Jornal Mundo Espírita

Julho de 2020 Número 1632 Ano 88

Os valorosos e quase esquecidos mártires de Lyon

agosto/2016 - Por Enrique Eliseo Baldovino

 Ave, Cristo! os que vão viver para sempre te glorificam e saúdam!…

1ª PARTE

Nas páginas históricas da Revista Espírita de outubro de 1861, artigo II, item e (Banquete oferecido ao Sr. Allan Kardec pelos vários Grupos de Espíritas lioneses, a 19 de setembro de 1861 – Epístola de Erasto aos espíritas lioneses, lida no banquete de 19.9.1861, p. 319),1 encontramos uma profunda mensagem do Espírito Erasto, dirigida a esses espiritistas, dentro do contexto da 2ª Viagem Espírita que Allan Kardec realizou a Lyon e região, a fim de divulgar e consolidar a Doutrina nascente.

A referida Epístola havia sido recebida em Paris, na Société Parisienne des Études Spirites (SPEE), antes do incansável Codificador encetar a sua viagem a Lyon, distante de Paris aproximadamente 450km. Portanto, percebamos a notável programação, disciplina e organização, tanto dos Espíritos comunicantes, dos médiuns da SPEE, como do preclaro mestre de Lyon.

Quem foi Erasto?

Segundo nossas pesquisas, registradas na nota do tradutor nº 413 da nossa versão da Revue Spirite de 1861, do francês para o espanhol,2 Erasto foi discípulo e colaborador de São Paulo, acompanhando-o a Éfeso (em torno do ano 54), cidade que se encontrava no roteiro da Terceira Viagem Missionária do Apóstolo dos Gentios, ajudando-o igualmente na Macedônia (Atos dos Apóstolos, 19:22).

Encontramos também breves dados e citações na 2ª Epístola de Paulo a Timóteo, 4:20 (Erasto em Corinto), escrita quando o Apóstolo encontra-se prisioneiro em Roma, e na Epístola de Paulo aos Romanos, 16:23 (Erasto como procurador ou tesoureiro da cidade de Corinto), conforme consta na saudação final.

Considerando, então, a estreita e antiga relação de Erasto com o Apóstolo Paulo de Tarso, desde 1.800 anos (contando de 1861, ano da próxima mensagem), é o próprio Espírito Erasto que se autoidentifica como sendo discípulo de São Paulo, conforme dizeres de sua autoria, registrados por Kardec na Revista Espírita acima citada:

[…] Hoje, caros discípulos, aquele que foi sagrado por São Paulo vem dizer-vos que vossa missão é sempre a mesma, porque o paganismo romano, sempre de pé, sempre vivaz, ainda enlaça o mundo, como a hera enlaça o carvalho;[ …]1

Na seara espiritista, Erasto é um dos Espíritos iniciadores do Espiritismo na França, conforme a citada Revista (p. 319), isto é, um dos valorosos Espíritos que compõem a plêiade da Codificação Kardequiana, qualificado expoente cujas mensagens doutrinárias são muito apreciadas, podendo ser encontradas facilmente em O Livro dos Médiuns, em O Evangelho segundo o Espiritismo e na Revista Espírita.

A plêiade ou falange lionesa

No primeiro e profundo parágrafo da mencionada Revista de setembro de 1861, o Espírito Erasto cita vários mártires de Lyon e também diversos Espíritos da plêiade lionesa, guias e protetores do Movimento Espírita lionês que, de maneira profícua, secundavam os esforços ingentes da SPEE (sediada na Capital), sendo Lyon (ou Lião), a sudeste da França, a segunda maior cidade francesa, à época.

Reproduzimos o parágrafo referido, riquíssimo em informações históricas e biográficas, principalmente visando o objeto de estudo do nosso artigo, que é a identificação de vários Mártires de Lyon e de Vienne, hoje quase esquecidos:

Não é sem a mais suave emoção que venho entreter-me convosco, caros espíritas do grupo lionês. Num meio como o vosso, onde todas as camadas se confundem, onde todas as condições sociais se dão as mãos, sinto-me cheio de ternura e de simpatia, e feliz por vos poder anunciar que nós todos, que somos os iniciadores do Espiritismo na França, assistiremos com muito viva alegria os vossos ágapes fraternos, aos quais fomos convidados por João e Irineu, vossos eminentes guias espirituais. Ah! Esses ágapes despertam em meu coração a lembrança daqueles em que todos nos reuníamos, há mil e oitocentos anos, quando combatíamos os costumes dissolutos do paganismo romano, e quando já comentávamos os ensinos e as parábolas do Filho do Homem, morto para a propagação da ideia santa, sobre o madeiro da infâmia. Meus amigos, se o Altíssimo, por efeito de sua infinita misericórdia, permitisse que a lembrança do passado pudesse brilhar um instante em vossa memória entorpecida, recordar-vos-íeis dessa época, ilustrada pelos santos mártires da plêiade lionesa: Sanctus, Alexandre, Attale, Episode, a doce e corajosa Blandine, Irineu o bispo audaz, de cujo cortejo muitos de vós então participáveis, aplaudindo seu heroísmo e cantando louvores ao Senhor. Também vos lembraríeis de que vários dos que me ouvem regaram com seu sangue a terra lionesa, esta terra fecunda que Eucher e Gregório de Tours chamaram de pátria dos mártires. Não vo-los nomearei, mas podeis considerar os que, em vossos grupos, desempenham uma missão, um apostolado, como tendo sido mártires da propagação da ideia igualitária, ensinada do alto do Gólgota pelo nosso Cristo bem-amado! Hoje, caros discípulos, aquele que foi sagrado por São Paulo vem dizer-vos que vossa missão é sempre a mesma, porque o paganismo romano, sempre de pé, sempre vivaz, ainda enlaça o mundo, como a hera enlaça o carvalho. Deveis, pois, espalhar entre os vossos irmãos infelizes, escravos de suas paixões ou das paixões alheias, a santa e consoladora doutrina que meus amigos e eu viemos revelar-vos por nossos médiuns de todos os países. Não obstante, constatamos que os tempos progrediram; que os costumes já não são os mesmos e que a Humanidade cresceu, porque hoje, se fôsseis vítimas de perseguição, esta não emanaria mais de um poder tirânico e invejoso, como ao tempo da Igreja primitiva, mas de interesses coligados contra a ideia e contra vós, os apóstolos da ideia.1 [Destaques nossos.]

