Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Perturbação post-mortem

outubro/2008 - Por Rogério Coelho

Lamentavelmente, enquanto encarnado, não conheci o Espiritismo.
Se o tivesse conhecido, minha perturbação após a morte não
se prolongaria por tanto tempo e seria menos dolorosa.

Van Durst1

 Segundo informes2 dos Benfeitores Espirituais, o conhecimento do Espiritismo exerce uma influência muito grande sobre a duração mais ou menos longa da perturbação por ocasião da desencarnação, uma vez que o portador de tal conhecimento (e não pseudoconhecimento como é muito corriqueiro) já – antecipadamente – compreendia a sua situação.

Mas os mesmos Espíritos Amigos fazem um destaque2 em suas observações: “A prática do Bem e a consciência pura são o que maior influência exercem”.

Imaginemos agora, uma criatura que desencarna, levando em sua bagagem espiritual tudo isso junto: a prática do Bem, a consciência pura e o verdadeiro conhecimento do Espiritismo!…   Evidentemente, alguém nessa ideal condição já “bate” do Outro Lado em pé, e é logo engajado nas tarefas, sem maiores perdas de tempo…

Vejamos, nesse passo, as luminosas anotações do Mestre Lionês2:

“Por ocasião da morte, tudo, a princípio, é confuso… De algum tempo precisa a alma para entrar no conhecimento de si mesma. Ela se acha como que aturdida, no estado de uma pessoa que despertou de profundo sono e procura orientar-se sobre a sua situação. A lucidez das idéias e a memória do passado lhe voltam, à medida que se apaga a influência da matéria que ela acaba de abandonar, e à medida que se dissipa a espécie de névoa que lhe obscurece os pensamentos.

Muito variável é o tempo que dura a perturbação que se segue à morte.  Pode ser de algumas horas, como também de muitos meses e até de muitos anos.   Aqueles que, desde quando ainda viviam na Terra, se identificaram com o estado futuro que os aguardava, são os em quem menos longa ela é, porque esses compreendem imediatamente a posição em que se encontram.

Aquela perturbação apresenta circunstâncias especiais, de acordo com os caracteres dos indivíduos e, principalmente, com o gênero de morte.  Nos casos de morte violenta, por suicídio, suplício, acidente, apoplexia, ferimentos, etc…, o Espírito fica surpreendido, espantado e não acredita estar morto. Obstinadamente sustenta que não o está; no entanto, vê o seu próprio corpo, reconhece que esse corpo é seu, mas não compreende que se ache separado dele.  Acerca-se das pessoas a quem estima, fala-lhes e não percebe porque elas não o ouvem.  Semelhante ilusão se prolonga até ao completo desprendimento do perispírito.   Só então o Espírito se reconhece como tal e compreende que não pertence mais ao número dos vivos…   Tal fenômeno se explica facilmente: Surpreendido de improviso pela morte, o Espírito fica atordoado com a brusca mudança que nele se operou; considera ainda a morte como sinônimo de destruição, de aniquilamento…   Ora, porque pensa, vê, ouve, tem a sensação de não estar morto.  Mais lhe aumenta a ilusão o fato de se ver com um corpo semelhante, na forma, ao precedente, mas cuja natureza etérea ainda não teve tempo de estudar. Julga-o sólido e compacto como o primeiro e, quando se lhe chama a atenção para esse ponto, admira-se de não poder palpá-lo. Esse fenômeno é análogo ao que ocorre com alguns sonâmbulos inexperientes, que não creem dormir.  É que têm o sono por sinônimo de suspensão das faculdades. Ora, como pensam livremente e veem, julgam naturalmente que não dormem.

Certos Espíritos revelam essa particularidade, se bem que a morte não lhes tenha sobrevindo inopinadamente. Todavia, sempre mais generalizada se apresenta entre os que, embora doentes, não pensavam em morrer. Observa-se então o singular espetáculo de um Espírito assistir ao seu próprio enterramento como se fora o de um estranho, falando desse ato como de coisa que lhe não diz respeito, até ao momento em que compreende a verdade.

