Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Os espíritas teóricos ou espíritas imperfeitos

março/2016 - Por Enrique Eliseo Baldovino

A primeira nomenclatura (espíritas teóricos) foi dada pelo próprio Codificador do Espiritismo, Allan Kardec, na 1ª edição, muito rara, de Le livre des médiums, lançada em Paris, em 15.1.1861, isto é, há 155 anos, obra histórica que tivemos a ocasião de homenagear e analisar oportunamente nestas páginas.1

Hoje, essa primeira edição original de O livro dos médiums pode ser consultada gratuitamente na Biblioteca Espírita Virtual2, da FEP, graças à doação generosa de um atento leitor deste Jornal.

Ao estudar detidamente esse raro exemplar, encontramos uma notável informação que nos chamou a atenção e que compartilhamos com  nossos irmãos espíritas, nas atuais homenagens dos 155 anos, desde que o ensino se dirige especialmente a nós, adeptos do Consolador prometido por Jesus.

 Les spirites en théorie

Para inteirarmo-nos do contexto doutrinário do artigo, estamos na 1ª parte da citada edição rara, no capítulo IV: Méthode (Método). Lembramos ao leitor que na 2ª e definitiva edição de Le livre des médiums, de novembro de 1861 – tal como hoje a conhecemos –, o referido capítulo mudou para o III (onde consta a segunda nomenclatura do título principal desta matéria: espíritas imperfeitos, item 28), sendo que a 1e édition histórica não tinha divisões por itens1, cujos números foram incluídos a partir da 2ª edição.

Portanto, indicamos como referência o número de página do original francês (p. 177 da 1ª edição), parágrafos que transcrevemos e traduzimos, a fim de que todos possam tomar contato com o original Kardequiano [ fac-símile 1] e seus notáveis ensinamentos, a respeito da classificação ou Categoria dos Espíritas, preparada com sabedoria pelo ínclito Codificador e supervisionada pelos Espíritos superiores.

O precioso original francês da 1e édition

Parmi ceux qu’une étude directe a convaincus on peut distinguer:

1º Ceux qui croient purement et simplement aux manifestations. Le spiritisme est pour eux une simple science d’observation, une série de faits plus ou moins curieux; nous les appellerons spirites observateurs;

2º Ceux que voient dans le spiritisme autre chose que des faits; ils en comprennent la partie philosophique; ils admirent la morale qui en découle, mais ils ne la pratiquent pas. Son influence sur leur caractère est insignifiante ou nulle; ils ne changent rien à leurs habitudes, et ne se priveraient pas d’une seule jouissance; l’avare est toujours ladre, l’orgueilleux toujours plein de lui-même, l’envieux et le jaloux toujours hostiles; pour eux la charité chrétienne n’est qu’une belle maxime; ce sont les spirites en théorie;

3º Ceux qui ne se contentent pas d’admirer la morale spirite, mais qui la pratiquent et en acceptent toutes les conséquences. Convaincus que l’existence terrestre est une épreuve passagère, ils tâchent de mettre à profit ces courts instants pour marcher dans la voie du progrès qui seul peut les élever dans la hiérarchie du monde des Esprits, en s’efforçant de faire le bien et de réprimer leurs penchants mauvais; leurs relations sont toujours sûres, car leur conviction les éloigne de toute pensée du mal. La charité est en toutes choses la règle de leur conduite; ce sont là les vrais spirites ou mieux les spirites chrétiens.

A primeira tradução à língua portuguesa

Existem modificações entre o texto original acima, da 1ª edição, e o texto da segunda, que se encontra no item 28 da edição definitiva. No decorrer do nosso artigo apresentaremos e comentaremos algumas delas, incluso as nomenclaturas diferentes. Primeiramente, traduziremos, por primeira vez em português, os originais franceses da 1ª edição de Le livre des médiums (p. 177), parágrafos inéditos ainda não vertidos ao belo idioma de Camões:

Dentre os que se convenceram por um estudo direto, podem distinguir-se:

1º) Os que creem pura e simplesmente nas manifestações. O Espiritismo é para eles uma simples ciência de observação, uma série de fatos mais ou menos curiosos; nós os chamaremos espíritas observadores;

