Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Paranorman

junho/2013 - Por Maria Helena Marcon

Quando as crianças dizem que veem e falam com Espíritos, pais e familiares, normalmente, têm duas reações: ou levam tudo à conta da fértil imaginação infantil ou catalogam como perturbações graves, onde se misturam suspeitas de problemas mentais e carência afetiva, acreditando que os relatos têm por escopo atrair a atenção para si.

Alguns pais, mais preocupados, buscam apoio em psicólogos e médicos, pretendendo que, se eles não conseguem entender o filho, alguém haverá com a capacidade de fazê-lo e parar o processo perturbador ou enfermiço.

De um modo geral, portanto, por desconhecer a realidade da vida espiritual, desse mundo testemunhal que nos rodeia, nos acompanha e, como alerta O livro dos Espíritos, de ordinário, são eles que nos dirigem os pensamentos e atos (item 459), há muito susto e sofrimento.

Para a criança, a quem os fenômenos ocorrem, tudo parece normal. Contudo, dadas as reações que seus relatos provocam, fecha-se em si mesma e suporta sozinha o medo, quando as visões não são belas, e a pecha de mentiroso.

A temática foi habilmente tratada no filme O sexto sentido, direção e roteiro de M. Night Shyamalan, lançado em 1999. Mais recentemente, em 2012, um desenho animado, no entanto, levou para as telas a história de Norman Babcock.

Ele é um menino de onze anos, que passa a maior parte dos seus dias apreciando detalhes de filmes de terror e estudando crenças sobre fantasmas. Tem a habilidade de ver e falar com os mortos, como a sua amada avó, que vai ao seu quarto ou se senta no sofá, fazendo seu tricô, enquanto ele assiste à televisão.

Ninguém acredita no que ele conta. O pai se mostra irritado a cada uma das suas informações. A mãe pede ao filho que deixe de contar aquelas coisas que ele sabe desgostam ao pai. Com a irmã, adolescente, não tem ele melhor sorte. Ela nem o deseja por perto para não atrapalhar, ou seja, espantar seus namorados.

Na escola, Norman é um garoto solitário, isolado por ser esquisito. Sofre, todo dia, brincadeiras de mau gosto, recados de ESQUISITO, escritos em seu armário.

É o bullying, do qual também é vítima, na mesma escola, Neil, um garoto ruivo, cujo problema é a obesidade. Para esse, os epítetos são de gorducho, rolha de poço, traduzindo o tanto da maldade que existe em algumas crianças, ao mesmo tempo denunciando a indiferença do sistema escolar, que não se preocupa com valores morais e nem estabelece regras de coibição de procedimentos cruéis, por vezes, lesivos, não somente ao moral mas também ao físico dos seus estudantes.

Por isso, por sofrerem ambos da mesma problemática, a agressão dos colegas, diariamente, Neil e Norman se tornam amigos.

Neil acha interessante ter aquele menino perto de si. Ele consegue ver seu cão, que já morreu? Afinal, ele gostaria muito de tornar a poder brincar com ele.

Norman tem um tio que, como ele, vê e fala com os Espíritos. Por isso, foi renegado por toda a família, como um pária. Para não aumentar ainda mais a sua imaginação ou perturbação, os pais de Norman o proibiram de falar com o tio, Prenderghast, que mora em uma casa quase a cair aos pedaços, isolada, apinhada de livros e coisas estranhas, ele mesmo um personagem estranho, não muito afeito à higiene e à ordem.

A animação demonstra aí o que se pensa, habitualmente, dos médiuns: seres esquisitos, alijados da sociedade, desprovidos de hábitos saudáveis. Embora muito do preconceito tenha se diluído no tempo, ainda persistem muitas dessas ideias de que médium é um ser perturbado, que não participa de forma natural da vida em sociedade, do mundo.

