Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87
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Párias em redenção

junho/2014 - Por Marco Antonio Negrão

Victor Marie Hugo nasceu em Besançon (França), em 26 de fevereiro de 1802. Morreu em Paris, a 22 de maio de 1885, aos oitenta e três anos.

Em suas obras, preocupou-se em tratar de assuntos ligados a temas políticos e sociais. Era muito criativo, com uma imaginação privilegiada, progressista e reformista.

Durante o Segundo Império, em oposição a Napoleão III, viveu em exílio em Jersey, Guernsey e Bruxelas. Foi um dos poucos a recusar a anistia decidida algum tempo depois.

Quando vivia na Ilha de Jersey, a morte da sua filha, Leopoldina, afogada por acidente no Rio Sena, junto com o marido, fez com que o escritor se deixasse levar por experiências espíritas relatadas na obra Les Tables Tournantes de Jersey (As Mesas Girantes de Jersey).

A partir de 1849, Victor Hugo dedicou sua obra à política, à religião e à filosofia humana e social. Reformista, desejava mudar a sociedade mas não mudar de sociedade. Em 1870, retornou à França e reatou sua carreira política. Foi eleito primeiro para a Assembleia Nacional e, mais tarde, para o Senado. Não aderiu à Comuna de Paris mas defendeu a anistia aos seus integrantes.

De acordo com seu último desejo, foi enterrado em um caixão humilde no Panthéon, após ter ficado vários dias exposto sob o Arco do Triunfo. Estima-se que um milhão de pessoas foi lhe prestar uma última homenagem.

Este é o autor da obra que encanta a quem a lê, uma vez que a trama é muito bem trabalhada para mostrar a misericórdia divina, que não desampara Seus filhos, mesmo os mais renitentes no mal.

Em Elucidação, Victor Hugo inicia o romance com uma mensagem muito atual, para estes tempos de transição:

Enquanto os instintos agressivos predominarem em a natureza humana (…); enquanto o homem não se submeter aos dispositivos severos do Estatuto Divino, incorporando-os à conduta do quotidiano, do que decorrerá a sua harmonia interior em exteriorização da paz generalizada, e a cobiça como o egoísmo – cânceres odientos que ainda predominam – não se façam banidos da Terra; (…) livros como este serão necessários. Far-se-á indispensável relatar as tragédias e os dramas, narrando-se os episódios em que malograram os ambiciosos e as consequências que sofreram, qual brado de advertência para os que ainda não se comprometeram e estímulo para os que porfiam nas linhas diretoras do equilíbrio e do dever, na viagem carnal do Planeta.

Enquanto o homem não se levantar, emergindo do animal, similia similibus, livros evocando a história dos párias, em trilhas de redenção, serão imprescindíveis para o estudo da alma humana, conforme é considerada do lado de cá.

Somente este alerta, como justificativa da necessidade do livro, já nos leva a pensar que este é um manual de conduta que todos devemos ter. Em nossa jornada, como Espíritos Imortais, nas diversas existências e oportunidades que tivemos, não sabemos o quanto distorcemos as palavras do Cristo, para atender aos nossos objetivos escusos, de como utilizamos o poder para subjugar e maltratar o próximo para servirem como escravos dos nossos desejos.

Párias em Redenção, psicografia de Divaldo Pereira Franco, editada pela FEB, em 1971, é um romance, dividido em três livros, ou seja, três partes. O primeiro narra a trágica história de crimes, onde Espíritos, que  tinham um relacionamento de vidas anteriores, tiveram novas oportunidades, através da reencarnação, para trabalharem seu crescimento moral. A história desenrola-se entre personalidades da nobreza, na Toscana (Itália), no século XVIII.

O capítulo 1 inicia com a narração do velório do Duque Di Bicci Di M. e conhecemos os demais personagens: Girólamo, sobrinho órfão, adotado pelo Duque; a Duquesa Ângela, mulher de elevada condição moral e  muito caridosa, mas que, nesse momento da história, já havia retornado ao Mundo Espiritual; Assunta, criada e informante de Girólamo; Lúcia, dama de companhia da Duquesa e babá dos filhos do Duque.

Girólamo, rapaz atraente porém, ambicioso e dissoluto, tem informações de que o testamento deixado pelo Duque, dá à Lúcia a tutela das crianças e a administração dos seus bens, deixando a ele uma mesada. Porém, ele deseja toda a riqueza e trama a morte dos seus irmãos de criação e de Lúcia. Utiliza-se de Assunta, criada apaixonada por ele, para executar o plano. Após a execução, ela é morta por Girólamo, por ser a única testemunha do crime praticado.

Enquanto está sendo tramado o crime, Ângela, desencarnada, tenta demover o rapaz, conversando com ele, durante o desdobramento do sono, para que a razão e a caridade prevaleçam:

(…) ouve-me, Girolano é tempo. Foge, viaja, sai desta casa, evade-te ainda hoje, buscando renovação noutros sítios e retorna depois. Serás sempre bem recebido. Terás o de que necessitas, o que ambicionas, porém por outros meios. Sai em busca da paz, enquanto luze a oportunidade, pelo amor de Deus eu te rogo, meu filho!

Tresloucado, espírito em alucinação, o moço gritou: Nunca! Agora irei até o fim, até a minha total desgraça ou ventura. Não pararei!

–Atingirás, sim, a desgraça. Deus tenha piedade de ti! Eu te perdoo, filho. Perdoe-nos o Senhor a todos nós!

O Duque, ao despertar no Plano Espiritual, após a sua desencarnação, é atraído para o ambiente e toma conhecimento do que o sobrinho está tramando. Entre eles já existia antipatia mútua, uma vez que eram Espíritos comprometidos em obscuro passado.

A partir da execução dos crimes, a história narrada por Victor Hugo assume inúmeras facetas e desdobramentos, contados nos livros seguintes.

No último parágrafo da obra, Hugo assinala a data em que a história toda tem desfecho – 10 de julho de 1967, quando os Espíritos redimidos retornam à Pátria Espiritual. Foram 221 anos, 6 meses e 18 dias de resgate, a contar daquele longínquo 22 de dezembro de 1745, em que os crimes haviam sido perpretados.

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