Ao encerrar sua belíssima Epístola aos espíritas lioneses, o Espírito Erasto fornece novas e preciosas informações históricas e doutrinárias, que voltamos a destacar para a nossa elucidação:

A João, a Irineu, a Blandine, bem como a todos os vossos Espíritos protetores incumbe a tarefa de vos premunir de agora em diante contra os falsos profetas da erraticidade. O grande Espírito emancipador que preside aos nossos trabalhos sob o olhar do Todo-Poderoso proverá isso, podeis crer-me. Quanto a mim, embora esteja mais particularmente ligado aos grupos parisienses, virei algumas vezes entreter-me convosco e acompanharei sempre com interesse os vossos trabalhos particulares.

Esperamos muito da província lionesa, e sabemos que não faltareis, nem uns nem outros, às vossas respectivas missões. Lembrai-vos de que o Cristianismo, trazido pelas legiões cesaristas, lançou, há quase dois mil anos, as primeiras sementes da renovação cristã em Vienne e Lyon, de onde se propagaram rapidamente à Gália do Norte. Hoje o progresso deve realizar-se numa radiação nova, isto é, do Norte para o Sul. À obra, pois, lioneses! É preciso que a verdade triunfe, e não é sem uma legítima impaciência que esperamos a hora em que soará a trombeta de prata que nos anunciará o vosso primeiro combate e a vossa primeira vitória.

Agora deixai-me agradecer-vos o recolhimento com que me escutastes e a simpática acolhida que nos concedestes. Que Deus Todo-Poderoso, Senhor de nós todos, nos conceda sua benevolência e espalhe sobre vós e sobre o seu servo muito humilde os tesouros de sua misericórdia infinita! Adeus, lioneses! Eu vos bendigo! Erasto1 (Destaques nossos.)

Contexto histórico dos cristãos primitivos

Notemos que Erasto, no texto acima, deixa entrever a possibilidade de que muitos espíritas presentes a esse ágape de união e de confraternização dos confrades de Lyon e região, em 1861 (reunião do Movimento Espírita de unificação daquele tempo), com a presença física, entre eles, do próprio Allan Kardec (nascido também em Lyon), tenham convivido ou estado presentes com os mártires daquela época ou, talvez, através da reencarnação, ter sido algum deles, no dizer do Espírito Erasto:

Meus amigos, se o Altíssimo, por efeito de sua infinita misericórdia, permitisse que a lembrança do passado pudesse brilhar um instante em vossa memória entorpecida, recordar-vos-íeis dessa época, ilustrada pelos santos mártires da plêiade lionesa: (…).1 (Destaques nossos.)

O Espírito Erasto refere-se aos mártires cristãos de Lyon, cidade fundada pelos romanos em 43 a. C. e que, naquele tempo, chamava-se Lugdunum, capital da Gália Lugdunense (à época, colônia romana, hoje território da França), situada na confluência de dois rios: o Ródano e o Saône. Sob o império de Marco Aurélio (161-180) e de outros imperadores romanos, anteriores e posteriores, os cristãos foram martirizados, principalmente no ano  177 da Era Cristã, quando foram flagelados e cruelmente perseguidos em Lyon, Vienne e arredores (Viena ou Vienne é uma cidade da França, próxima de Lyon; preferimos particularmente a grafia original Vienne, para não confundir com Viena, capital da Áustria, embora ambos os nomes estejam corretos).

Na segunda parte, na próxima edição, analisaremos as citações que o Espírito Emmanuel nos traz sobre Os Mártires de Lyon, na extraordinária obra Ave, Cristo! (FEB, 1953), através do mediumato de Chico Xavier, relato verídico que até hoje nos emociona sobremaneira.

E, finalmente, na terceira e última parte, elencaremos a lista dos 50 mártires de Lyon e de Vienne, fazendo uma breve retrospectiva dos seus martirológios e da entrega das suas vidas em holocausto pela Verdade e dos seus dolorosos testemunhos por amor a Jesus, para aprendizado e lembrança das gerações atuais.

Referências:

1 KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Tradução de Júlio Abreu Filho. out. 1861, p. 319-324. EDICEL, 1950.

2  ­­­­__________. Revista Espírita: Periódico de Estudios Psicológicos (Año 1861). Tradução do francês para o espanhol de Enrique Eliseo Baldovino. Pesquisa sobre Erasto, discípulo de São Paulo. Nota do tradutor nº 413 de 1861, Ano IV (www.ceanet.com.ar). CEA – Confederación Espiritista Argentina (Buenos Aires) e FEE, Federación Espírita Española (Málaga, Espanha). Brasília, DF: EDICEI-CEA-FEE, 2016.

 Legendas das ilustrações do artigo:

Ilustração 1 – Capa do livro: “Aceitação e Vida”, ilustrando o momento máximo da coragem de abraçar a própria cruz.

Ilustração 2  – Mártires de Lyon ante os leões: Ave, Cristo! os que vão viver para sempre te glorificam e saúdam!…

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