Jornal Mundo Espírita

Junho de 2019 Número 1619 Ano 87

Os valorosos e quase esquecidos mártires de Lyon

outubro/2016 - Por Enrique Eliseo Baldovino

– Ave, Cristo! os que vão viver para sempre te glorificam e saúdam!…

3ª Parte

Nesta terceira parte, elencamos a nômina completa dos mártires de Lyon e de Vienne, seus martirológios, introduzindo antes os mártires citados por Emmanuel em Ave, Cristo!, também pouco conhecidos, sendo este um dos objetivos precípuos do nosso artigo: a homenagem e a divulgação desses homens e mulheres silenciosos, que construíram as bases do Cristianismo com seu próprio testemunho, espelhados no exemplo sublime do Mestre Jesus.

Calma, coragem, fidelidade e amor

Os nomes desses mártires cristãos são proferidos por Lucano Vestino, ante a visão espiritual que ele mesmo descreve diante da pequena assembleia, registrando, como médium vidente, a presença de Espíritos venerandos do Cristianismo redivivo e dos seus continuadores: 3

– Não se turbe o nosso coração!… os que se amam, em Cristo, moram acima da separação e da morte…

Nesse instante, porém, Vestino ergueu a fisionomia serena, inundada por traços de uma ventura ignorada na Terra, e continuou a falar:

– Nosso recinto permanece gloriosamente visitado pelos mártires que nos antecederam…

E, com a voz quase embargada pelo pranto, nascido da alegria em que se lhe desabotava o coração, prosseguiu:

– Ofuscam-me o olhar com a bendita luz de que se vestem! À frente, entrou Ireneu, o nosso pastor inesquecível, trazendo nas mãos um rolo resplendente… Depois dele, outros amigos espirituais, glorificados no Reino, penetraram nossa porta, com sorrisos de amor!… Vejo-os a todos… Conheço-os, de minha primeira mocidade! São velhos companheiros nossos, trucidados ao tempo dos imperadores Séptimo Severo e Caracala!…

Aqui se encontram Ferréolo e Ferrúcio, com radiantes auréolas, a começarem da boca, lembrando o suplício da língua que lhes foi violentamente arrancada!… Andeolo, o valoroso subdiácono, traz sobre a fronte um diadema formado de quatro estrelas, recordando a flagelação da cabeça, partida em quatro partes pelos soldados… Félix, a quem subtraíram o coração vivo do peito, traz no tórax um astro irradiante! Valentiniana e Dinócrata, as virgens que suportaram pavorosos insultos dos legionários, envergam peplos alvinitentes!… Lourenço, Aurélio e Sofrônio, três rapazes com os quais brinquei em minha infância e que foram varados por espadas de pau, são portadores de palmas liriais!… Outros chegam e nos saúdam, vitoriosos… Ireneu aproxima-se de mim e destaca um dos fragmentos do rolo de luz… Recomenda-me a leitura em voz alta!.. [Destaques nossos.]

Finalmente, voltemos a Paulo de Tarso, a quem Erasto tanto amou e ajudou, e de quem tomou o salutar costume de escrever Epístolas, agora para os espíritas. O Apóstolo dos Gentios é citado pelo próprio Espírito Emmanuel, que, no ápice do livro mencionado, registra com a sua habitual emoção e mestria:

Vestino faz breve pausa e exclama, admirado:

– Ah! é a segunda epístola do apóstolo Paulo aos coríntios!

Com voz entrecortada pela emoção, passou a ler:

– “Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus em nosso corpo, para que a sua gloriosa vida se manifeste igualmente em nós…”[II Cor. 4:8 a 10]

Em seguida, a curto intervalo, anunciou:

– Comunica-nos o amado orientador que a nossa hora de testemunho está próxima. Pede-nos calma, coragem, fidelidade e amor… Nenhum de nós será lançado ao abandono… Alguns terão a morte adiada, mas todos conheceremos o cálice do sacrifício…

Após ligeira pausa, notificou que os visitantes cantavam um hino de graças, em louvor ao Mestre Amantíssimo.4 [Destaques nossos.]