2º) Os que veem no Espiritismo algo além dos fatos; compreendem-lhe a parte filosófica; admiram a moral que daí decorre, mas não a praticam. Sua influência nos seus caracteres é insignificante ou nula; em nada mudam os seus hábitos e não se privariam de nenhum dos seus prazeres; o avarento é sempre mesquinho, o orgulhoso está sempre cheio de si, o invejoso e o ciumento são sempre hostis; para eles, a caridade cristã é apenas uma bela máxima; são os espíritas teóricos;

3º) Os que não se contentam em admirar a moral espírita, mas que a praticam, aceitando-lhe todas as consequências. Convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, tratam de aproveitar os seus breves instantes para avançar na senda do progresso, a única que os pode elevar na hierarquia do mundo dos Espíritos, esforçando-se por fazer o bem e reprimir suas más tendências; suas relações são sempre seguras, porque a sua convicção os afasta de todo pensamento do mal. A caridade é, em tudo, sua regra de conduta; são os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos.

Algumas diferenças entre a 1ª e a 2ª edição de Le livre des médiums

Entre ambas as edições estudadas de Le livre des médiums, notamos uma mudança de nomenclatura na 1ª categoria ou variedade dos espíritas. Na 1édition, esses espíritas são chamados de observadores (observateurs); na 2ª edição, são denominados espíritas experimentadores (expérimentateurs).

Na 2ª categoria dos espíritas, que é o objeto de estudo do nosso artigo, na 1e édition, os espíritas são chamados de teóricos (spirites en théorie), enquanto que na 2ª edição são cognominados espíritas imperfeitos (imparfaits). [fac-símile 2]

A 3ª categoria, denominada por Allan Kardec de verdadeiros espíritas (vrais spirites) ou espíritas cristãos (spirites chrétiens), manteve exatamente as duas nomenclaturas, que são, como sabemos, conceitos sinônimos, como veremos logo mais em várias obras da Codificação e na Revista Espírita. Comparando as duas edições francesas citadas de O livro dos médiuns, esta 3ª categoria é a única que não teve nenhuma modificação nos textos originais.

Uma 4ª categoria foi acrescentada na 2ª edição, a dos espíritas exaltados (spirites exaltés), cuja definição damos abaixo, para completar o belíssimo conteúdo do item 28 sobre a categoria dos espiritistas, tal como a conhecemos atualmente na sua edição definitiva.3

Os espíritas exaltados

Transcrevemos (editora FEB) este importante acréscimo doutrinário:

Há, finalmente, os espíritas exaltados. A espécie humana seria perfeita, se sempre tomasse o lado bom das coisas. Em tudo, o exagero é sempre prejudicial. Em Espiritismo, infunde confiança demasiado cega e frequentemente pueril, no tocante ao mundo invisível, e leva a aceitar-se, com extrema facilidade e sem verificação, aquilo cujo absurdo, ou impossibilidade a reflexão e o exame demonstrariam. O entusiasmo, porém, não reflete, deslumbra. Esta espécie de adeptos é mais nociva do que útil à causa do Espiritismo. São os menos aptos para convencer a quem quer que seja, porque todos, com razão, desconfiam dos julgamentos deles. Graças à sua boa-fé, são iludidos, assim, por Espíritos mistificadores, como por homens que procuram explorar-lhes a credulidade. Meio-mal apenas haveria, se só eles tivessem de sofrer as consequências. O pior é que, sem o quererem, dão armas aos incrédulos, que antes buscam ocasião de zombar, do que se convencerem e que não deixam de imputar a todos o ridículo de alguns. Sem dúvida que isto não é justo, nem racional; mas, como se sabe, os adversários do Espiritismo só consideram de bom quilate a razão de que desfrutam, e conhecer a fundo aquilo sobre que discorrem é o que menos cuidado lhes dá.4 [Destaques nossos.]

A teoria e a prática

A respeito dos espíritas teóricos, que pouco depois Kardec chamará de imperfeitos, são aqueles que admiram a moral, mas não a praticam, isto é, os que ficam somente na teoria, sem praticar os profundos ensinos decorrentes do Espiritismo. Por isso o Codificador os chama de teóricos ou imperfeitos, porque tendo a oportunidade de colocar em prática as belas máximas cristãs, revividas pela Doutrina dos Espíritos, não as vivenciam, mantendo infelizmente as suas imperfeições.

