Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

Passageiros

abril/2017 - Por Maria Helena Marcon

O filme estreou, no Brasil, em janeiro e não deve ser confundido com o homônimo, lançado em 2009, com direção de Rodrigo Garcia.

O atual é uma ficção científica, e tem a direção de Morten Tyldum. Inicia com a visão de uma gigantesca nave espacial, construída para viajar cento e vinte anos, rumo a um planeta colônia, Homestead II, transportando 5.259 pessoas, sendo 5.000 passageiros e 259 tripulantes.

Starship Avalon lembra o navio Titanic, considerando que foi projetada para alcançar seu alvo. Tudo pensado, idealizado para nada lhe impedir a chegada ao destino. Inclusive, um sistema de autorreparação.

No entanto, como o Titanic, que naufragou em 1912, em sua viagem inaugural, ela encontra problemas. Se aquele teve o casco rasgado por um enorme iceberg, esta se choca contra um grande meteoro e sofre avarias. O grave problema é que todos os que estão a bordo, estão hibernando, e não há quem possa assumir o comando e providenciar reparos. Ninguém para se importar com as vidas em perigo.

As máquinas, projetadas para determinadas situações, executam as tarefas, conforme os comandos que lhes foram estabelecidos.

E a primeira grande lição que o filme confere é que nada substitui o ser humano. As máquinas podem nos ser excelentes auxiliares mas somente o Espírito imortal tem a inteligência que o torna cocriador com a Divindade. Somente ele tem sentimentos que lhe conferem amplas possibilidades de interagir, pensando em sua autopreservação e do seu semelhante.

Assim, quando uma das cápsulas de hibernação apresenta defeito, liberando o engenheiro mecânico Jim Preston, começa o drama de um Robinson Crusoé da ficção científica.

A mensagem que recebe é de que está chegando ao destino, descobrindo, logo, que faltam, em verdade, nove décadas. Um homem só, numa nave no espaço. O desespero da solidão.

Ele tem atendidas suas necessidades básicas: alimento, sono, conforto. Basta apertar certos botões. E nem precisa se preocupar com a limpeza, imediatamente realizada por robôs.

Não foi esquecido o lazer, que inclui uma segura viagem pelo espaço, num traje especial e um cabo de aço que lhe garante a segurança do retorno à nave.

Com certeza, a maravilha das estrelas é estonteante e nos remete à grandeza de Deus. Mas, como se extasiar com tanta beleza, sem ter ninguém para dividir a experiência, nenhum afeto para se emocionar junto, para dizer algo, para gritar de contentamento?

Então, tudo é fruído, mas sem maior entusiasmo porque não há com quem compartilhar.  Qual a graça da aventura sem ter a quem contar ou com quem dividir a experiência?

E como Chuck Noland, em Náufrago, criou o Sr. Wilson, a partir de uma bola murcha de vôlei, Jim encontra um companheiro. É um robô, Arthur, o barman da nave, que tem respostas prontas e ensaiadas para variadas situações.

Um robô que o serve, que tem sempre a mesma disposição, o mesmo sorriso, o mesmo propósito. Nada humano, nada de essência verdadeira. Nada que alente a alma, que permita uma discussão em torno das dificuldades, que auxilie a pensar em soluções, que consiga avaliar perigos, que entenda o intrincado dos sentimentos.

Jim tenta se comunicar com a Terra. Paradoxalmente, em uma época de tanta tecnologia, como demonstra o filme, ele vai se servir de uma mensagem por e-mail… que demorará exatos dezenove anos para chegar ao planeta de origem e cinquenta e cinco anos para ele receber a resposta.

Com certeza, não deixa de ser uma crítica ao serviço de Internet, que nos frustra quando desejamos mais e mais velocidade e, simplesmente, precisamos aguardar.

Também podemos pensar em quantas vezes nossos amores, na Espiritualidade, nos enviam mensagens, almejando que as entendamos, que os percebamos. E deverão ficar aguardando que nossa sensibilidade se aprimore, que nossa mente e nosso coração se abram para ouvi-los, para senti-los.

Como o homem foi feito para viver em sociedade, para o que lhe deu Deus a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação (O livro dos Espíritos, item 766), um ano após o seu despertamento, o desespero toma conta do engenheiro mecânico. Ele não aguenta mais viver só e a perspectiva de morrer, antes de alcançar o seu destino.

O filme, estranhamente, não se reporta a saudade da vida na Terra. Seria alguém sem família, sem amigos? Nem discute o que o levou a comprar um bilhete para a viagem a outro planeta.

É de nos indagarmos o que motiva um ser humano a deixar sua casa, sua profissão, familiares, colegas, amigos, rumo ao espaço.

Podemos muito bem tecer um paralelo quando deixamos tudo isso, no mundo, em busca de algo que nos preencha determinados anseios. Por vezes, alcançando o desiderato. De outras, somente nos infelicitando.

É de se cogitar se a Terra teria esgotados os seus recursos, tornando-se inadequada à vida humana. No entanto, se a tecnologia teria avançado tanto, não poderia ser aplicada ao próprio planeta, readequando condições, pensando nos tantos bilhões que ela comporta e não numa minoria, apenas?

