Jornal Mundo Espírita

Maio de 2019 Número 1618 Ano 87

Os valorosos e quase esquecidos mártires de Lyon

setembro/2016 - Por Enrique Eliseo Baldovino

Ave, Cristo! os que vão viver para sempre te glorificam e saúdam!…

2ª Parte

Os mártires cristãos, em geral, deram as suas vidas em holocausto pela Verdade e por amor a Jesus, especialmente nos três primeiros séculos do Cristianismo, em várias cidades de diversos países.

Os mártires de Lyon e de Vienne, em particular, moravam na cidade e nos arredores de Lugdunum, capital da Gália Lugdunense, colônia romana à época, hoje França, capital situada na foz dos rios Saône e Ródano.

LYON (LUGDUNUM): A CIDADE DOS MÁRTIRES

Lugdunum era o antigo nome latino de Lyon, conhecida hoje como a Cidade dos Mártires, onde a maioria desses cristãos foi martirizada, principalmente no ano 177 da Era Cristã, quando foram flagelados e cruelmente perseguidos por professar e praticar a fé cristã, conforme as elucidações do Espírito Erasto (Jornal Mundo Espírita ).1

Além da referida Gália Lugdunense, existia a Gália Narbonense e a Gália Aquitânia, conhecidas como as célebres Três Gálias.

O extraordinário livro Ave, Cristo! descreve a grande importância da cidade de Lyon, no contexto histórico, geográfico, político e social:

Lião, pela sua admirável posição geográfica, desde a ocupação do procônsul Munácio Planco, tornara-se expressivo centro político administrativo do mundo gaulês. Para ela convergiam diversas estradas importantes, convertendo-se, por isso mesmo, em residência quase que obrigatória de numerosas personalidades representativas da nobreza romana.

Vipsânio Agripa, o genro de Otávio, fortalecera-lhe a situação privilegiada, ampliando-lhe as vias de comunicação. Áulicos da corte de Cláudio haviam construído nela magníficos palácios. As ciências e as artes, o comércio e a indústria aí floresciam com imensa vitalidade. Dentro de seus muros, reuniam-se, anualmente, junto do famoso altar de Roma e Augusto, as grandes assembleias do Concilium Galliarum, no qual cada cidade das três Gálias possuía o seu representante.2

DOLOROSOS TESTEMUNHOS DOS PRIMEIROS CRISTÃOS

Realmente, foram muitas as torturas e os suplícios sofridos por esses primeiros cristãos (também chamados cristãos primitivos), cujos testemunhos dolorosos foram registrados nos anais da História. Mas foram ainda maiores os testemunhos heroicos desses mártires ante toda espécie de arbitrariedades, ora dos governos ditatoriais, ora do próprio povo não cristão, suportando dores indescritíveis com muita dignidade e dando o exemplo cristão diante de injúrias, maus tratos, rapinas, acusações infundadas, assaltos, insultos, golpes, arrestos arbitrários, tormentos, execuções sumárias, calúnias, chicotadas, humilhações, lapidações, decapitações, etc. Também foram jogados às feras e expostos – ante milhares de pessoas – em anfiteatros, tribunais e arenas, ou acorrentados a cadeiras de ferro, onde seus corpos, ao calcinar-se, lançavam um forte cheiro de carne queimada. Foram crucificados, encarcerados, degolados, queimados vivos, torturados em calabouços infectos, tendo as mãos e os pés presos e o corpo esticado, morrendo muitos por asfixia dentro das prisões, onde também passaram sede e fome, sem maldizer aos seus verdugos, inclusive perdoando-os no instante da morte, a fim de viverem o verdadeiro Cristianismo e poder gritar livremente: Somos cristãos!

Apesar de todos esses testemunhos dolorosos, demonstravam seu imenso valor, sua grande devoção e coragem ao continuar lutando, orando e resistindo, sem renegar a fé em Jesus:

Os seguidores de Jesus, nas Gálias, não obstante todos os reveses da imensa luta, persistiram na fé, valorosos e invictos. Como os druidas, seus heroicos antepassados, procuraram as florestas para os seus cânticos de louvor a Deus. Depois do trabalho de cada dia, marchavam à noite, rumo ao campo amigo e silencioso, em cujas catedrais de arvoredo, sob o firmamento estrelado, oravam e comentavam as divinas revelações, como se respirassem, por antecipação, as alegrias do Reino Celeste.3 [Destaques nossos.]

 
AVE, CRISTO! REGISTRA AS PERSEGUIÇÕES DO ANO 177

Além da historiografia mundial, a literatura espírita registra esse grande sacrifício, feito por amor aos ensinos de Jesus, na vivência do elevado Ideal cristão exarado no Seu Evangelho. O Espírito Emmanuel4 relata um dos episódios mais comovedores, que lembra a visita espiritual de alguns dos mártires cristãos de Lyon, flagelados no ano de 177, no momento da morte do patriarca cristão Ápio Corvino, que se encontrava em agonia, após ter sido apunhalado por um inimigo do Cristianismo. Enquanto ele é amparado nos seus últimos instantes pelo protagonista da obra, Quinto Varro, tem a seguinte visão espiritual:

– Como é linda a nossa verdadeira pátria!…

E, voltando-se com brandura para o moço em lágrimas, concluiu:

– Eis a cidade de nosso Deus!…

Nesse instante, contudo, o corpo do patriarca foi sacudido por uma onda de vida nova. Seu olhar, que empalidecera, devagarinho, voltou a possuir estranho brilho, como que reanimado por milagrosa força.