Relação dos 50 mártires de Lyon e de Vienne

Com referência aos mártires lioneses, e a vários outros – alguns dos quais estão inscritos na hagiografia cristã –, podemos citar os que seguem, nomes que destacamos com letra negrita, reforçando igualmente àqueles que já foram mencionados, colocando (entre parêntesis) outras alcunhas nacionais ou estrangeiras pelas quais são conhecidos (ou seus nomes originais latinos).

Damos, juntamente com alguns dados biográficos e históricos, a relação dos 50 mártires de Lyon e de Vienne5, por ordem alfabética, a fim de serem melhor localizados (apesar dos mártires serem mais, estes são os mais citados, aos quais deveremos somar os referidos acima pelo Espírito Emmanuel):

1) Albina (Albine), mártir decapitada em Lyon; 2) Alcibíades ( Alcibíade), mártir decapitado; 2) Alexandre (Alexander), médico da Frígia, crucificado em Lyon; 4) Alomnia, mártir da plêiade lionesa; 5) Antônia ( Antonie), martirizada na prisão; 6) Apolonius (Apolônio, Apollon ou Apolonio), martirizado na prisão; 7) Arisceus (Arisceo, Aréscio ou Aristeu), martirizado na prisão; 8) Átalo (Attalo, Attale ou Atalo), originário de Pérgamo, martirizado na arena; 9) Ausônia (Ausone, Auzonia ou Ausona), martirizada na prisão; 10) Bíblida (Biblis ou Biblides) que, por medo das torturas, primeiramente renegou sua condição de cristã, mas depois, caindo em si, recompôs-se e aceitou de novo a sua fé, sendo decapitada; 11) Blandina (ou Blandine), a frágil escrava que, apesar da fraqueza do seu corpo, dilacerado e aberto em feridas, resistiu de forma valorosa às torturas realizadas pelos soldados e verdugos que a golpeavam, os quais ficaram extenuados pela resistência prolongada e pela sua coragem, virtudes com as quais ela enfrentou o martírio até a sua morte na arena; 12) Cominus (Comino ou Comminus), decapitado; 13) Cornelius (ou Cornélio), martirizado na prisão; 14) Domna, martirizada na prisão; 15) Elpa (Elpis, Helpes ou Helpis), decapitada; 16) Emília (ou Émilie), martirizada na prisão; 17) Epipódio (Épipode, Episode ou Epípodo), decapitado; 18) Filumino (Filomeno, Philuminus ou Filumnio), decapitado; 19) Germiniano (Geminianus, Geminien ou Geminiano), martirizado na prisão; 20) Germino (Gémino, Geminus ou Gemino), decapitado; 21) Grata, mártir da falange lionesa; 22) Irineu (Irénée ou Ireneo), o valente bispo lionês (Ásia Menor, c. 130 – Lyon, 202), torturado e martirizado de modo cruel no ano 202, durante uma nova matança de cristãos em Lyon e arredores, agora sob o imperador Séptimo Severo (193-211). Irineu foi aprendiz do abnegado cristão Policarpo (Esmirna, c. 69 – Idem, 155), sacerdote que, ao seu turno, fora discípulo do Apóstolo João Evangelista, que parece ser o Guia espiritual João, referido pelo Espírito Erasto na Revista Espírita de outubro de 1861; 23) Jâmnica (Iamnica ou Jamnique), martirizada na prisão; 24) Josino (ou Iosinus); 25) Júlia (Julie ou Iulia), martirizada na prisão; 26) Júlio (ou Iulius), decapitado; 27) Justa (Iusta ou Juste), martirizada na prisão; 28) Macário (Macaire ou Macarius), decapitado; 29) Materna (ou Materne), decapitada; 30) Maturus (ou Maturo), o recém convertido, martirizado na arena; 31) Octuber (Octobre ou Octubre), decapitado; 32) Pompéia (Pompée ou Pompeya), decapitada; 33) Pôntico (ou Ponticus), jovem de 15 anos, martirizado na arena; 34) Pontimiana (Potamia ou Postumiana), decapitada; 35) Potino (Photin, Fotino ou Photino), considerado o primeiro bispo de Lyon, cruelmente ultrajado e golpeado na rua, no ano 177, morrendo algumas horas depois, martirizado na prisão, aos 90 anos – nasceu antes do ano 87 e foi um dos primeiros membros daquela comunidade –, enfrentando o martírio com grande valor, apesar da sua fraqueza corporal; Irineu sucedeu-o, primeiramente como presbítero e depois como bispo de Lyon, de 189 até sua morte em 202; 36) Primus (ou Primo), decapitado; 37) Quárcia (Quartia, Quarta ou Cuarra), decapitada; 38) Ródana (Rhodana ou Rodana), decapitada; 39) Rogácia (ou Rogata), decapitada; 40) Séptimo, mártir da falange de Lyon; 41) Sanctus (Santos ou Santo), diácono de Vienne, martirizado na arena; 42) Sílvio (ou Silvius), decapitado; 43) Titus (Tite ou Tito), martirizado na prisão; 44) Trófima (Trophime ou Trophima), martirizada na prisão; 45) Úlvio (Ulpius ou Ulpio), decapitado; 46) Vétio Epágato (ou Vécio Epágato), advogado dos cristãos perseguidos; 47) Vidal (Vitalis ou Vital), decapitado; 48) Zacarias, o presbítero; 49) Zórico (Zoticus, Zotique ou Zótico), martirizado na prisão; 50) Zósimo (ou Zosime), martirizado na prisão.

