Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2019 Número 1614 Ano 86

Parábolas e ensinos de Jesus

dezembro/2018 - Por Rogério Coelho

Graças às parábolas, a essência dos ensinamentos
de Jesus atravessou – incólume – a noite dos milênios.

As parábolas ensinadas por Jesus não foram muitas, porém, cada uma delas tem um endereço certo e objetiva equacionar um problema, de forma que, quando se pretende obter um esclarecimento sobre determinado assunto que atormenta o homem, basta apelar para as parábolas, porque nelas se encontra a solução.

Nas parábolas, o Mestre Maior criava personagens, dando vida às Suas narrações, as quais passavam assim a ter profundeza e extensão, necessárias para que pudessem atravessar os séculos, chegando incólumes aos nossos dias.

Jesus Cristo criou um tipo de parábola para cada espécie de problema. Cada uma delas objetiva atingir um fim, equacionando numerosos casos que afligem o ser humano.

São fartamente utilizadas as parábolas nas falas do Enviado de Deus. Seu pensamento, comumente tão luminoso, mergulha por vezes em meia  obscuridade. Não se percebem, então, mais que os vagos contornos de uma grande  ideia dissimulada sob o símbolo.

Ensina Léon Denis[1] que havia duas doutrinas no Cristianismo primitivo: a destinada ao  vulgo,  apresentada   sob   formas acessíveis  a todos, e outra oculta, reservada aos  discípulos e iniciados.

Paulo confirma essa duplicidade, em sua Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo três, quando distingue a linguagem a usar com homens carnais  ou com  os homens espirituais, isto é, com profanos e iniciados. A ênfase mais grave quanto a isso a deu o próprio Cristo ao aconselhar[2]:  Não  deis aos cães as coisas santas, e nem deiteis aos porcos as vossas pérolas.

A iniciação era indubitavelmente gradual… Os que a recebiam eram ungidos e, depois de  haverem  recebido  a unção, entravam na comunhão dos santos. É o que ressalta das seguintes palavras de João, o Evangelista[3]: Vós outros tendes a unção do santo e sabeis todas as coisas. Eu não vos escrevi como  se  ignorásseis  a verdade, mas como a quem a conhece.

A Boa Nova trazida por Jesus ia ferir de morte as ideias dominantes e ameaçar  a  estabilidade  das instituições políticas e religiosas, modificando o  status-quo, e  suscitar em torno de si mil obstáculos, mil perigos. Daí, um novo motivo para ocultar no mito, no milagre, na parábola, o que em Sua Doutrina pudesse provocar anátemas. As obscuridades do Evangelho são, pois, calculadas, intencionais… As verdades superiores nele se ocultam sob véus simbólicos. Aí se ensina ao homem o que lhe é necessário para se conduzir moralmente na prática da vida; mas o sentido profundo, o sentido filosófico da Doutrina, esse é reservado à minoria. As parábolas, ademais, fazem   parte   da didática oriental.  Assim, o sentido geral era acessível a todos, porém, em certos assuntos especiais só os  iniciados  conseguiam penetrar.   Esse duplo método de ensino  é  praticamente adotado em todas as outras escolas.  Graças às parábolas, a essência dos ensinamentos de Jesus não pereceu ante o buril dos copistas e dos  diversos tradutores, bem como escapou da sanha dos ecônomos infiéis…

Ao Espiritismo, compete – agora – quebrar a casca protetora para que o cerne seja o maná dos Céus para a Humanidade. Daí as apropriadas e sábias palavras  de  João[4]:  Meus  bem-amados,  são  chegados   os tempos   em  que  explicados,  os  erros  se  tornarão   verdades.  Ensinar-vos-emos o sentido oculto das parábolas e vos mostraremos a  forte correlação que existe entre o que foi e o que é. Digo-vos  em  verdade: a manifestação espírita avulta no horizonte,(…) e, com Kardec, podemos acrescentar restabelece  todas as coisas no seu verdadeiro  sentido,  a fim de dissipar  as  trevas,  confundir os orgulhosos  e  glorificar  os justos.

Segundo Amélia Rodrigues repensar Jesus Cristo e Sua mensagem, nos turbulentos dias atuais, torna-se uma necessidade impostergável, pois a momentânea perda dos valores éticos, habilmente confundidos com as propostas das filosofias utilitaristas e cínica, deixa o ser humano sem discernimento lúcido para agir corretamente.

Tudo isso ocorre, sem dúvida, por esquecimento de Jesus e dos Seus ensinamentos simples e nobres, profundos e sábios, ainda não incorporados ao dia a dia das existências que se dizem a Ele vinculadas.  Hoje, mais do que nunca, Jesus está presente na sociedade, socorrendo-a e aguardando ser recebido e compreendido, e para tal, Seus emissários espirituais procuram despertar as consciências adormecidas para o grande encontro, no qual a Terra ascenderá na direção dos Céus através das ações do bem e do bom, em verdadeiros hinos de imortal beleza.

