Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Perspectiva espírita para o idoso

dezembro/2017 - Por Alessandro Viana Vieira de Paula

Na obra Boa Nova, de Francisco Cândido Xavier, ditada pelo Espírito Humberto de Campos, no capítulo 9, encontramos valiosa lição sobre o comportamento saudável quando atingimos a chamada terceira idade, isto é, a partir do momento que completamos sessenta anos de idade.

Na referida lição, o apóstolo Simão, o Zelote (não confundir com Simão Pedro), que era antigo pescador do lago de Genesaré e talvez o mais velho dos discípulos, começou a se preocupar, ante o declínio das forças vitais, de que forma poderia colaborar com Jesus.

Ele se comparava com os demais apóstolos, com exceção de Simão Pedro, que também tinha certa idade, e preocupava-se em não poder ser útil à causa do Evangelho, o que motivou uma conversa mais particular com Jesus.

Após ouvi-lo, com imensa ternura, Jesus respondeu: Simão, poderíamos acaso perguntar a idade de Nosso Pai?(…) A vida, na sua expressão terrestre, é como uma árvore grandiosa. A infância é a sua ramagem verdejante. A mocidade se constitui de suas flores perfumadas e formosas. A velhice é o fruto da experiência e da sabedoria. (…)

Esta imagem pode ser também a da vida do espírito, na sua radiosa eternidade, apenas com a diferença de que aí as ramagens e as flores não morrem nunca, marchando sempre para o fruto da edificação. Em face da grandeza espiritual da vida, a existência humana é uma hora de aprendizado, no caminho infinito do Tempo; (…) Vemos, por vezes, jovens que falam com uma experiência milenária e velhos sem reflexão e sem esperança.

Simão insiste no diálogo e pergunta: Então, Senhor, de qualquer modo, a velhice é a meta do espírito?

Jesus responde: Não a velhice enferma e amargurada que se conhece na Terra, mas a da experiência que edifica o amor e a sabedoria. (…)

Achas que os moços de amanhã poderão fazer alguma coisa sem os trabalhos dos que agora estão envelhecendo?! (…) Lembra-te da tua parte de esforço e não te preocupes com a obra que pertence ao Todo-Poderoso. (…)

Ama os jovens que revelem trabalho e reflexão; entretanto, não deixes de sorrir, igualmente, para os levianos e inconstantes: são crianças que pedem cuidado. (…) Vai e tem bom ânimo!

Humberto de Campos continua narrando que Simão, após o diálogo esclarecedor com Jesus, consegue salvar duas criancinhas que caminhavam na direção do lago de Genesaré, e, nessa noite, ele teve um sonho glorioso para a sua alma simples. Na manhã seguinte, Jesus o contemplou com amor e disse: Em verdade, Simão, ser moço ou velho, no mundo, não interessa!… Antes de tudo, é preciso ser de Deus!…

Quando analisamos a vida sob o panorama espírita e passamos a compreender que somos Espíritos imortais, transitoriamente no corpo físico, acumulando experiências que visam o nosso progresso intelecto-moral, e que, diante da lei abençoada da reencarnação, retornaremos, após a morte, em tempo oportuno, a habitar novos corpos, dando prosseguimento à nossa evolução, sem jamais perder as virtudes e o conhecimento adquiridos, passamos a ter uma perspectiva diferente e elevada quando nos tornamos ou nos tornarmos idosos.

Costumo afirmar em minhas palestras que o Espiritismo deu vida, sentido existencial, à terceira idade, convidando o idoso a um comportamento sempre feliz, ativo no bem, procurando aproveitar as infinitas oportunidades de aprendizado que a vida nos concede.

À luz da reencarnação, o último período de vida na Terra, mesmo os últimos dias, as derradeiras horas, são valiosas oportunidades de aprender e crescer espiritualmente, porque, repita-se, toda conquista intelectual e moral serão patrimônios inalienáveis e inapagáveis do Espírito.

Recordo-me de uma história narrada pelo querido confrade Divaldo Franco que conheceu uma senhora de, aproximadamente, oitenta anos de idade, que estava cursando a faculdade de Direito e, ao ser indagada por ele se pretendia exercer a advocacia, redarguiu que não teria tempo nesta vida, mas que, em sendo espírita, sabia que levaria o conhecimento adquirido para a próxima reencarnação e traria a aptidão e a facilidade para o curso de Direito.

