Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Ponte para Terabítia

novembro/2016 - Por Maria Helena Marcon

O filme foi rodado em Auckland, na Nova Zelândia, num período de sessenta dias. A mixagem e os efeitos visuais demoraram meses. O diretor, Gábor Csupó, aposentou-se após as filmagens. Disse que desejou fazer o filme por ser uma história bonita, sendo exatamente o que queria fazer naquele momento de sua vida.

Ponte para Terabítia é baseada numa personagem real, amiga do filho da autora do romance original e também roteirista do filme, que foi atingida por um raio e morreu quando ambos, Patrick e Lisa, tinham oito anos de idade.

Conta a história de um garoto do interior dos Estados Unidos tímido e solitário. Único menino numa família de cinco filhos, ele se sente rejeitado pelo pai, que dele exige o cumprimento de tarefas, depois da escola e muita disciplina.

O verdadeiro amor desse pai, Jess Aarons somente descobrirá quando a morte trágica de uma amiga querida o atingir. Será exatamente nos braços do pai que se acolherá, buscando refúgio e desafogando sua profunda dor.

Lição extraordinária para os filhos, demonstrando que os pais, muitas vezes, estabelecem normas, diretrizes e cobram muito dos seus rebentos, exatamente por lhes desejar o melhor, lhes desejar formar o caráter, prepará-los para a vida.

Também que, a braços com os compromissos de sustentar uma família, se apresentam muito práticos, pensando no agora, nas necessidades prementes, sem se permitirem sonhos ou jogos imaginativos.

Em verdade, são criaturas que renunciam aos próprios sonhos para dar à carne de sua carne ou filhos do coração o que tenham de mais precioso, pensando em lhes amenizar a jornada terrena.

Sinalizando esses sentimentos de paternidade/maternidade, colhemos do Evangelho de Lucas (11:11 e 12), as palavras de Jesus: Qual pai, dentre vós, se o filho lhe pedir um peixe, em lugar disso lhe dará uma cobra? Ou se pedir um ovo, lhe dará um escorpião?

Como faz falta, na Terra, sermos gratos aos nossos pais por tudo com que nos brindam, pela vida em holocausto que nos oferecem. Como faz falta que, como filhos, compreendamos melhor a essas criaturas a quem o Pai Celeste nos entregou sob guarda!

Mas, será na escola que Jess encontrará Leslie Burke, uma garota bem moderna, filha única de escritores. De início, porque ela o venceu numa corrida, ele se mostra refratário a ela. Logo, no entanto, fluirá a amizade. Afinal, eles moram próximos um do outro e, como lemos em O livro dos Espíritos (item 387), mais do que isso dois Espíritos que tenham afinidades se procuram naturalmente,  mesmo que não tenham se conhecido anteriormente.

Leslie é uma dessas pessoas que tem um brilho sobre si e que ninguém pode derrubar. É viva e enérgica, com uma imaginação muito fértil. Jess, por sua vez, tem uma grande paixão por desenho, o que os leva a rapidamente se entenderem, de tal forma, que parecia até um reencontro de almas afins.

No roteiro, incluiu Patrick a questão do bullying de uma forma inusitada. Jess e Leslie, por serem considerados esquisitos, são perseguidos pelos valentões da escola, Janice Avery e Gary Fulcher.

Janice ainda faz terrorismo com os pequenos, como se fosse dona de tudo, todos lhe devendo obedecer e seguir as vontades. Com isso, atrai para si muitas antipatias e os dois amigos até criam uma situação constrangedora para ela, como vingança.

Não demorará muito, no entanto, para que descubram que a menina assim age por desejar se impor como alguém importante, forte, porque em sua casa, o pai a maltrata, lhe bate e ela extravasa, dessa forma.

Assim, da aversão, Leslie e Jess passam a ser seus amigos, e ela, por sua vez, responde com sua proteção a ambos de outros agressores da escola.

Bela forma de conquistar um amigo: amparar quem se arvora como adversário, em um momento de dor. Interessante maneira de ensinar como devem ser vistos os considerados maus, intolerantes.

Normalmente, são pessoas infelizes que assim exteriorizam a sua dor, à falta de quem  lhes perceba a problemática e os auxilie. É o pedido de socorro da alma. E, exatamente, como mostra o filme, passam bruscamente da agressividade à dedicação a quem lhes estende a mão. Afinal, não é isso mesmo que constatamos, muitas vezes, nas reuniões mediúnicas, quando se apresentam espíritos obsessores e que, conquistados pela palavra e pelas boas vibrações, se tornam amigos atentos?

Com a fértil imaginação de Leslie e a paixão de Jess pelo desenho, eles criam, num bosque próximo a suas residências, Terabítia, uma terra maravilhosa, de vales, rios, flores, com um castelo, onde se nomeiam rei e rainha.

Para chegarem lá, precisam atravessar um riacho. Para isso, usam uma corda bem grossa, pendurada numa árvore. Ali, em Terabítia, eles desfrutam de inúmeras aventuras, lutando contra monstros voadores que lhes jogam bombas, árvores que criam vida, tudo no intuito de lhes roubar o reino.

Cada dia é uma aventura, em que se associam, numa incrível fantasia. Aquele mundo é só deles e não desejam que ninguém mais participe.