Enfim, quando o desespero atinge o auge, Jim resolve se suicidar, lançando-se no espaço. Lemos em O livro dos Espíritos, item 943, que o desgosto pela vida é efeito da ociosidade, da falta de fé e, geralmente, da saciedade.

É a exata descrição do personagem, que não vê perspectiva à frente. Afinal, quando a nave chegar ao seu destino, ele estará morto, porque terão se escoado noventa anos. Sem nada para construir, sem nenhum objetivo a perseguir, ninguém para amar, nada lhe restava. Nada, senão a morte.

Enfim, detém o gesto e toma outra atitude: abre, propositalmente, outra cápsula, onde se encontra uma jovem escritora. O propósito dela era chegar a Homestead II, viver lá por um ano (contar-se-iam os dias lá como na Terra?) e retornar em outra nave, para escrever suas memórias.

Teriam se passado mais de dois séculos, então. Não encontraria, por aqui, nenhum dos seus parentes ou amigos. Terá pensado nisso? E, em dois séculos, como estaria o planeta Terra? Que mudanças teriam ocorrido?

Isso nos remete à sabedoria Divina, nos permitindo o processo reencarnatório. Retornaremos ao cenário terrestre, com tudo que tenhamos amealhado em vidas anteriores, virtudes, conquistas. Também com nossos afetos, que reencontraremos na feição de pais, irmãos, amigos.

Retornaremos, não para atender um simples capricho, mas para progredir, para auxiliar os que estão a caminho conosco. Tão mais proveitoso!

Ao abrir a cápsula, egoisticamente, Jim condena ao seu mesmo destino a outra pessoa. O mesmo egoísmo que levou aqueles seres todos a empreenderem uma grande viagem, abandonando o seu planeta, buscando somente o seu bem-estar, ou a aventura, ou novos horizontes.

Isso nos remete a examinarmos nossas próprias atitudes. Quantas vezes, exigimos dos que nos cercam grandes sacrifícios, para atender àquilo de que carecemos?

Embora a crítica tenha sido um tanto cruel ao analisar a trama cinematográfica, para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, várias cenas conduzem a muitos questionamentos.

Se o objetivo era colonizar um novo planeta, era buscar uma vida melhor, logo se descobre que lá serão mantidas as diferenças sociais, que começam na própria viagem. Bilhete ouro, como o de Aurora, tem alimentação mais rica, saborosa, diversificada. Bilhete simples, como o de Jim, o banal de todo dia, repetitivo.

Amizade, amor, ódio, são sentimentos expressados em muitos momentos. Próprios do ser humano, ainda imperfeito, mas com possibilidade de aprender a desculpar, a perdoar, a auxiliar.

A cena da morte de um terceiro personagem, retirado da hibernação de forma inadequada, graças ao descontrole do equipamento, comprometendo-lhe o físico, é um toque à parte. Sua sentença é a morte iminente, seu corpo está deteriorado. À surpresa inicial, a angústia por saber que logo morrerá, é suplantada pela preocupação com os que ficarão. Por isso, oferece a chave que dá acesso a todos os comandos da nave que ele, na qualidade de comandante, possuía.

As máquinas avariadas precisam de reparos. Não adianta discutir com elas, programadas para darem as mesmas respostas, sem análise de uma nova perspectiva, sem aceitarem que há um erro grave e que precisa ser consertado.

Sem isso, não somente morrerão Aurora e Jim, logo mais, o que lhes poderia até soar benéfico, do ponto de vista imediatista. Também sucumbirão as mais de cinco mil vidas, que hibernam.

Nesse momento, o altruísmo se apresenta e Jim, com risco da própria vida, realiza o ato heroico, ajustando a falha. Salva a nave, salvas as tantas vidas, menos as suas. O que os aguarda, afinal, presos em uma gigantesca nave, que viaja pelo espaço?

Não tornarão a ver a Terra, não chegarão ao novo planeta. Morrerão antes disso porque terão ultrapassado um século de vida.

Então, o casal toma uma inusitada decisão: desfrutar da vida que têm, onde se encontram, em vez de desejarem estar em outro lugar, em outras circunstâncias.

Vicente de Carvalho escreveu em seu poema Felicidade, que:

 

Essa felicidade que supomos,

Árvore milagrosa, que sonhamos

Toda arreada de dourados pomos,

 

Existe, sim: mas nós não a alcançamos

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos.

 

O que faz o casal não é a demonstração de uma resignação passiva, ou um simples aguardar do inevitável. É uma atitude próativa. Uma atitude que lhes permitirá viver bem os anos que terão, sozinhos, navegando pelo espaço.

Por isso, o final é surpreendente ao telespectador. Surpreendente, também, para os mais de cinco mil passageiros e tripulantes, que despertam, próximos do seu destino.

 

Ficha Técnica:

Título no Brasil: Passageiros

Título original: Passengers

Gênero: Ficção

Duração: 116 minutos

País:  EUA

Diretor: Morten Tyldum

Roteirista: Jon Spaihts

Elenco

Jennifer Lawrence

Chris Pratt

Michael Sheen

Laurence Fishburne

Andy Garcia

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