Reconhece-se, nesse ponto, como o desconhecimento do verdadeiro mundo, o espiritual, o pré-existente ao mundo material (O livro dos Espíritos, item 85), é grande. Entretanto, o guia para médiuns e evocadores foi publicado, na cidade luz,  na França,  há nada menos que 152 anos: O livro dos médiuns (Allan Kardec).

Como toda sociedade, aquela cidade onde tudo se desenrola, tinha alguns problemas graves, além dessa falta de caridade de uns para com os outros.

Boatos existem de que, há trezentos anos, uma praga se abatera sobre ela. Anualmente, era preciso esconjurar o Espírito de uma bruxa vingativa, que ameaçava a paz do lugar. De geração a geração, essa tarefa era passada a um médium. Segundo a comunidade, um ser esquisito e alienado.

Verificando que seu problema cardíaco está evoluindo, temendo morrer sem passar a outrem a sua tarefa, Prenderghast procura Norman, na volta da escola. Deseja lhe falar e lhe diz, de forma rápida, que ele, por ter os mesmos poderes, é o único que pode salvar a cidade, continuando a tradição de adormecer a bruxa.

É preciso ir até o local onde ela foi enterrada e ler um conto de fadas. Isso fará com que durma mais trezentos e sessenta e cinco dias.

É exatamente nesse momento que a animação se torna mais interessante. Naturalmente, algumas cenas são hilariantes, como a em que Norman que, a princípio, nem quisera ouvir a fala do tio, percebendo os Espíritos que ameaçam a cidade, vai em busca dele e o  encontra morto. As tentativas para lhe retirar das mãos frias, o livro que deve ler para a bruxa levam ao riso.

Mas, quando Norman vai enfrentar a bruxa, o que se vê é um verdadeiro esclarecimento doutrinário.  As perguntas de Norman são inteligentes, precisas.

Pela visão psíquica, ele se dá conta que a bruxa não passa de uma menina. Uma garotinha que, como ele, via e falava com os Espíritos.

A ignorância da comunidade, há trezentos anos, a arrancara dos braços de sua mãe, a levara à barra de um tosco e improvisado tribunal, composto por pessoas que, em verdade, temiam aquelas manifestações por nada conhecerem, por não entenderem e optaram por condená-la à morte na forca.

Ela morrera, sim, mas tomara-se de ódio mortal pela comunidade e firmara o propósito de retornar e perturbá-la. Tornara-se, por vingança, um Espírito obsessor e muito infeliz.

Entre tantas tentativas para o diálogo esclarecedor que ela rejeita, enraivecida, Norman a questiona: Afinal, por que você faz isso?

É um momento decisivo. Ela odeia há tanto tempo, que já não recordava porque odiava. E Norman lhe fala do amor, sempre o amor, incentivando-a a lembrar de alguém que a ama.

Ela se recorda da mãe e, de repente, se torna a menina indefesa, assustada, sozinha, prisioneira de pessoas mais ignorantes do que cruéis, que a condenaram à morte.

Eu quero a minha mãe! – Chora ela. Norman lhe diz que se ela desistir da vingança, poderá se libertar de tudo aquilo e ir para onde se encontra sua mãe, que nunca a abandonara, mas que ela não conseguia vê-la ou senti-la, por questão de se manter em oposta sintonia, a da monoideia da vingança.

Que belas cenas as das recordações: ela volta a estar no campo, na serenidade do verde, das árvores, o local onde sua mãe a levava a passear e lhe lia histórias, onde trocavam abraços e carinho…

Tudo acaba bem: ela encontra a paz, rumando para outra dimensão espiritual, abandonando seu propósito, para o reencontro com a mãezinha. E, todos os juízes, igualmente atormentados pelo remorso, também se transferem para essa outra dimensão,  alterando-se-lhes a forma densa para uma mais diáfana, que tal lhes permite.

Não aprendemos, na Doutrina Espírita, a respeito do perispírito, do seu peso específico e das limitações impostas por ele para adentrar certas regiões espirituais?