Denunciando uma alegria desvairada, bradou:

– Abriu-se o grande caminho!… É Átalo que vem!… Ó meu Deus, como é sublime o carro de ouro!… Centenas de estrelas brilham!… Oh!… é Átalo e Maturo, Santo e AlexandreAlcibíades e PônticoPontimiana e Blandina8 [Neste ponto há uma nota original de rodapé, a 8ª, de autoria do Espírito Emmanuel: O agonizante recebia a visita espiritual de alguns dos mártires cristãos de Lião, flagelados no ano de 177. (Nota do Autor espiritual.)]

O ancião ensaiava o gesto de quem se dispunha a cair de joelhos, totalmente esquecido da presença de Varro e da precariedade da própria condição física.

– Oh!… Senhor! quanta bondade!… não mereço!… sou indigno!… – continuava dizendo, em voz arrastada.

O pranto escorria-lhe agora dos olhos inexplicavelmente revigorados, contudo Varro, cuidadosamente, reconduziu-o ao leito manchado de sangue. [Destaques nossos.]

Algumas páginas antes, a pena magistral do Espírito Emmanuel fizera referência às cruéis perseguições do ano 177, nomeando outros mártires de Lyon, que deram a vida em holocausto pela Verdade.

Eram realmente cristãos corajosos, agora reunidos em desconfortável choupana, a desmantelar-se na estrada de Óstia, compondo uma pequena assembleia de adeptos que havia se formado na sala simples, para escutar a Corvino, velho pregador de Lião (o Espírito Emmanuel registra em sua nota de rodapé nº 3: No tempo da dominação de Roma, nas Gálias, o nome da cidade de Lião era Lugdunum). Ápio Corvino, o pregador de Lugdunum,5 era também um grande cristão gaulês, que naquele momento se despedia dos cristãos de Roma, e do qual há a seguinte e valiosa informação histórica:

Na mocidade, foi contemporâneo de Átalo de Pérgamo, admirável herói entre os mártires gauleses. Corvino conta mais de setenta anos, mas, segundo as impressões gerais, é portador de um espírito juvenil.6 [Destaque nosso.]

Um pouco mais adiante, complementa o sábio Espírito Emmanuel, ao referir-se a Quinto Varro:

Com surpresa, foi informado de que as despedidas do grande cristão gaulês não se realizariam naquela noite e, sim, na seguinte.

Corvino achava-se, desse modo, à disposição dos amigos para um entendimento familiar.

Não havia, porém, outro assunto mais fascinante para o grupo que as reminiscências das perseguições de 177.

Os tormentos dos cristãos lioneses eram narrados minuciosamente pelo nobre visitante.

Enquanto o círculo ouvia, extático, o ancião das Gálias recordava, com prodigiosa memória, os mínimos acontecimentos. Repetia os interrogatórios efetuados, incluindo as respostas inspiradas dos mártires. Reportava-se às preces ardentes dos companheiros da Ásia e da Frígia que, piedosamente, haviam socorrido as comunidades de Lião e Viena (nota nº 4 de Emmanuel: Cidade da França, próxima de Lião). Falava, entusiasmado, da imensa caridade de Vétio Epágato, o abnegado senhor que renunciara à nobre posição que desfrutava, a fim de converter-se em advogado dos cristãos humildes. Inflamava-se-lhe o olhar, comentando a estranha coragem de Santo, o diácono de Viena, e o heroísmo da débil escrava Blandina, cuja fé confundira o ânimo dos carrascos. Pintou a alegria de Potino, o chefe da Igreja de Lião, cruelmente ultrajado e espancado na rua, sem uma palavra de revolta, aos noventa anos de idade.

Por fim, deteve-se com misteriosa alegria, aljofrada de lágrimas, nas aventuras e tormentos de Átalo de Pérgamo, que lhe fôra o iniciador da fé.

Relacionava todos os pormenores dos suplícios a que se submetera o venerável amigo. Lembrava-se da dilação havida no processo, em razão da consulta do Propretor a Marco Aurélio, e demorava-se na descrição dos últimos sofrimentos do grande cristão, esmurrado, chicoteado, atado à cadeira de ferro incandescido, e finalmente degolado, em companhia de Alexandre, o devotado médico frígio que, em Lião, oferecera ao Senhor admirável testemunho de fé. 7 [Destaques nossos.]

NOVAS PERSEGUIÇÕES NOS ANOS 202 E 217

O Autor espiritual continua registrando em Ave, Cristo! novas e cruéis perseguições aos cristãos primitivos, no ano 217, isto é, 40 anos depois dos terríveis assassinatos em massa de 177. Descreve o contexto político, histórico e social da referida época:

Ao tempo de Bassiano-Caracala, a quem servira de berço, Lião alcançara imenso esplendor.

