Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2020 Número 1634 Ano 88

Pai nosso que estás nos céus: um convite à transcendência

agosto/2020 - Por Cristiane Lenzi Beira

(…) em todos os reinos da Natureza palpita a vibração
de Deus, como o Verbo Divino da Criação Infinita (…)
Emmanuel1

Jesus veio inaugurar uma Nova Era, oferecendo à Humanidade nova compreensão a respeito de temas fundamentais para o desenvolvimento espiritual, como a ampliação do conceito do amor, estendendo-o sem limites a si mesmo, ao próximo, à natureza e a Deus.

Mas existe outra impactante mudança trazida pelo Mestre de Nazaré, que merece ser considerada: a forma como devemos nos relacionar com Deus. Jesus nos convida a uma conexão mais afetiva, íntima e familiar, como filhos se relacionando com Seu Pai, ao invés de indivíduos que buscavam satisfazer as vontades de um Deus julgador, a fim de não serem punidos pela Sua ira, como a Humanidade havia compreendido o Criador antes de Jesus.

O caminho para essa renovação do entendimento e das vivências com Deus, Jesus demonstrou a partir do próprio exemplo, constantemente afirmando Sua intimidade com o Pai:

  • Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis que EU SOU, e que nada faço por mim mesmo; mas isto falo como meu Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo. O Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada.2
  • Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas.3
  • Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras.4
  • Saí do Pai, e vim ao mundo; outra vez deixo o mundo, e vou para o Pai.5

E Jesus, interessado em nos colocar a caminho de uma relação de unidade com o Criador, ensinou-nos uma oração, como convite à experiência mais próxima e íntima com nosso Pai Celestial. A oração do Pai Nosso, em verdade, é um intenso processo de transformação íntima, se compreendido e experimentado como o Mestre de Nazaré fazia. É um caminho para Deus, que nos leva a transcender os limites da matéria e da consciência limitada à vida na Terra.

Antes de nos apresentar, no entanto, o modelo de diálogo com Deus, que nos levaria à conexão com o Criador, Jesus nos alertou com relação a alguns pontos importantes e preparatórios ao ato de orar: não sejais como os hipócritas, que buscam a união com Deus somente em aparência;  entrai no vosso aposento, no sentido de buscarmos o silêncio de fora para acionarmos nossos mecanismos e instrumentos psíquicos e emocionais e, por fim, não useis de vãs repetições, demonstrando-nos que o valor da conexão não se dá por meio de fartos palavreados sofisticados.6

A oração do Pai Nosso é como uma jornada para a tomada de consciência a respeito de todos os importantes aspectos da vida na Terra, dividida em três etapas:

1ª etapa: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome.7

É um convite ao reconhecimento da grandeza e da superioridade divinas. Mas esse reconhecimento não deve se manter somente no âmbito cognitivo ou intelectual, mas buscado em termos de sentimentos que nos tocam a alma, em nossa mais profunda intimidade, identificando a existência de nossa origem sagrada, a centelha divina. Não é uma questão de saber o quanto Deus é grande e perfeito, mas de sentir Sua superioridade em nós

2ª etapa: Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.8

Após a preparação para a conexão com Deus, sentindo o sagrado em nós, Jesus nos conduz à constatação de que vivemos na Terra, mas devemos nos manter conscientes de que somos do céu. Dessa forma, rogamos a Deus que nos ajude a trilhar nosso caminho pelo plano material segundo os valores do plano espiritual, ou seja, priorizando os valores do Espírito sobre os do corpo e, em outras palavras, conscientes de direcionar o ego a serviço do Self.

3ª etapa:  O pão nosso de cada dia nos dá hoje; E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre.9

Na última parte de nosso diálogo com Deus, depois de estabelecermos uma ligação com Ele muito profunda, de alma, e também após tomarmos consciência de que estamos na Terra, mas com propósitos espirituais, vivendo, portanto, de acordo com os interesses do Espírito, Jesus nos auxilia a reconhecer nossas imperfeições, a fim de estarmos alertas e não sermos arrastados pelos atavismos e automatismos do passado.

Pedimos, então, que Deus nos auxilie a viver cada dia na medida correta e equilibrada; a cuidarmos de nossos relacionamentos sendo empáticos, perdoando e sendo perdoados e, finalmente, solicitando um reforço à nossa moralidade, para que o homem velho não nos domine, ou seja, para que não venhamos a viver segundo nossos conflitos e paixões, mas renovados e transformados.

E assim Jesus nos presenteia com um verdadeiro tratado terapêutico e seguro que, caso seja vivenciado como Ele o fazia, permite-nos uma jornada terrena mais certa e com menores riscos de esquecermos nosso principal objetivo na Terra, que é o de evoluir em direção à perfeição espiritual.

Sem dúvida, as experiências com o divino devem acontecer de forma transcendente, ou seja, uma vez que nos falta grau de evolução suficiente para termos maior compreensão a respeito da natureza de Deus, devemos nos dedicar a uma relação com Nosso Pai Criador na forma de experiência íntima, que dispensa a participação da razão e do entendimento cognitivo mas que nos oferece, no entanto, vivências muito mais profundas e transformadoras.

Por isso, Jesus nos deixou tantos exemplos de como era Sua conexão íntima e transcendente com o Pai, para que igualmente nós pudéssemos investir nessa relação transformadora.

 

Referências:

1 XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1986. pt. 1, perg. 28.

2 BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 8, vers. 28-29.

3 Op. cit. cap. 10, vers. 15.

4 Op. cit. cap. 14, vers 10-11.

5 Op. cit. cap. 16, vers. 28.

6 Op. cit. Mateus. cap. 6, vers. 5-7.

7 Op. cit. cap. 6, vers.  9.

8 Op. cit. cap. 6, vers. 10.

9 Op. cit. cap. 6, vers. 11-13.

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