Alguns outros detalhes merecem registro, nessas ações de Norman, ou seja, a família se envolve. A irmã, antes fria e nem desejando ter o irmão por perto, se alia a ele, descobrindo que o ama e que com ele se importa. A maneira como ela isso demonstra nos leciona que existem diversificadas formas de se manifestar o amor e que, de acordo com a evolução de cada um, se faz essa demonstração.

A da garota é de coragem e luta: Ai de quem faça mal ao seu irmão!

O fiel Neil fica orgulhoso. Afinal, ele sempre fora amigo de Norman, que se torna o herói da cidade, pois soubera, de forma corajosa, enfrentar a maldição da bruxa e libertara a comunidade, para sempre.

O desenho, é claro, mostra os Espíritos dos juízes saindo dos túmulos, com seus corpos, andando pela cidade e a todos aterrorizando com suas fisionomias torpes.

Pode parecer inverossímil. Contudo, se formos aos Evangelhos, encontraremos o Evangelista Mateus (27:51-53) descrevendo que, quando Jesus morreu no Gólgota, vários fenômenos ocorreram.

Rasgou-se em dois, de cima a baixo, o véu do Santuário, a terra tremeu e as pedras racharam. Os sepulcros foram abertos, e muitos corpos dos Santos, que estavam deitados foram levantados. E, saindo dos sepulcros, após o erguimento dele, entraram na cidade santa e se manifestaram a muitos.

Isso atesta que houve uma grande manifestação espiritual, que foi percebida por muita gente e, como não entendiam das questões da Imortalidade, levaram à conta de que os mortos haviam saído dos seus túmulos e andado pelas ruas.

Não é outra a visão mostrada na animação. Reconhece-se que são Espíritos, pois, quando tudo se acalma, quando se dão conta do seu grave erro e o arrependimento lhes chega, se mostram como Espíritos e desaparecem aos olhos das pessoas.

O desenho pode ser utilizado para ilustrar certas verdades que estudamos na Doutrina Espírita e, mais uma vez, observamos a propriedade das informações espirituais ao Codificador: chegará o dia em que o Espiritismo se tornará crença geral e marcará nova era na história da humanidade, porque está na natureza e chegou o tempo em que ocupará lugar entre os conhecimentos humanos. (O livro dos Espíritos, item 798).

Uma recomendação: que não se assista com olhos de quem busca as falhas doutrinárias que apresenta. Não se trata de um filme espírita. É um desenho que explora as manifestações mediúnicas, e objetiva ganhar o público, lucrando muito.

Revistamo-nos desse sentimento de extrair o ensino, a abordagem muito própria que se faz da realidade espiritual, de que o ódio aprisiona e maltrata, enquanto o amor liberta.

Por fim, que precisamos prestar mais atenção aos nossos filhos, ao que dizem, ao que manifestam. E, se não soubermos as respostas, antes de os qualificar como perturbados, alienados, criadores de caso, busquemos nós mesmos nos ilustrar, pesquisando, estudando.

Vemos muitos pais, ao receberem diagnósticos de doenças raras para os seus filhos, dedicarem-se horas e horas a pesquisar, tentando entender a enfermidade, como se manifesta, como evolui, intentando soluções, buscando recursos aqui e acolá.

Por que, é de nos indagarmos, quando se trata das questões espirituais, somos ainda tão simplistas e descuidados?

Pensemos a respeito. Há cento e cinquenta e seis anos, O livro dos Espíritos veio a lume, ofertando para a Humanidade a síntese do ensino espírita, como fonte segura de orientação para todos os que desejemos.

Estudemos e conduzamos nossos filhos a esse ensino.

Ficha técnica:

Direção:  Chris Butler e Sam Fell

Elenco:    vozes de Anna Kendrick, John Goodman, Leslie Mann, Casey Affleck, Jodelle Ferland, Christopher Mintz-Plasse, Kodi Smit-McPhee, Bernard Hill, Jeff Garlin

Nome Original:  ParaNorman

Ano de lançamento:  2012

Distribuidora:  Universal Pictures

Duração:  90 minutos

Gênero: Animação

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