianos, britânicos e franceses.

O número de soldados mortos nos nove meses da campanha em Gallipoli é incerto: sessenta mil aliados e noventa mil turcos, segundo as estimativas.

Curiosamente, os vencedores perderam mais homens do que os derrotados. Os comandantes turcos, incluindo Mustafá Kemal, usaram ataques no estilo onda humana em momentos cruciais e sofreram severas baixas nessas ocasiões.

Além de usar táticas que custavam muitas vidas, o exército otomano era pobre em recursos médicos. Muitos feridos morriam por falta de tratamento. Entre os aliados, a situação também não era muito diferente. Boa parte dos soldados que morreu durante a campanha foi vítima de doenças. Expostos a corpos insepultos nas trincheiras e sem comida suficiente, ficavam à mercê das infecções.

Durante o desembarque de tropas aliadas na baía de Suvla, em 7 de agosto de 1915, ocorreu um dos episódios mais sangrentos de Gallipoli, que foi tema do filme homônimo, de 1981, estrelado por Mel Gibson. Na superprodução, a culpa pelo envio de mais homens para uma batalha perdida é dos ingleses. Mas, na verdade, os comandantes da operação eram australianos.

Os três filhos de Connor não retornam para casa, nem seus corpos. A esposa entra em processo de demência, culpando o marido, sistematicamente, por ter perdido os filhos.

E, toda noite, exige que ele vá ao quarto deles para ler as histórias de aventuras, como sempre fez. Camas vazias, os pijamas cuidadosamente colocados sobre cada uma.

Quanta dor pode suportar um coração materno? Em sua loucura, ela acaba por se suicidar, numa manhã de descuido, em que Connor, cansado, acorda um pouco mais tarde.

A dor da perda da amada é superlativa. É onde descobrimos a grande compaixão, que aprendemos na Doutrina Espírita, pelos suicidas. E recordamos da pena mediúnica extraordinária de Yvonne do Amaral Pereira, que nos ofereceu Memórias de um suicida, permitindo que o Espírito Camilo Castelo Branco narre, não somente o seu, mas o drama de muitos suicidas e a misericórdia de Deus para com eles.

Enquanto algumas religiões não admitem nenhuma bênção, um enterro em dito solo sagrado (qual solo, nesta Terra de Deus, não é sagrado?), a Doutrina nos convida a orarmos e muito por essas criaturas, pois nos desvela seus intensos padecimentos.

Para o coração de Connor, mais um duro golpe. Para conseguir apenas uma oração, uma simples oração, ele precisa pagar alto preço ao sacerdote da região.

Então, ele parte para um país estranho, no qual jamais pisara, com um único intuito: trazer os corpos dos filhos para casa.

Interessante no roteiro é a discussão sobre a memória do indivíduo versus a memória da nação.

Na sua busca, ele ouve reclamações  como: Tivemos duzentos e vinte mil mortos, e você quer que nos preocupemos com três garotos?

A resposta do comandante turco, encarregado do resgate dos corpos é comovente: Ele é o único pai que está aqui!

Poder-se-ia perguntar qual a importância de se resgatar corpos, considerando que os Espíritos já os deixaram e se encontram no mundo espiritual.

Entretanto, há que se entender a dor de um coração paterno que deseja ao menos levar seus filhos para casa, para seu país. Afinal, seu coração não tem mais nada: nem esposa, nem filhos, nem propriedades…

Contudo, como encontrar num campo com tantos cadáveres, quatro anos depois, os corpos dos seus filhos?

Neste ponto, o filme faz uma ligação entre a radiestesia, de que se servia o fazendeiro para encontrar água, em suas terras, diga-se, nem sempre exitosa, com a busca pelos corpos.

Radioestesia e radiestesia são neologismos construídos a partir de dois termos: o latino radium, radiação, e o grego αἴσθησις [aísthesis], percepção pelos sentidos.