A perturbação que se segue à morte nada tem de penosa para o homem de bem, que se conserva calmo, semelhante em tudo a quem acompanha as fases de um tranquilo despertar. Para aquele cuja consciência ainda não está pura, a perturbação é cheia de ansiedade e de angústias, que aumentam à proporção que ele da sua situação se compenetra.   Nos casos de morte coletiva, tem sido observado que todos os que perecem ao mesmo tempo nem sempre tornam a ver-se logo.  Presas da perturbação que se segue à morte, cada um vai para seu lado, ou só se preocupa com os que lhe interessam”.

Às suas riquíssimas informações acima, bem como às dos Espíritos Superiores, o ínclito Mestre Lionês ainda acrescenta o testemunho inequívoco de inúmeros Espíritos das mais diversificadas camadas evolutivas, na parte segunda do livro “O Céu e o Inferno”, das quais destacamos o seguinte de um Espírito que se identificou com o nome de Van Durst, que descreve – pormenorizadamente – sua “travessia” no Estige, na barca de Caronte:

“(…) Minha perturbação “post-mortem” foi grande: viver e não viver, estar rudemente preso ao corpo sem poder servir-se dele, ver os que nos foram caros, sentindo extinguir-se o pensamento que a eles nos prende, oh! que coisa horrível! Que momento cruel esse em que o aturdimento nos empolga e constrange, para desfazer-se em trevas logo após! Sentir tudo, para estar um momento depois aniquilado! Quer-se ter a consciência do seu eu, sem encontrá-la; não existir, e sentir que se existe! Perturbação profunda!… Depois, transcorrido um tempo incalculável de angústias contidas, sem forças para senti-las, depois, digo, desse tempo que parece interminável — o renascimento gradual da Vida, o despertar de uma nova aurora em outro mundo! Nada de corpo material nem de Vida terrestre! Vida, sim, mas imortal! Não mais homens carnais, porém formas diáfanas, Espíritos que deslizam, que surgem de todos os lados, que vos cercam e que não podeis abranger com a vista, porque é no Infinito que flutuam! Ter ante si o Espaço e poder franqueá-lo à vontade! Comunicar-se pelo pensamento com tudo que vos envolve! Que Vida nova, meu amigo, nova, brilhante e cheia de ventura! Salve, oh! salve, Eternidade que me conténs em teu seio!… Adeus, Terra que por tanto tempo me retiveste afastado do elemento natural da minh`alma! Não… eu nada mais de ti dependia, porque és a terra do exílio, e a maior das felicidades que dispensas nada vale! Soubesse eu o que sabeis, e quão fácil e agradável me seria a iniciação na Vida espiritual! Sim, porque saberia, antes de morrer, o que mais tarde somente deveria conhecer, no momento da separação, de forma a desprender-me facilmente. Estais vós outros no caminho, porém, certificai-vos de que todo o adiantamento é pouco”.

Implodindo a lápide tumular e vencendo as brumas da morte, Marcelin Berthelot, célebre químico francês (1827-1907), rigoroso e frio pesquisador da matéria (enquanto encarnado), um dos criadores quase exclusivo da termoquímica, vem, pela luminosa e incomparável mediunidade de Chico Xavier, lançar seu brado de protesto imortalista no proscênio terrestre, aditando3:

“(…) A morte, transformação fundamental de todas as coisas, é o sopro ciclópico de realidades absolutas, descortinando ao Espírito a perspectiva imensa da ciência universal. Transpostos os seus umbrais é que reconheceremos a positividade dos elementos subjetivos que formam a ciência ideal, tocando os sentimentos em suas substâncias vivas, estudando a Verdade em seus fundamentos intrínsecos, porque somente com a reivindicação de nossa liberdade podemos assimilar o Espiritualismo, isento de dogmatismos incoerentes e de absurdos afirmativos que entorpecem o Espírito no seu nobilíssimo propósito de estudar e compreender a Vida em suas facetas multiformes”.

Hoje, ainda que palidamente podemos começar a compreender o que Jesus quis dizer ao afirmar: “Vim para que tenham Vida, e a tenham com abundância” (Jo, 10:10.); “Deus não é Deus dos mortos, mas dos Vivos”.  (Mt. 22:32.)

1KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 51. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2003, – 2ª parte, cap. II.

2 – KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 83. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2002, q. 165.

3 – MARCOS, Hércio; ARANTES, Cintra. Notáveis Reportagens com Chico Xavier. Araras: IDE, 2002, pág. 180.

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