Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87

Ouvindo pela primeira vez

junho/2013 - Por Andrey Cechelero

Qual a sensação de ouvir um som pela primeira vez, após vinte ou trinta anos sem ouvir nada?

Qual a sensação de escutar a voz da própria mãe para um bebezinho, deficiente auditivo, com alguns meses de idade?

A ciência dos dias de hoje tem conseguido dar esse presente a muitas pessoas, através de seus avanços cada vez mais fabulosos.

Os chamados Implantes cocleares possibilitam sensações auditivas muito próximas às fisiológicas e cada vez mais se multiplicam pelo mundo, proporcionando a muitos a possibilidade de ouvir pela primeira vez, nesta vida.

O implante coclear é um dispositivo eletrônico de alta tecnologia, também conhecido como ouvido biônico, que estimula eletricamente as fibras nervosas remanescentes, permitindo a transmissão de sinal elétrico para o nervo auditivo, a fim de ser decodificado pelo córtex cerebral.

Os primeiros testes, após a interferência cirúrgica, são feitos através de computadores e aparelhos específicos, que buscam regular, entre diversos fatores, o volume e sensibilidade do dispositivo no paciente implantado.

O interessante é que muitos pacientes e seus parentes têm registrado em vídeo esses testes iniciais, mostrando as reações das pessoas ao ouvirem um som qualquer pela primeira vez.

As expressões são emocionantes.

O sorriso e a reação dos bebês é dos quadros mais belos que se possa imaginar, quando ouvem a doce voz de suas mãezinhas como o primeiro som registrado nesta vida.

O brilho nos olhos e o choro compulsivo dos jovens e adultos é  indescritível e inesquecível. São imagens e relatos que purificam os ares digitais, ainda tão poluídos com muito lixo e muita inutilidade.

Só aquelas pessoas sabem realmente o que é sair do silêncio, o que é deixar as limitações de um mundo – ainda pouco preparado para entendê-los e aceitá-los – e encontrar uma nova realidade, a realidade dos sons, da música, da voz, do ouvir.

Muitas adaptações e novos aprendizados precisam ser feitos. Para muitos significa ter que aprender a falar também, pois  essa função estava subdesenvolvida pelo fato de não poderem contar com a audição. Precisam conhecer o som de sua própria voz, aceitá-la e desenvolvê-la, nos próximos meses e anos.

É como que um despertar para uma realidade nova – como encontramos no relato de um desses muitos abençoados com tal conquista tecnológica. É ganhar um novo sentido, com o qual nunca se pôde contar antes.

Abre-se um novo horizonte de possibilidades e de belezas sem fim.

*    *    *

Quando deixamos o silêncio da vida materialista e, finalmente, encontramos os sons da vida espiritual, dá-se conosco algo maravilhoso também.

Quando o ser se descobre imortal, quando entende e sente, finalmente, que sua parte Espírito nunca perecerá, descortina-se uma nova realidade de possibilidades e belezas infinitas.

Os valores mudam. Tudo que consideramos importante é reavaliado. Refletimos sobre nossos objetivos aqui, sobre quem somos e se não podemos e devemos ser  mais.

Entender a vida do Espírito e a relação que temos, incessante e pulsante, com o mundo espiritual, é como sair de um silêncio milenar e começar a ouvir.

Ouvimos e entendemos as Leis de Deus e Sua imensa amorosidade.

Ouvimos a reencarnação e as novas chances e explicações, que só ela consegue fornecer.

Ouvimos os sons da natureza de forma mais simples, mais sensível, encontrando belezas que sempre estiveram ao nosso lado, mas que antes éramos incapazes de perceber.

Ouvimos a voz dos amados que já se foram e dos que ainda chegarão.

Ouvimos as melodias elaboradas e profundas do amor, como nunca antes fomos capazes de ouvir.

Ouvimos a voz de nosso próximo de forma diferente, não mais como uma ameaça ou mesmo um estranho, mas agora como um irmão, trilhando o mesmo caminho, a mesma jornada.

Ouvimos nossa própria voz, aceitando-a como é num primeiro instante, buscando o autoconhecimento – chave para o progresso moral do Espírito – para só então poder burilar a fala, embelezando nosso timbre através de inúmeras experiências no bem.

Ganhamos um novo sentido quando nos aceitamos e nos entendemos como Espíritos.

Sentido de sentir algo a mais – antes não percebido. Sentido de objetivo, de motivação, de força para prosseguir em meio aos desafios constantes da encarnação necessária e bendita.

Convidamos você a fazer esse exercício saudável: assista um desses vídeos, entregando-se à emoção daquelas pessoas. Imaginando um pouco como se sentem. Depois, faça essa reflexão de como seria ouvir pela primeira vez a voz da vida verdadeira, da vida do Espírito imortal.

Nada será igual, assim como não foi para cada uma daquelas pessoas, tenha certeza.

Seu sorriso não será o mesmo.

Suas lágrimas não serão as mesmas.

Haverá um sentido a mais em tudo.

Você estará ouvindo pela primeira vez…

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