Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

Penas eternas…

março/2015 - Por José Passini

A doutrina das penas eternas é extremamente inconsistente e não resiste a um exame sério porque, segundo ela, a misericórdia de Deus seria inferior à de suas próprias criaturas. Colocaria Deus como incapaz de resgatar um filho que tivesse errado. Nesse caso, Deus seria menos misericordioso do que um pai terreno decente que, malgrado a sua imperfeição, socorre o filho perdido que pede perdão e amparo. Em verdade, ninguém explica de onde foram os teólogos tirar essa aberração chamada inferno de penas eternas, depois de Jesus ter falado tanto a respeito da misericórdia de Deus, dizendo do Pai, conforme João Evangelista: Deus é caridade. (I Jo, 4:8)

Através da Parábola do Filho Pródigo, Jesus deixa sublime ensinamento a respeito da capacidade de um pai terreno de perdoar o filho ingrato que o deixou, depois de ter recebido a parte da herança que lhe cabia. Depois de gastar tudo e de ficar na miséria, ele se lembrou de que seu pai era bom para os empregados, raciocinando: Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros. (Lc, 15:18 e 19)

E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa o melhor vestido, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão e alparcas nos pés; e trazei o bezerro cevado, e matai-o e comamos, e alegremo-nos. Porque este filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido e foi achado. E começaram a alegrar-se. (Lc, 15:20 a 24)

Pode, a misericórdia da criatura ser maior do que a do Criador? Pode a bondade de um pai terreno ser maior que a do Pai Celestial? A esse respeito, é pertinente sejam lembrados ensinamentos de Jesus, quando compara o pai terreno com o Pai Celestial: E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? (Mt, 7:9 e 10)

E, como o Mestre viera para ensinar as criaturas a desenvolverem uma fé baseada não apenas em momentos emocionais, mas na razão, no entendimento, completa: Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus, dará bens aos que lhos pedirem? (Mt, 7:11)

Por outro lado, se Deus é infinitamente misericordioso, como se dará o seu perdão? Deus simplesmente apagaria as culpas daquele que errou, esquecendo-as? Nesse caso Ele não seria justo, pois agiria do mesmo modo em relação à virtude e ao crime.

O Espiritismo ensina que o perdão divino significa uma nova oportunidade ao espírito falido, a fim de que possa reconstruir tudo o que ele danificou, destruiu. Isto é, o pecador deve fazer o bem em igual medida ao mal anteriormente feito. Entretanto, não se trata de punição, mas de ação educativa. Essa posição está em perfeito acordo com a afirmativa: Porque o amor cobre a multidão dos pecados. (I Pe, 4:8).

O Espiritismo não aceita a ideia da encarnação da alma humana em corpo animal. Muito embora essa teoria seja mais admissível que a das penas eternas. Muitos dos que negam a teoria da reencarnação, confundindo-a inconsciente ou conscientemente com a metempsicose, não veem que, embora difícil de se aceitar, a metempsicose seria mais razoável do que a doutrina das penas eternas. Ora, seria mais suave para o Espírito faltoso passar uma encarnação latindo no corpo de um cão, ou puxando carroça e recebendo chibatadas no corpo de um burro, durante uns vinte anos, a ficar eternamente queimando no Inferno.

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