Carta dos cristãos de Vienne e de Lyon às Igrejas da Ásia e da Frígia (e outras fontes)

Vários detalhes do martirológio cristão e dos diversos nomes dos mártires lioneses encontram-se no célebre livro do historiador e Pai da Igreja, Eusébio de Cesareia, intitulado História Eclesiástica,6 obra que conservou para a posteridade a histórica Carta dos cristãos de Vienne e de Lyon às Igrejas da Ásia e da Frígia, documento importantíssimo escrito pelos sobreviventes da matança lionesa.

Em Personagens da Boa Nova,7 lemos que Toda classe de recursos foi utilizada contra os seguidores de Jesus, elencando as terríveis calúnias espalhadas entre o povo, os soldados e tribunos, incitando-os contra os cristãos perseguidos:

Sua presença passou a não ser tolerada em parte alguma, nem nos banhos, nem no Foro, nem no Mercado. Contra eles se levantaram acusações de que cometiam infanticídios; que se banqueteavam com carne humana, enfim, que praticavam incestos e toda sorte de crimes.

Outra bibliografia sobre o assunto em pauta, que tem fontes escassas, é O Livro dos Mártires8, que relata as várias perseguições aos cristãos durante os três primeiros séculos da Era Cristã, ressaltando que muitos de nós somos cristãos graças ao valor, à devoção e ao sacrifício desses cristãos primitivos, apesar do poder tirânico e invejoso que imperava no tempo da igreja primitiva.

Relembramos os dizeres históricos do Espírito Erasto, ao citar a São Euquério (Eucher, em francês), teólogo e bispo de Lyon (370-449), e a São Gregório de Tours (c. 538-594), historiador da Igreja, dos francos, da Auvérnia – região do Sul da França – e bispo de Tours, que também listou os mártires de Lyon e de Vienne para a posteridade:

(…) Também vos lembraríeis de que vários dos que me ouvem regaram com seu sangue a terra lionesa, esta terra fecunda que Eucher e Gregório de Tours chamaram a pátria dos mártires. (…)9

Além da mencionada obra Ave, Cristo!, o notável volume Cartas e Crônicas10 (que em 2016 cumpre 50 anos do seu lançamento)  registra as tristes consequências da matança lionesa do ano 177, relatando a Tragédia no circo, crônica que faz referência a vários responsáveis pelo martírio dos cristãos de Lyon, que, através da reencarnação, resgataram em dolorosa expiação, no incêndio de um circo em 17.12.1961, em Niterói/RJ, no qual foram calcinados pelo fogo devorador, na terrível tragédia que comoveu o Brasil e o mundo.

Allan Kardec e a reencarnação do mártir Jan Huss

Não poderíamos deixar de citar, entre os mártires lioneses, ao próprio Codificador do Espiritismo, Allan Kardec (1804-1869), nascido em LyonCidade dos mártires –, que foi um glorioso mártir cristão no século XV, queimado vivo na sua reencarnação como Jan Huss (1369-1415), em holocausto pela Verdade e pelo amor ao Cristo.

No ano de 2015, cumpriram-se 600 anos da desencarnação desse reformador tcheco.