Interessante se observar como Leslie tem um bom relacionamento com seus pais, respeitando as tarefas a que se entregam. Enquanto Jess reclama de não ser entendido e nem amado, em seu lar, Leslie compreende que os pais, enquanto estão imbuídos de produzir um novo livro, não podem lhe dar atenção.

Registra-se aí o entendimento de que, às vezes, eles necessitam se fazerem ausentes por algum período, ou menos atentos a expressões externas de afeto.

Finalmente, num dia, a grande festa. O livro em que trabalhavam está concluído e é tempo de se pintar a casa, ouvir música, dançar.

Participando de tudo isso, Jess chega a sentir uma certa inveja da amiga. A família dela, sim, é legal. Aquele ambiente é muito bom, de compreensão, de alegria. Leslie ganha muitos abraços, carinho. Nem se dá conta Jess de alguns detalhes que ele não apreciaria, como o fato de que ela era proibida de assistir televisão porque, segundo seus pais, a televisão faz mal ao cérebro, queima os neurônios.

Exatamente como costumamos fazer, observando, de forma superficial, a família dos nossos amigos e acreditando que aquela é a família ideal, aquela na qual gostaríamos de ter nascido e poder conviver.

Contudo, a Divindade sabe exatamente qual a melhor família para as necessidades do nosso progresso, quais os laços afetivos que nos unem, quais as questões que devemos diluir nesse universo familiar.

O filme trabalha, com propriedade, a questão do remorso ao apresentar Jess indo a um museu, convidado por sua professora de música, Miss Edmunds, por quem nutria uma paixão platônica. Ao receber o convite, ele pensa em convidar Leslie, mas desiste, intimamente desejando usufruir sozinho do que lhe ofertava a professora, por um dia inteiro.

A ida ao museu é esplendorosa. Ele jamais adentrara num e as horas transcorrem, rápidas, em deslumbramento, como num sonho magnífico.

Ao retornar ao lar, Jess encontra a família enlutada. Ao adentrar a sala, é abraçado por todos. Eles o acreditavam morto porque a mãe não entendera o recado dele que iria sair com sua professora. Nesse momento, ele descobre que a sua única e melhor amiga morrera afogada ao tentar atravessar o riacho porque a corda arrebentara, ela caíra, batera com a cabeça em uma pedra, desmaiara e fora levada pelas águas, muito altas e agitadas, naquele dia.

Descobre também que é amado por seus pais, por suas irmãs, ao contrário do que pensava.

Contudo, algo ocorre com ele. Se eu a tivesse convidado a vir comigo, ela não teria morrido, é o que ele pensa. E começa a tragédia do seu grande remorso. Ele fora egoísta, não desejando dividir um dia de felicidade pura com sua amiga. Agora, ela estava morta.

Como resultado, ele se torna agressivo, sobretudo com sua irmã mais nova, que realmente o ama e tenta consolá-lo, estar com ele, sendo repelida com quase violência.

Dizem que as lágrimas mais amargas jorradas sobre os túmulos são as do remorso. Muitas vezes, nos ocorre de nos vincularmos a ele por atitudes impensadas, que machucam nossos amores. Quando um deles morre, antes que tenhamos tido a oportunidade de nos desculparmos… eis o remorso a nos maltratar interiormente, fazendo-nos pensar: Se eu soubesse que esse dia seria o último da sua vida, eu não teria gritado com ele, eu não teria lhe feito aquela desfeita, eu não teria lhe dado as costas, eu não teria saído sem me despedir.

A lição é de que devemos sempre estar bem com todos, não deixar que qualquer pequeno desentendimento se avolume, aprendendo a nos desculpar, de imediato.

Afinal, foi Jesus quem nos ensinou: Se trouxeres a tua oferta ao altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali mesmo diante do altar a tua oferta, e primeiro vai reconciliar-te com teu irmão, e depois volta e apresenta a tua oferta. Entra em acordo depressa com teu adversário, enquanto estás com ele a caminho… (Mt, 5: 23-25)

Sábia advertência! Não tardar nenhum minuto antes de pedir perdão porque poderá ocorrer que não tenhamos outra oportunidade. Não fosse o Mestre o grande sábio!

Finalmente, como a nossa própria trajetória espiritual, que tende para a perfeição e a felicidade plena, o filme acaba muito bem. Jess se dedica à irmãzinha, que tanto o amava, e a convida a visitar Terabítia.

Como numa grande homenagem a quem partira e deixara a lição do otimismo, da alegria, ele adentra a terra da fantasia com a irmã pela mão, descrevendo e lhe mostrando a conquista do reino de Terabítia, harmonizado, todos os seres se entendendo, em uma esfera de luz e paz.

Não é exatamente nosso destino como Espíritos?


Data de lançamento: 16 de fevereiro de 2007 (Estados Unidos)

Direção: Gábor Csupó

Música composta por: Aaron Zigman

AutoraKatherine Paterson

RoteiroDavid L. Paterson, Jeff Stockwell

Elenco:

Anna Sophia Robb……..Leslie Burke

Josh Hutcherson……….Jess Aarons

Zooey Deschanel………Miss Edmunds, a professora

Bailee Madison…………May Belle Aarons, a irmãzinha

Robert Patrick…………..Jack Aarons, o pai do garoto

Assine a versão impressa
Leia também