Trata-se de uma sensibilidade a determinadas radiações, como energias emitidas por seres vivos e elementos da natureza. As aplicações são, por exemplo, feitas por pessoas que podem determinar o local exato onde há poços de água subterrâneos com apenas uma vareta de madeira, ou que podem encontrar alguém desaparecido com um pêndulo e um mapa.

Com artigos pertencentes aos filhos em mãos, aquele pai procura, no imenso campo. Em verdade, o que há por trás, é uma grande intuição.

Contudo, se encontra dois esqueletos, onde está o terceiro filho?

Nesse ponto, a questão se torna surpreendente. Connor sonha com o filho, de forma constante. Ele o vê dançando, entre derviches, quase em transe. Os dervixes dançantes é uma ordem da Turquia, fundada pelos discípulos do poeta Sufí Jalal al-Din Muhammad Rumi, no século XIII.

Possuem uma cerimônia de dança-meditação, chamada Sema, uma dança masculina acompanhada por música de flauta e tambores.

Os dançarinos giram sobre si mesmos com os braços estendidos, simbolizando  a ascendência espiritual para a verdade, acompanhados pelo amor e liberados totalmente do ego.

A cerimônia teve origem com os místicos da Índia e os sufis da Turquia. Hoje, os dervixes se apresentam regularmente nos locais de atração turística, na Turquia, incluindo festivais de música no estrangeiro.

Entretanto, os sonhos do australiano nos remetem a pensar nas visitas espíritas entre pessoas encarnadas e às questões da emancipação da alma.

Estaria o filho enviando mensagens ao pai? O pai buscando ansiosamente o filho, que descobre, posteriormente, não ter morrido mas ter sido feito prisioneiro?

O sonho é recorrente e, depois de algum tempo, outra imagem se lhe associa, a de um enorme catavento, como o que ele mesmo ensinara o filho a construir, para bombeamento da água.

E é graças a isso que ele encontra, sim, o terceiro filho. Como se haviam passado quatro anos desde o cessar da guerra, é de nos indagarmos por que ele não retornou ao lar.

E uma grande lição se faz a todos os que assistimos ao filme. Antes de partir, Connor fizera o filho prometer que cuidaria de seus irmãos, durante os combates.

Contudo, ele não conseguira cumprir a promessa. Ao contrário, assistira à morte imediata de um e a agonia de horas, do outro.

Mais do que isso: ele era o responsável pela morte de um deles. Como poderia voltar para casa e olhar novamente o pai nos olhos?

Isso nos convoca a reflexionarmos no que, por vezes, em nome de nós mesmos, exigimos dos outros: promessas que não poderão cumprir e que poderão lhes marcar a vida, traumatizando-os, muitas vezes.

Será que temos o direito de exigir promessas que não poderão ser cumpridas?  Será que, mesmo na condição de pais, de guardiões de nossos filhos, temos o direito de lhes impor promessas que poderão influenciar traumaticamente suas vidas, desde que não terão condições de cumpri-las?

Com as naturais nuances dos filmes que apelam para o romance e tramas paralelas para se tornarem atraentes ao público, descartando certos exageros, que sempre ocorrem, o drama ainda retrata o preconceito entre filhos de nações diferentes e o tratamento de inferioridade e submissão dado à mulher.

Contudo, sobressai de tudo a grande lição de humanidade e de perdão, dada pelo comandante turco, indo até o sacrifício da própria vida, quando abraça a causa do outro, um australiano, que durante a guerra fora inimigo.

Verdadeiramente, um filme para ser visto, revisto e pensado, buscando-se na sequência as sábias lições exaradas em O Evangelho segundo o Espiritismo (cap. XIV, itens 5 a 7); O livro dos Espíritos (item 400 e ss.); O livro dos médiuns  (pt. 2, cap. XV, item 180).

 

Título original    The water diviner

Distribuidor        Paris Filmes

Ano de produção  2014

Gênero                 Drama, guerra

Direção                Russel Crowe

Elenco   Russel Crowe

Olga Kurylenko

Yilmaz Erdogan

Cem Yilmaz

Jai Courtney

Dylan Georgiades

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