Ninguém pode alegar ignorância acerca dos Divinos Postulados, vez que, de um modo ou de outro, o acesso a essas informações luminosas existe sempre.

As notícias do Cristo chegaram antes dEle próprio, vez que o Batista já O anunciava dizendo que não era digno de atar-lhe os cordões da sandália. A mensagem do Cristo chegou para o Mancebo de Qualidade, mas ele era prisioneiro voluntário dos valores argentários e a oportunidade se perdeu.

A mensagem do Cristo chegou para aquele homem cuja preocupação em enterrar o pai impediu que saísse para propagá-la, esquecendo-se de que a função de enterrar os mortos pertence aos mortos.

A mensagem do Cristo chegou para Marta que, num primeiro momento, estava aflita e afadigada com muitas coisas, quando apenas uma é importante: beneficiar-se do banquete que o Divino Amigo oferecia.

A mensagem do Cristo chegou para os convidados ao banquete de núpcias, mas todos estavam apenas preocupados com seus negócios e casas de campo e não deram maiores atenções ao convite.

A mensagem do Cristo chegou para os moradores de Siquém, nos altiplanos da Samaria, mas o preconceito abafou as sementes de luz que feneceram sem proveito para nenhum deles.

A mensagem do Cristo chegou até mesmo para os bárbaros gentios pelas abençoadas mãos de Paulo, com as quais Deus operava maravilhas, e não desconhecemos o quanto ele sofreu.

A mensagem do Cristo também chegou através de Paulo na soberba Grécia, mas não encontrou respaldo na Meca da intelectualidade que era Atenas.

A mensagem do Cristo chegou para os escribas e fariseus que se acumpliciaram com os chefes de Jerusalém e a casta sacerdotal para eliminá-lO.

A mensagem do Cristo chegou para Pilatos que não tinha descortino mental suficiente para conhecer a Verdade fazendo com que o Amigo Divino se quedasse mudo.

A mensagem do Cristo chegou para Herodes que ardia em febres por conhecê-lO e ficava em suspenso com Suas notícias, mas também não apresentava condição moral para aproveitar as alcandoradas verdades de que Ele se fazia mensageiro.

A mensagem do Cristo chegou para o povo de Gadara, mas O expulsaram com medo de Seu poder paranormal, ainda que testemunhassem a cura do louco que vivia no cemitério da cidade, aborrecidos que ficaram por verem dispersa e morta sua vara de porcos.

A mensagem do Cristo chegou, inclusive para Seus irmãos consanguíneos que O queriam prender, alegando que perdera o espírito.

A mensagem do Cristo chegou para o povo de Sua terra natal, mas a incredulidade impediu a germinação da boa semente, vez que o terreno das almas era sáfaro e agreste.

A  mensagem do Cristo chegou para Nicodemos que, apesar de ser mestre em Israel, não compreendia nem mesmo as coisas da Terra quanto mais as do Céu!

A mensagem do Cristo chegou para Judas de Kerioth que O traiu; chegou para Pedro que O negou e não se converteu de pronto; chegou para todos os demais discípulos que, à exceção do adolescente João, fugiram amedrontados quando o Amigo foi preso…

A mensagem do Cristo continua chegando às diversas seitas que se dizem cristãs, mas permanecem sem o Cristo… A mensagem do Cristo chega – atualmente – através da veneranda Doutrina dos Espíritos, desfraldando a bandeira da Fraternidade, da Caridade e do Conhecimento da Verdade e é vilipendiada por muitos que se dizem cristãos e negligenciada por outros tantos que se dizem espíritas…

Sem embargo, a mensagem do Cristo chegou para o coração amoroso de Maria que O ouviu enternecida; chegou para a outra Maria, a de Magdala, que tecendo um poema de amor e abnegação transformou-se em carta viva para os irmãos segregados por insidiosa doença.

Chegou para o meigo poverelo, na Úmbria, no século XIII, que se transformou na maior expressão de amor na Terra depois do Meigo Rabi. Chegou para Allan Kardec, o Missionário escolhido para fazer cumprir a Sua promessa acerca do outro Consolador.

Chegou para os corações amorosos e compassivos de Madre Tereza de Calcutá, de Irmã Dulce, de Francisco Cândido Xavier, de Divaldo Franco e  reverteu em bênçãos para toda a Humanidade, em expansões de amor incondicional aos filhos do calvário…

Tão altissonantes são essas mensagens que, passados dois mil anos, constituem e sempre constituirão o roteiro luminoso da emancipação espiritual, o marco maior da misericórdia do Pai para com a Humanidade…

Os tempos são chegados. Urge não malbaratar a oportunidade de ascensão espiritual.

 

Bibliografia:

1 – DENIS, Léon. Cristianismo e Espiritismo.  7. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1978. cap. III.

2 – BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 7, vers. 6.

3 – __________. I Jo. Op. cit. cap. 2, vers. 20 e 21.

4 – KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 118. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2001. cap. 8, item 18.

 

Assine a versão impressa
Leia também