Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2018 Número 1613 Ano 86

Outras observações

outubro/2018 - Por Antônio Moris Cury

No artigo intitulado O ser humano de Bem, publicado no Jornal Mundo Espírita de julho de 2018, destacou-se que a ligeira análise contemplava apenas o primeiro parágrafo do capítulo XVII (Sede perfeitos), item três, de O Evangelho segundo o Espiritismo, uma das obras básicas da veneranda Doutrina Espírita. Tal indicação foi feita porque todo o item três, denominado de O homem de bem, contém observações e ensinamentos de extraordinário valor que, por si, recomendam a sua leitura integral e com a maior atenção, a fim de obter-se o melhor aproveitamento.

Por exemplo, os próximos e seguintes três parágrafos, bem curtos, têm a seguinte redação:

Deposita fé em Deus, na sua bondade, na sua justiça e na sua sabedoria. Sabe que sem a sua permissão nada acontece e se lhe submete à vontade em todas as coisas.

Tem fé no futuro, razão por que coloca os bens espirituais acima dos bens temporais.

Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções são provas ou expiações e as aceita sem murmurar.

Com efeito, quem verdadeiramente deposita fé em Deus, na Sua bondade, na Sua justiça e na Sua sabedoria, já está trilhando o caminho da evolução, intelectual e moral, em nível consideravelmente elevado, porquanto já sabe, ou, melhor, tem certeza de que Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.1

Como decorrência, sabe que estão presentes a justiça, a bondade e a sabedoria, porque as Leis Naturais ou Divinas, que se aplicam a todos, não contemplam exceções ou privilégios de qualquer ordem, são perfeitas e imutáveis, de tal modo que a confiança é total. A justiça prevalecerá, como aponta a sua consciência, onde estão escritas as Leis de Deus. Não por acaso, a consciência é o grande tribunal de cada um de nós. A bondade decorre da certeza de que sempre haverá a possibilidade de reparação dos erros, males e equívocos cometidos, nesta ou em outra existência, uma vez que nosso Pai Universal concederá oportunidades quantas sejam necessárias para atingir tais objetivos, de tal forma que se pode deduzir que a palavra irreparável não existe nas Leis Naturais. Nada é irreparável, por mais graves sejam os erros, males e equívocos perpetrados. E a sabedoria está embutida neste contexto, pois se há justiça, se há bondade, há especial e inerentemente muita sabedoria neste modo de proceder.

Por outra parte, tem fé no futuro porque coloca os bens espirituais acima dos bens temporais, uma vez que tem ciência de que é apenas o usufrutuário dos bens materiais que lhe foram confiados, cabendo-lhe bem administrá-los, de modo a oferecer conforto e bem-estar a si e a seus familiares, assim como também, sendo possível se eles forem suficientes, empregá-los para ofertar emprego e renda a terceiros, a dar-lhes destinação que contribua para os estudos e a obtenção do conhecimento por outras pessoas, favorecendo-as etc. Sabe, igualmente, que os bens da Terra na Terra ficarão – e por esta razão são denominados de bens temporais. Com isso, coloca os bens espirituais acima dos temporais, pois sabe que os bens espirituais que conquistou (e que ainda poderá conquistar) lhe pertencem e o acompanharão para sempre, nesta ou nas próximas reencarnações, de que são somente alguns exemplos o conhecimento consolidado das ciências, das artes, das filosofias, das letras, da compaixão, da benevolência, da indulgência, da humildade, da bondade, da honestidade e do amor, sobretudo do amor, por ser o amor a Lei maior da Vida. Fica assim subentendido de que tem plena certeza de que é um Espírito imortal, indestrutível, que viverá para sempre, porquanto a sua desencarnação implicará na morte de seu corpo físico apenas, jamais do Espírito, que sai do corpo material, mas não sai da Vida, daí a sua integral fé no futuro.

Por outro lado, sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções são provas ou expiações e as aceita sem murmurar, o que claramente revela que tem ciência e consciência de que vive na Terra, um planeta de provas e de expiações, de categoria inferior no Universo, onde ainda prevalecem o mal e a imperfeição.

Por esta razão, sabe que as dores, as decepções, as vicissitudes em geral fazem parte de quem aqui se encontra nesta existência (por sinal, comuns a todos nós), uma vez que somos imperfeitos e aqui nos encontramos para aprender, a começar pelo aprendizado da fraternidade, e progredir sempre, na busca da perfeição relativa e da felicidade suprema. São provas e/ou expiações que merece (a Justiça Natural não erra) e sabe que devem ser suportadas, preferencialmente, superadas, sem murmurar, sem lamuriar, sem reclamação. Aliás, não é preciso muito esforço para concluir que de nada adianta reclamar, simplesmente porque a reclamação não soluciona problema algum, nada resolve. A propósito, como alertava o Espírito André Luiz em 1948 (há setenta anos), através da psicografia de Francisco Cândido Xavier: As suas reclamações, ainda mesmo afetivas, jamais acrescentarão nos outros um só grama de simpatia por você.2 Vale muito a pena repetir para enfatizar: As reclamações (as lamúrias, os murmúrios) não resolvem nada e, de quebra, sequer geram um só grama de simpatia em favor de quem as profere.

 

Referências:

1.KARDEC, Allan. De Deus. O livro dos Espíritos. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. pt. 1, cap. 1, perg. 1.

2.XAVIER, Francisco Cândido. Não estrague o seu dia. Agenda cristã. Pelo Espírito André Luiz. 13. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1974. cap. 38.

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