Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Pecado e castigo

agosto/2011 - Por Dineu de Paula

As ideias de pecado e castigo permeiam o pensamento religioso, sob diferentes roupagens.

Conforme a Bíblia, a sistemática de pecado e castigo já se iniciou no mundo angélico, antes da criação do mundo material: houve uma revolta entre alguns dos anjos, que por sua falta foram precipitados no inferno.

Em relação ao gênero humano, na tradição bíblica, a trajetória do pecado e do castigo começou com Adão e Eva. Eles comeram do fruto da árvore proibida e, por isso, foram expulsos do paraíso.

A Bíblia é rica de passagens nas quais Deus aplica severos castigos a quem viola os seus preceitos. Por exemplo, Ele fez com que Miriam ficasse leprosa por sete dias, em razão de, junto com seu esposo, ter falado mal de Moisés (Números, 12:1-10).

Surge a concepção do pecado como uma ofensa contra Deus, que revida mediante o castigo que inflige ao pecador.

No âmbito da Codificação Espírita, é possível encontrar várias passagens nas quais se afirma que Deus condena (LE, questão nº 680), fere (737) e castiga (781, a).

Contudo, uma análise sistemática da obra de Kardec revela que nela o pecado e o castigo comportam leitura bastante diversa.

Para isso, é importante identificar qual concepção de Deus emerge do texto kardequiano. Afinal, como ressaltado em A Gênese, capítulo I, item 24, Deus constitui o ‘eixo de todas as crenças religiosas e o objetivo de todos os cultos’, razão pela qual ‘o caráter de todas as religiões é conforme à ideia que elas dão de Deus.’

Jesus inovou o pensamento religioso ao apresentar Deus como um pai bondoso e justo, em substituição à figura colérica, vingativa e caprichosa que então predominava.

O Espiritismo, surgido em um contexto de maior racionalidade, sem prejuízo do aspecto de paternidade amorosa do Criador, apresenta-o como uma inteligência cósmica (LE, questão nº1), infinitamente perfeita e que rege o Universo com base em leis igualmente perfeitas, plenas de justiça e misericórdia. Eis que Deus surge despido de caracteres antropomórficos, sem os vícios e as paixões humanas.

Essa concepção do divino é a chave para se entenderem os conceitos de pecado e castigo, na óptica espírita.

Para esse entendimento, também é de crucial importância uma atenta leitura da questão nº 617 de O Livro dos Espíritos. Nela, Kardec esclarece que as leis divinas ou naturais englobam as leis físicas e as leis morais. Essa inclusão das leis morais no âmbito das leis naturais é particularmente rica de significados.

Em questões morais, habitualmente se raciocina de modo semelhante ao que ocorrem com as leis culturais, as elaboradas pelo homem. Mas essa indevida assimilação engendra graves equívocos no que concerne ao tema em debate – pecado e castigo.

As leis culturais, por ser criação humana, sempre têm um toque de imperfeição e artificialidade. O legislador humano imputa consequências a certos atos ou fatos, na conformidade da evolução da Sociedade. Ocorre que essas leis são ordinariamente desrespeitadas – o que constitui indício do estado evolutivo ainda incipiente da raça humana – e, para que a consequência prevista pela lei se dê, é necessário que um terceiro elemento atue.

Código de Trânsito Brasileiro estabelece alguns limites de velocidade e prevê para quem os viola determinadas penalidades, como multa pecuniária e pontos na carteira de habilitação.

Para essa incidência, um agente de trânsito precisa ser cientificado do fato e agir. Se tal não ocorre, a consequência legalmente prevista não se efetiva. Justamente por isso, diz-se que as leis culturais se situam no âmbito do ‘dever ser’.

Elas dizem como as coisas devem ocorrer no meio social, mas nem sempre essa previsão ideal, o ‘dever ser’, encontra correspondência no mundo dos fatos, o mundo real, do ‘ser’.

Já o funcionamento das leis naturais é completamente diverso. As consequências são naturais e automáticas e não dependem da atuação de um elemento estranho aos fatos. Se alguém aquece água a 100ºC, em condições normais, ela entra em ebulição e evapora. Não é necessário que outrem esteja atento, ou seja, cientificado para fazer a lei natural envolvida incidir. Do mesmo modo, se um homem pula do telhado de sua casa, a lei de gravitação universal o conduz ao solo, com todas as consequências daí decorrentes. A queda e os ferimentos não constituem castigo, providenciado por um agente disposto a punir, mas consequência natural e automática do comportamento adotado. Em relação às leis naturais, não há descumprimento inconsequente, pois elas se situam no âmbito do ‘ser’, e não do ‘dever ser’.

