Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

Perdoe-se

agosto/2015 - Por José Passini

Ainda pesa muito na consciência de certas pessoas o espectro terrível do Inferno, com suas penas eternas, criado pelos teólogos que, esquecidos dos ensinamentos de Jesus, relativamente à misericórdia do Pai, conceberam essa monstruosidade, ainda capaz de atormentar a muitos.

Mesmo no meio espírita, há pessoas que, embora não temam o Inferno eterno, acham que, fatalmente, irão para o Umbral por algum tempo, em razão de faltas cometidas nesta encarnação.

Recebemos, há alguns anos, uma carta de uma irmã que havia feito um abortamento, antes de se tornar espírita.

Conscientizada da extensão do erro cometido e da necessidade do esforço para a sua reparação, começou a colaborar na casa que frequentava, onde recebeu proposta de trabalho na Evangelização Infantil.

Como havia errado no passado, entrara num terrível drama de consciência, pois se julgava indigna de trabalhar junto aos pequeninos, ela que se negara a trazer uma criança ao mundo.

Escreveu-nos carta pungente, dorida mesmo, expondo-nos sua angustiosa situação. Respondemos-lhe o seguinte:

 

Estimada Irmã,

Recebi sua carta, que mereceu a minha melhor atenção, e que passo a responder.

Você fez um aborto. E aborto é coisa séria, mas não irremediável.

O Espiritismo, trazendo-nos de volta os ensinamentos libertadores e consoladores de Jesus, nos ensina que não há condenação fixa, a não ser na teologia criada pelos homens.

Você diz temer o Umbral, em função de seus erros. Essa preocupação é justa, pois demonstra que você não é uma criatura impenitente, mas, pelo contrário, alguém que conhece a responsabilidade que assumiu quando errou.

Entretanto, não devemos julgar os nossos equívocos do passado com o conhecimento que temos hoje. Se erramos no passado, o fizemos dentro do conhecimento que tínhamos. O importante é agora, que conhecemos mais profundamente a Verdade, não reincidir nos erros.

O perdão, minha Irmã, que o Evangelho nos ensina, deve chegar até nós próprios também! É importante que nos perdoemos, compreendendo que aquilo que está feito está feito, não nos sendo possível mudar mais. Devemos olhar para o passado, não para lamentar, mas para tirar valiosas lições, experiências.   Lembre-se de que Jesus, depois que se foram aqueles que acusavam a mulher apanhada em adultério, perguntou-lhe: “Mulher, onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno: vai-te e não peques mais.” (João, 8: 10 e 11).

Lembre-se, também, de Madalena. Ela era uma mulher que vivia do seu corpo, entregando-se a homens ricos e poderosos, a fim de manter a vida de luxo e gozo. Quem sabe se não terá feito até abortos?

Quando ela conheceu Jesus, acordou para uma vida nova, rompendo com aquele passado equivocado. Jesus recebeu-a com o mesmo respeito com que recebia as outras mulheres que faziam parte do grupo que O acompanhava, enfrentando até mesmo a incompreensão dos Apóstolos, que viviam presos aos preconceitos contra a mulher. O Mestre deu-lhe oportunidade de dignificar-se através do trabalho no bem, que desenvolveu entre leprosos. Ao final da vida, foi recebida pessoalmente por Jesus. (Leia o capítulo 20, Maria de Magdala, do livro “Boa Nova”, de Humberto de Campos, psicografado por Francisco Cândido Xavier, ed. FEB).

Você, hoje, não há leprosos para tratar. Mas há crianças para evangelizar. Lembre-se que podem ser leprosos da alma que, reencarnados, serão curados através do Evangelho de Jesus que você irá mostrar-lhes.

Pedro, na sua Primeira Carta, no capítulo 4, versículo 8, diz: “… a caridade cobrirá a multidão dos pecados.” Algumas traduções, ao invés de “caridade” trazem a palavra “amor”, o que dá na mesma…

Em relação ao Umbral, que tanto a preocupa, lembre-se de que só irão para zonas de sofrimento aqueles que continuam agindo no mal, que não despertaram para o Bem. No livro “Voltei”, do irmão Jacob, psicografado por Francisco Cândido Xavier [ed. FEB], capítulo 7, você verá que um assassino estava sendo levado num grupo, conduzido por Bezerra de Menezes, a uma colônia espiritual, onde seria recebido com respeito e fraternidade. Por quê? Por privilégio? Não. Nem proteção arranjada à última hora, mas sim por mérito adquirido depois que se arrependeu e pôs-se a trabalhar no bem, a fim de compensar o mal anteriormente praticado. O mal exige reparação, e não punição.

Deus, segundo nos ensina Jesus, não quer o nosso sofrimento. Quer apenas que trabalhemos no Bem. Quando uma criatura está trabalhando no Bem, ninguém vai tirar-lhe a oportunidade de servir, para colocá-la em regiões de sofrimento. Se você está evangelizando, vai continuar o seu trabalho abençoado depois de desencarnar, pois no Mundo Espiritual também há crianças a carecerem de orientação.

Quanto ao filho que não quis ter, lembre-se de que é filho de Deus e que poderá tê-lo numa nova encarnação (talvez até mesmo nesta, se encontrar um homem que a respeite e queira não apenas aproveitar-se de você, mas ser pai de seus filhos). Há, ainda, a alternativa de adoção, pois há tantas crianças sem mãe neste mundo.

Quem sabe você não estará encaminhando – agora na evangelização – o mesmo Espírito que rejeitou, e que veio por outra mãe?

Assim, minha irmã, não tema o futuro. Não guarde sentimento de culpa. Lembre-se de que não existe ninguém no mundo que não tenha errado, nesta ou noutra vida. É sempre tempo de renovação. Jesus nos ensinou que Deus é amor, é misericórdia, e não castigo!

Observe que você – como diz em sua carta – queria apenas ser faxineira no centro, mas os Espíritos, vendo a sua boa vontade e o seu desejo ardente de redimir um passado culposo, deram-lhe a oportunidade de trabalhar justamente no campo infantil. Não é isso significativo? Seu arrependimento foi sincero e bem aceito pela Espiritualidade. O acaso não existe, minha irmã. Valorize a oportunidade que recebeu. Agarre-se a ela. Sinta-se dignificada, esforce-se, estude, ore e confie. Jesus está com você. Esteja com Ele!

Abraço amigo do seu irmão,

Passini

 

Já nos havíamos esquecido o fato quando, poucos anos depois, em cidade próxima, a encontramos, feliz, no trabalho de Evangelização Infantil.

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