Que visão notável dessa senhora!

Na obra O Consolador, também do médium Francisco Cândido Xavier, o benfeitor Emmanuel, ao abordar o tema em questão, orienta que: A existência na Terra é um aprendizado excelente e constante. Não há idades para o serviço de iluminação espiritual (…) e a velhice não tem o direito de alegar cansaço orgânico em face desses estudos de sua necessidade própria.

(…) os homens mais avançados em anos têm, contudo, a seu favor as experiências da vida, que facilitam a compreensão e nobilitam o esforço da iluminação de si mesmos, considerando que, se a velhice é a noite, a alma terá no amanhã do futuro a alvorada brilhante de uma vida nova. (q. 223)

Dessa forma, o idoso poderá alegar cansaço e falta de vigor físico para algumas tarefas materiais, mas jamais para sua missão de iluminação espiritual, porque, sempre será tempo de desenvolver ou fortalecer virtudes, educar os sentimentos, libertar-se de um defeito, orar pelo próximo, ler um bom livro, escutar uma palestra educativa, fazer o bem etc.

Infelizmente, muitos idosos têm praticado o suicídio direto (alta taxa de suicídio após os setenta anos de idade em algumas regiões da Terra), ou negam-se a viver, aguardando de forma melancólica a morte, como se nada mais pudessem realizar.

Quanto ao suicídio direto, basicamente são três os fatores que alimentam essa infeliz ideia:

1- Conviver com as perdas: normalmente, o idoso enfrenta diversas perdas, desde a perda do vigor físico e da saúde até a perda dos entes queridos, o que pode gerar a depressão e a falta de vontade de viver.

O Espiritismo convida o idoso a refletir sobre a transitoriedade da matéria e a perenidade do Espírito, de tal sorte que é natural o desgaste do corpo físico, devendo o tempo de vida física ser aproveitado para atender os compromissos materiais e sobretudo os espirituais, morais, sabendo, ainda, que haverá, oportunamente, o reencontro, na pátria espiritual, com os entes queridos que já partiram.

Aliás, algumas vezes, a perda da saúde que os torna dependentes, parcial ou integralmente, de algum parente, amigo ou terceiros, os está convidando a exercitar a humildade (reconhecer que têm limites e necessitam do próximo) e a gratidão (por haver pessoas que os estão cuidando).

2-  Sentir-se um fardo: em algumas ocasiões, o idoso se sente um peso para a família, por causa dos cuidados que necessita, e, infelizmente, alguns familiares colaboram para essa sensação em razão das reclamações constantes, quando não colocam os pais, os avós morando no fundo do imóvel, quase na condição de algum estranho ou de alguém esquecido.

Sob a ótica do Evangelho, caberá aos familiares cuidar com ternura dos seus idosos, até porque, normalmente, receberam deles, em suas infâncias, todo o cuidado que necessitavam. Caberá ao idoso, se for tratado com desdém e indiferença, exercitar o perdão e a compaixão, entendendo os limites morais dos familiares, fazendo o melhor para contornar essa situação, amando-os sempre.

3- Perda do sentido existencial: alguns idosos pensam que estão próximos da morte e, portanto, não têm qualquer perspectiva de realizarem algo a mais em favor da vida e de si mesmos, de forma que começam a idealizar o suicídio.

A veneranda religião espírita, conforme já anotado neste artigo, convida  todos o promover a evolução intelecto-moral até os últimos suspiros de vida, porque toda essa conquista será patrimônio do Espírito imortal que somos, portanto, o Espiritismo propicia essa noção de sentido existencial a todos, inclusive aos idosos, mesmo quando a desencarnação já esteja próxima.

Assim sendo, com o aumento da população de idosos no mundo e com a melhora progressiva da qualidade de vida, vem o Espiritismo, na condição de Cristianismo Redivivo, conclamar ao idoso que sempre seja grato pela vida, jovial, alegre, e que possa ser um cristão dedicado, ativo no bem, em todos os momentos e situações, porque, como disse Jesus a Simão, o Zelote, ser moço ou velho, no mundo, não interessa!… Antes de tudo, é preciso ser de Deus!

 

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