O novo césar, por várias vezes, dispensara-lhe graças especiais.

A corte aí se reunia, frequentemente, em jogos e comemorações.

Contudo, apesar da proteção que o imperador concedia ao torrão pátrio, a cidade guardava, ainda em 217, dolorosas e vivas reminiscências da matança de 202, determinada por Séptimo Severo. Anos depois do triunfo sobre o General Décio Clódio Séptimo Albino, o eleito das legiões da Bretanha, morto em 197, instigado por seus conselheiros, o vencedor de Pescênio Níger promulgou um edito de perseguição. Autoridades inescrupulosas, depois de senhorearem o patrimônio de todos os cidadãos contrários à política dominante, realizaram tremenda carnificina de cristãos, dentro da cidade de Lião e nas localidades vizinhas.

Milhares de seguidores do Cristo haviam sido flagelados e conduzidos à morte.

Por vários dias perdurou a perseguição, com assassínios em massa.

Postes de martírio, espetáculos de feras, cruzes, machados, fogueiras, lapidações, chicotes e punhais, sem nos reportarmos às cenas de selvageria para com mulheres e crianças indefesas, foram postos em prática por tropas inconscientes.

Durante a matança, Ireneu, o grande bispo e orientador da coletividade evangélica da cidade, foi torturado, com todos os requintes da violência perversa, até ao último suspiro. Nascido na Ásia Menor, fora aprendiz de Policarpo, o abnegado e mui venerado sacerdote de Esmirna, que, por sua vez, havia recebido a fé por intermédio do apóstolo João, o evangelista.

 Ireneu dedicara-se a minuciosas observações da Escritura. Manejando o grego e o latim com grande mestria, escreveu expressivos trabalhos, refutando os adversários da Boa Nova, preservando as tradições apostólicas e orientando os diversos serviços da edificação cristã.8 [Destaques nossos.]

Emmanuel também faz alusão a outros mártires do Cristianismo primitivo, agora citados pelo cristão Lucano Vestino, antigo presbítero refugiado na sua singela residência, que era um casebre onde se reuniria uma assembleia de oração, na qual, por causa do medo e das terríveis perseguições, começaram a surgir, entre os prosélitos, manifestações de apostasia, isto é, de abandono, renegação e renúncia à fé cristã:

A reunião evangélica, no domicílio de Vestino, caracterizava-se por indefiníveis apreensões.

Apenas vinte companheiros participavam do culto.

Muitas famílias, aparentemente devotadas ao Evangelho, haviam fugido (…).

A igreja de Lião, tantas vezes amargamente provada, conhecia a extensão da violência romana.

Entre os prosélitos que não haviam desertado, começaram a surgir manifestações de apostasia.

Em razão disso, somente os espíritos bastante valorosos na fé animavam-se a enfrentar a nova perseguição que se esboçava, infalível.

Vestino, tomando a palavra, formulou sentida prece e leu, nos apontamentos sagrados, a excelsa recomendação do Senhor: – “Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim.” [Evangelho do Apóstolo João, 14:1. Nota de rodapé nº 12 do Autor espiritual.]

Meditando o versículo, ergueu a voz e comentou, inflamado de confiança:

– Meus amigos, acreditamos que a hora é das mais significativas para a nossa família espiritual.

Simpatizantes de nossa causa, funcionários do Governo, avisam-nos que a opressão romperá, cruel.

Nossa fé, tantas vezes selada com o sangue dos nossos antepassados, provavelmente nos reclamará o testemunho de sacrifício!

Olhemos para a vida de mais alto!

Quando o Mestre nos convidou à fortaleza, prevenia-nos quanto às atribulações que nos sitiariam no tempo.9 [Destaques nossos.]

 

Continua no próximo número…

 

Referências:

1. MUNDO ESPÍRITA. Os valorosos e quase esquecidos mártires de Lyon. Artigo de Enrique Eliseo Baldovino. Primeira Parte. Curitiba, FEP: agosto 2016.

2. XAVIER, Francisco Cândido. Ave, Cristo!Pelo Espírito Emmanuel. Primeira Parte, cap. III, p. 70. Rio de Janeiro, FEB: 1983.

 3. ______. Op. cit. Primeira Parte, cap. VI, p. 139.

4. ______. Op. cit.  Primeira Parte, cap. III, p. 65-66, com nota de rodapé nº 8.

5.  FEP. Personagens da Boa Nova. cap. 29 (O pregador de Lugdunum [Ápio Corvino], p. 227. Curitiba, FEP: 2010.

6.  XAVIER, Francisco Cândido. Ave, Cristo! Pelo Espírito Emmanuel. Primeira Parte, cap. II, p. 27-28, com nota de rodapé nº 3. Rio de Janeiro, FEB: 1983.

7. ______.Op cit. Primeira parte, cap. II, p. 31-32, com nota de rodapé nº 4.

8.______. Op.cit. Primeira parte, cap. III, p. 71-72.

9. ______Op. cit. Segunda Parte, cap. IV, p. 244-245, com nota de rodapé nº 12.

Assine a versão impressa
Leia também