Portanto, a presença física e moral de Allan Kardec em Lyon, em 1861, por ocasião da segunda Viagem Espírita do Codificador à sua terra natal, é realmente muito significativa, fato que voltaria a repetir-se na terceira e mais extensa Viagem Espírita em 1862, quando, além de Lyon, visitaria cerca de vinte localidades em roteiro de difusão espírita, participando em mais de cinquenta reuniões doutrinárias e percorrendo 693 léguas (3.862km, aproximadamente), durante sete semanas de viagem, em parcos e precários transportes da época, levando a Doutrina nascente ao interior da França e, posteriormente, ao Exterior (1864).

Vivência íntima dos ensinos cristãos-espíritas

Atualmente, nós, os cristãos-espíritas da última hora, não temos a necessidade de enfrentar o doloroso sacrifício físico diante das feras exteriores no circo, mas urge que enfrentemos o difícil desafio perante as feras da nossa alma, hoje conhecidas com os nomes de egoísmo, orgulho, vaidade,  intolerância, violência, inveja, que são graves defeitos geradores de intrigas, maledicências, infelicidades, desavenças, que devemos combater com as armas da caridade, da humildade, da modéstia, da não-violência, do autoconhecimento, da benevolência, da educação do ser integral, enfim, do amor em ação.

Por isso os bons Espíritos nos recomendam, nesta transição planetária em que vivemos, o cultivo diário da fé, da coragem, da calma, da fidelidade e do amor, magnas virtudes que fazem tanta falta nestes dias de perturbações e de variadas violências, internas e externas, onde também deveremos ter a máxima coragem de abraçar a própria cruz, como verdadeiros mártires do Bem.

Finalmente, ao lembrar-nos dos valorosos mártires de Lyon, tomados de grande emoção, repetimos a comovedora frase que os mártires cristãos proferiam nas arenas dos circos e nos anfiteatros romanos, antes de enfrentar as feras que destroçariam seus corpos, mas que nada podiam fazer com as suas elevadas e imortais almas:  

Ave, Cristo! os que vão viver para sempre te glorificam e saúdam!…

 

Referências:

1.MUNDO ESPÍRITA. Os valorosos e quase esquecidos mártires de Lyon. Artigo de Enrique Eliseo Baldovino. Primeira Parte. Curitiba: FEP, agosto 2016.

2. ________. Os valorosos e quase esquecidos mártires de Lyon. Segunda Parte. Curitiba: FEP, setembro 2016.

3. XAVIER, Francisco Cândido. Ave, Cristo! Pelo Espírito Emmanuel. Primeira Parte, cap. IV, p. 248-249, com nota de rodapé nº 13. Rio de Janeiro, FEB: 1983.

4. ________. Op. cit. Primeira Parte, p. 249, com nota de rodapé nº 14.

5. KARDEC, Allan. Revista Espírita: Periódico de Estudios Psicológicos (Año 1861). Tradução do francês para o espanhol de Enrique Eliseo Baldovino. Pesquisa sobre Erasto, discípulo de são Paulo. Nota do tradutor nº 413 de 1861, Ano IV (www.ceanet.com.ar). CEA – Confederación Espiritista Argentina (Buenos Aires) e FEE, Federación Espírita Española (Málaga, Espanha). Brasília: EDICEI-CEA-FEE, 2016.

6. CESAREA, Eusebio de. Historia eclesiástica. Texto, versão espanhola, introdução e notas de Argimiro Velasco-Delgado, OP. Madrid, Espanha. Biblioteca de Autores Cristãos – BAC Seleções: 2010.

7.  FEP. Personagens da Boa Nova. cap. 37 (Os mártires de Lyon), p. 275. Curitiba, FEP: 2016.

8. FOXE, John. O Livro dos Mártires. Preparado por W. Grinton Berry e traduzido por Almiro Pisetta. 3. ed., 10ª reimpresão (2013). cap. I, p. 27-33. São Paulo, MUNDO CRISTIANO: 2005.

9. KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Tradução de Júlio Abreu Filho. out. 1861, p. 319-324. São Paulo, EDICEL: 1950.

10. XAVIER, Francisco Cândido. Cartas e Crônicas. Pelo Espírito Irmão X. cap. 6, p. 29-33. Brasília, FEB: 1991.

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