Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2020 Número 1635 Ano 88

Pregação pelo Exemplo

outubro/2020

No meio espírita, o mês de outubro se reveste de significação especial, por ser o mês do nascimento (4.10.1804) de Hippolyte Léon Denizard Rivail, que, sob o pseudônimo Allan Kardec, apresentou ao mundo a Doutrina Espírita.

Doutrina puramente moral, que desenvolve a ideia cristã e conclama por sua aplicação, forma bases e diretrizes das ações para a efetiva reforma íntima dos indivíduos.

Sugere promover no ser reformas morais para melhor e, especialmente, estimular e aumentar o próprio discernimento, para se empreender esforços em domar as más inclinações, quando a cada momento da existência seja oportunidade de superação e melhoria, e não se repitam interminavelmente experiências infelicitadoras.

Fomenta a lucidez do Espírito, para que se visualize um futuro melhor e desperta a intenção real de alcançá-lo, desatando os nós dos equívocos do ontem espiritual.

O avanço do ser é também o crescimento da sociedade e, com a nova proposta, fixar os pilares estruturadores da ética, da moral, da família, dos costumes edificantes.

Somos o que pensamos e sentimos!

Allan Kardec, ao discursar aos espíritas de Lyon e Bordeaux, enfatiza:1

A exemplo dos apóstolos, expulsai os demônios, já que tendes poder para tanto, pois eles pululam em torno de vós: são os demônios do orgulho, da ambição, da inveja, do ciúme, da cupidez, da sensualidade, que insuflam todas as más paixões e semeiam por entre vós os pomos da discórdia. Expulsai-os de vossos corações, a fim de que tenhais a força necessária para expulsá-los dos corações alheios. (…)

(…) Despojai-vos, o quanto antes, de tudo quanto possa ainda restar em vós do velho levedo.

Não basta a crença. É necessário sair da superfície do conhecimento inicial e se aprofundar em estudo e autoanálise, a fim de compreender o objetivo essencial do Espiritismo, que é a moral do Evangelho, desenvolvida e aplicada.

É a Doutrina fomentadora de convicção, promotora de força capaz de vencer as más inclinações, há muito tempo enraizadas. Ela conduz ao rompimento dos velhos hábitos, e faz calar ressentimentos e inimizades.

É Doutrina que traz substância e significado à vida! Distribui a mancheias palavras e vivência, que passam a estar em uníssono! Não mais discursos vazios de sinceridade vivencial.

Doutrina que transcende pregação por palavras e convoca pregação pelo exemplo, quando, então, quem vê e ouve, não poderá jamais dizer que as máximas ensinadas são palavras vãs sem ressonância no coração de quem as diz.

Doutrina reconstrutora de uma sociedade boa e justa, em que os materiais sólidos realizadores são os homens de coração, de devotamento e de abnegação, ou seja, homens de bem!

Espiritismo não é uma teoria que se dirige ao intelecto, ele fala ao coração.

Afinal, o Mestre dos mestres não deixou de ensinar: Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.2

Sublinha Allan Kardec3: Os mais perigosos inimigos do Espiritismo são, pois, os que o fazem mentir a si mesmos, não praticando a lei que proclamam.

Como ponto de honra e condição pétrea, ao discursar aos espíritas em Lyon e Bordeaux, Kardec selou a Doutrina na redoma transparente da sua legitimidade, cujo selo de autenticidade não pode ser rompido pelas invencionices modernistas de uns, que tentam servir a dois senhores, aos homens e a Deus.

Nem por aqueles que querem um Espiritismo à sua imagem e semelhança, que insistem em enxertias comportamentais esdrúxulas, que ainda consomem suas energias saudáveis.

Ou por aqueles que intentam trazer para o seio do Movimento Espírita, ideologias, teorias e práticas estranhas aos seus propósitos, e sabem que ali não tem nada, doutrinariamente, que dê sustento às suas fantasias, a não ser conseguir uma e outra atenção de incautos e desavisados, então cegos que se deixam conduzir por outros cegos.

Nem o seu sagrado arcabouço de postulados e máximas, ser profanado pelos que fazem concessões que desfigurem suas bases morais, firmemente assentadas no próprio Cristianismo; sobre o Evangelho, do qual não é mais que a aplicação.

Com sua firmeza ímpar e bom-senso imbatível, Allan Kardec sublinhou, estatuindo:1

O Espiritismo não procura ninguém; não se impõe a ninguém. Limita-se a dizer: Eis-me aqui, eis o que sou, eis o que trago; os que julgam precisar de mim, que se aproximem; os outros, que permaneçam em suas casas; não lhes vou perturbar a consciência, nem os injuriar. Apenas lhes peço reciprocidade.

Do mesmo modo que Jesus registrou a liberdade de cada um em seguir-lhe ou não os passos, deixou também claro que aquele que desejasse estar com Ele, tomasse de sua cruz, renunciasse a si mesmo e O seguisse.

O Codificador, por sua vez, pontua o Espiritismo como ele é e conclama quem não deseja ser espírita como deveria ser, que, por reciprocidade de dignidade, não perturbe nem confunda, por ignorância ou intencionalmente, seus postulados e sua real razão de ser, nem injurie suas máximas propostas aos homens de coração.

Permaneça em sua casa …

*

Em síntese, cabe-nos interiorizar o que de melhor ela nos propõe que é a nossa sublimação, acolhendo ao máximo as magnas propostas de moralização, com entendimento através da grande solução de todos os tempos – o Amor!

Sermos corajosos o suficiente para distribuir com fidelidade aquilo que o próprio Criador, que jamais descansa, coloca em nossas mãos – a Caridade!

Não o fazermos somente por nós mesmos, mas alargando a possibilidade de um englobar imenso de todos os irmãos dessa grande família da Terra, que hoje, mais do que nunca, sonha em ser mais feliz!

 

Referências

1 KARDEC, Allan. Viagem Espírita em 1862 e outras viagens de Kardec. Brasília: FEB, 2005. cap. Discursos pronunciados nas reuniões gerais dos Espíritas de Lyon e Bordeaux.

2 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 15, vers. 19.

3 KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Ano 1861, v. XI. São Paulo: EDICEL, 1965. Discurso do Sr. Allan Kardec.

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