Jornal Mundo Espírita

Abril de 2019 Número 1617 Ano 87

Perdão como necessidade evolutiva

julho/2018 - Por Sandra Borba Pereira

Senhor,
quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando
houver pecado contra mim? Até sete vezes? –
Respondeu-lhe Jesus: Não vos digo que perdoeis
até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes.
Mt, 18:21 e 22

         A milenar questão apresentada por Pedro a Jesus continua atualíssima, pois o exercício do perdão, ontem como hoje, é das mais difíceis atitudes, mesmo para os cristãos. Em palestra no Paraná, Divaldo Franco dizia ver o perdão como a mais desafiadora experiência da psique humana.

Espíritos ainda infantilizados, psicologicamente imaturos, arraigados ao velho egoísmo e ao orgulho, apresentamos grandes limitações no quesito perdoar. Se acrescentarmos ainda a influência do meio ambiente, a educação recebida e as limitações vinculadas ao autoconhecimento e à arte de conviver, o perdão nos parecerá uma atitude por demais distante, utópica e até romântica.

Atitudes mais simples como a mera desculpa escasseiam nas relações humanas, atestando a supervalorização de equívocos ou erros mínimos que culminam em difíceis situações como a chateação, o melindre, a mágoa, a raiva, a revolta, o desejo de vingança, a agressão e a violência em variados matizes. Relacionamentos no lar, nos ambientes de estudo e trabalho, na vizinhança, nas instituições religiosas se fragilizam e se quebram pela ausência do respeito ao outro ou pela falta de um ato de indulgência, tolerância, compreensão, compaixão, perdão.

Muito ciosos de nosso próprio valor e muitas vezes detentores de uma autopercepção por demais benevolente para conosco e por demais crítica em relação aos outros, apresentamos grande dificuldade em lidar com situações que visualizamos como  lesivas, agressivas e desrespeitosas em relação a nós ou aos nossos entes queridos.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X, em seu item 15, há uma lúcida e profunda mensagem assinada por Paulo em torno do perdão. Nela, o autor nos estimula a uma necessária avaliação das próprias atitudes em várias situações e situa o verdadeiro e completo perdão no esquecimento da ofensa.

Essa mensagem de Paulo nos remete a algumas reflexões sobre o papel do perdão, no processo de superação do próprio Apóstolo dos gentios, quando se converte à mensagem de Jesus. Na obra Paulo e Estêvão, psicografia de Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Emmanuel, no capítulo II da segunda parte, lemos a respeito do encontro de Paulo com o casal Prisca e Áquila, no oásis de Dan, onde trabalhariam por alguns anos nos teares de Ezequias, preparando tapetes de lã e tecidos de pelo caprino, para construção de tendas.

Emmanuel afirma que o Convertido de Damasco logo reconheceu no casal almas fraternas, detentoras de nobres qualidades espirituais. Respeito mútuo, companheirismo, cumprimento dos deveres aliados à expressão de simpatia e fraternidade para com ele fizeram com que Saulo se sentisse agraciado pela companhia e amizade de ambos.

Durante o primeiro ano de convivência, seguindo os conselhos de Gamaliel, o antigo doutor da Lei não revelou ao casal sua identidade, sofrendo pelo próprio passado quando dos relatos de Áquila e Prisca, em relação aos sofrimentos enfrentados por eles, por familiares e amigos, em razão das perseguições movidas por Saulo de Tarso. Soube ainda das orações de Pedro, dos demais discípulos e por muitas outras pessoas para que o perseguidor fosse tocado pelo Mestre Jesus. O trabalho no tear, a amizade, as dificuldades do ambiente e as meditações e conversações em torno das anotações de Levi foram operando  grandes mudanças no Apóstolo da Gentilidade.

Certa tarde, ao receber a notícia da morte de Gamaliel e contemplando o querido casal com muita ternura Saulo decide revelar a sua identidade discorrendo sobre sua conversão, assumindo a responsabilidade de seus atos, mas dizendo em lágrimas: Perdoem-me, porém, levando em conta a minha ignorância criminosa!… O choro convulsivo e sincero do ex-perseguidor, as experiências vividas e o sentimento de compaixão tocam as almas de Prisca e Áquila que lhe dizem: Regozijemo-nos no Senhor, porque, como irmãos, estávamos separados e agora nos encontramos juntos novamente. Não falemos do passado, comentemos o poder de Jesus, que nos transforma por seu amor.

Abraçados e chorando de emoção superior, o trio renovaria por mais dois anos, no oásis de Dan, seu compromisso de servir a Jesus na divulgação e vivência de Sua Boa Nova.

O perdão do casal de tecelões representou, em nossa percepção, o estímulo ao autoencontro e à decisão firme de Saulo de superar-se através das realizações e testemunhos que o futuro lhe descortinaria após a saída do deserto. A atitude do casal contribuiu, decisivamente, para o reerguimento do Convertido, decerto aliviando o peso da própria culpa ou tornando-a mais suportável, num contínuo processo de autoperdão onde as oportunidades de serviço a Jesus se converteriam em novas aprendizagens libertadoras.

O efeito do perdão possui então um duplo efeito: liberta o que perdoa da carga emocional doentia que carrega e repercute na reconstrução emocional e soerguimento moral daquele que foi perdoado.

Áquila e Prisca, em várias oportunidades, estariam ao lado de Paulo na criação das comunidades nascentes, também eles sofrendo por diversas vezes perseguições e flagelações. Vítimas e algoz redimido cantariam a canção do perdão em louvor ao Evangelho.

Lembramo-nos, a propósito do assunto em pauta, que em uma de suas memoráveis palestras Divaldo Franco cita o encontro de dois ex-prisioneiros de guerra. O primeiro indaga ao segundo como ele estava e esse responde que todos os dias lembrava seus torturadores os odiando mortalmente.

O companheiro retruca, lamentando que o amigo continuasse preso aos inimigos pelos laços do ódio. Ele, diferentemente, buscava o perdão e o esquecimento, como medida terapêutica para continuar a viver com qualidade.

Em sua obra O perdão como caminho… e o caminho do perdão, o amigo Alberto Almeida oferece um conteúdo muito rico de reflexões e incentivo à prática do perdão. Indulgência, colocar-se no lugar do outro, autoavaliação das atitudes, ampliação da compreensão acerca dos motivos do ato lesivo, agressivo, desrespeitoso do outro são alguns dos caminhos para que exercitemos  o mais fácil – o deixa prá lá, a desculpa –  como preparação para o enfrentamento de  momentos mais difíceis que a vida poderá nos apresentar.

 

Assine a versão impressa
Leia também