O comportamento adotado dá automaticamente causa a determinadas consequências.

Quando os Espíritos Superiores incluem as leis morais no âmbito das leis naturais, ao lado das leis físicas, formam um sistema integralmente harmônico com a concepção do divino como uma inteligência cósmica, que rege o mundo com base em leis perfeitas.

Nesse contexto, não há alguém de olho em quem erra para puni-lo. O homem, a cada instante, aciona mecanismos que o devem felicitar ou infelicitar. Cumprem-se as leis morais, engendra causas de felicidade e bem-estar para si próprio.

Se as viola, atrai para sua vida ocorrências desagradáveis na exata medida da gravidade de seu comportamento.

Assim, quando, no contexto da Codificação, fala-se que Deus julga, pune, castiga ou recompensa, isso deve ser entendido no sentido de que suas leis perfeitas estão a incidir e dão resposta precisa a todo comportamento. O Criador não deve ser reduzido à figura de um guarda de trânsito ou de um agente do Imposto de Renda.

Nesse arcabouço cósmico, feito para conduzir as almas à perfeição, não há possibilidade de equívocos ou burlas, pois, se a justiça humana deve ser, frequentemente não sendo, a justiça divina simplesmente é inserida que está no âmbito da ordem natural das coisas.

Sob esse enfoque, os conceitos de pecado e castigo trazem uma roupagem completamente nova. Pecado não é mais uma ofensa contra Deus, visto que este não se assemelha a uma criatura humana, com suas fragilidades. Ele não se ofende com os equívocos de seus filhos em processo de crescimento. Também o castigo não é uma vingança ou uma atividade pessoal de Deus, para punir o faltoso.

A respeito são precisas as lições de Paulo de Tarso, declinadas na questão nº 1.009 de O Livro dos Espíritos. Conforme Paulo, culpado ‘é aquele que, por um desvio, um falso movimento da alma, se afasta do objetivo da criação, que consiste no culto harmonioso do belo, do bem, idealizados pelo arquétipo humano, pelo Homem-Deus, por Jesus Cristo’.

Quanto ao castigo, ainda segundo São Paulo, trata-se da ‘consequência natural, derivada desse falso movimento; certa soma de dores necessárias a desgostá-lo da sua deformidade, pela experimentação do sofrimento. O castigo é o aguilhão que estimula a alma, pela amargura, a se dobrar sobre si mesma e a buscar o porto de salvação. O castigo só tem por fim a reabilitação, a redenção. ’

Assim, torna-se culpado, ou se faz pecador, quem se desvia momentaneamente do projeto harmônico de felicidade e bem-estar elaborado por Deus para Seus filhos. O pecado é esse desvio momentâneo pelo descumprimento das leis morais.

Quem assim age se sujeita ao castigo, que consiste na soma de dores necessárias a que se emende e integre ao todo harmonioso e feliz.

A lei de justiça que rege o Universo é basicamente uma lei de harmonia. Quem a desrespeita sofre o rebote, que constitui consequência natural e automática do comportamento que elegeu, para se colocar de novo no caminho certo. O agente da desarmonia entra em desequilíbrio até restaurar o que perturbou. Enquanto não apaga o mal com o bem, sofre, perturba-se, desenvolve complexos e inibições e atrai situações dolorosas para sua vida.

A lei divina encontra-se escrita na consciência de cada ser (O Livro dos Espíritos, questão nº 621) e é impossível fugir da própria consciência. Ou seja, os conceitos de injustiça e impunidade são estranhos à ordenação cósmica, ao contrário do que ocorre no âmbito humano.

Bem se vê que o homem jamais deve se achar injustiçado ou perseguido nas ocorrências de sua vida. Ele vive exatamente o que preparou para si e o de que necessita para retificar sua concepção de vida e sua caminhada em direção ao alto.

Nem perseguido nem punido, mas amorosa e sabiamente conduzido rumo à suprema felicidade, sempre na conformidade dos caminhos que elegeu e elege para si próprio a cada instante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BÍBLIA. Português. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.

2. KARDEC, Allan. Tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª ed. especial. Rio de J­aneiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

 

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