Sim, é uma imperfeição grave conhecer o bom caminho e os preceitos da caridade cristã-espírita, mas não viver de acordo com tudo o que se sabe. Principalmente no mundo interior, onde é travada a árdua luta moral contra as nossas más inclinações, permaneceremos só na teoria se a influência do Espiritismo, em nosso caráter, for insignificante ou nula; seremos somente espíritas de gabinete se em nada mudarmos os nossos hábitos nefastos e se não fizermos esforços em nos privarmos do que faz mal e daquilo que prejudica aos demais.

O Codificador cita a avareza, a mesquinharia, o orgulho, a inveja, o ciúme, a hostilidade, numa palavra, o egoísmo. São todas imperfeições que poderiam ser superadas e vencidas com a força de vontade, dirigida pelo pensamento e pela ação no bem, na prática da caridade para com o nosso próximo e para conosco mesmos.

O verdadeiro espírita

Por isso é que o mestre de Lyon, com a clareza que o caracteriza, registra para a posteridade: Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar as suas inclinações más. Esta frase lapidar, que encontra-se em O Evangelho segundo o Espiritismo5, no capítulo XVII (Sede perfeitos), e que coroa a mensagem Os bons espíritas (item 4), teve o seu brilhante começo no parágrafo abaixo, que faz referência ao item anterior (O homem de bem, item 3) de L’Évangile selon le Spiritisme, parágrafo que também transcrevemos pelo seu grande conteúdo moral:

Bem compreendido, mas sobretudo bem sentido, o Espiritismo leva aos resultados acima expostos, que caracterizam o verdadeiro espírita, como o verdadeiro cristão, pois que um é o mesmo que outro. O Espiritismo não institui nenhuma nova moral; apenas facilita aos homens a inteligência e a prática da moral do Cristo, facultando fé inabalável e esclarecida aos que duvidam ou vacilam. [Destaques nossos.]

Muitos, entretanto, dos que acreditam nos fatos das manifestações não lhes apreendem as consequências, nem o alcance moral, ou, se os apreendem, não os aplicam a si mesmos. A que atribuir isso? A alguma falta de clareza da Doutrina? Não, pois que ela não contém alegorias nem figuras que possam dar lugar a falsas interpretações. A clareza é da sua essência mesma e é donde lhe vem toda a força, porque a faz ir direto à inteligência. (…)6

A moral, a teoria, a união e a unificação

Na Revista Espírita de dezembro do ano de 1861, encontramos também referências muito oportunas acerca das profundas relações existentes entre a moral, a teoria e a união, e portanto, a unificação, referências que valem a pena ser citadas para as nossas reflexões, porque Kardec destaca a importância da boa formação dos grupos e Sociedades Espíritas com pessoas desta 3ª classe ou categoria, a dos verdadeiros espíritas (itens 10 e 11 da Revue):

Se bem compreendido o que precede, compreender-se-á também que um grupo formado exclusivamente por elementos desta última classe estaria nas melhores condições, porque entre praticantes da lei de amor e de caridade é que se pode estabelecer uma séria ligação fraternal. Entre homens para quem a moral é mera teoria, a união não seria durável; como não impõem nenhum freio ao orgulho, à ambição, à vaidade e ao egoísmo, não o imporão, também, às suas palavras; quererão primar, quando deveriam descer; irritar-se-ão com as contradições e não terão escrúpulos em semear a perturbação e a discórdia. Entre verdadeiros espíritas, ao contrário, reina um sentimento de confiança e de benevolência recíproca; sentem-se à vontade nesse meio simpático, ao passo que há constrangimento e ansiedade num ambiente misto.

(…) Tendo por objetivo a melhora dos homens, o Espiritismo não vem procurar os perfeitos, mas os que se esforçam em o ser, pondo em prática os ensinos dos Espíritos. O verdadeiro espírita não é o que alcançou a meta, mas o que seriamente quer atingi-la. Sejam quais forem os seus antecedentes, será bom espírita desde que reconheça suas imperfeições e seja sincero e perseverante no propósito de se emendar. Para ele o Espiritismo é a verdadeira regeneração, porque rompe com o passado; indulgente para com os outros, como quereria que fossem para consigo, de sua boca não sairá nenhuma palavra malévola nem cortante contra ninguém. Aquele que, numa reunião se afastasse das conveniências não só provaria uma falta de cortesia e de urbanidade, mas uma falta de caridade; aquele que se chocasse com a contradição e pretendesse impor a sua pessoa ou as suas ideias, daria prova de orgulho. Ora, nem um, nem outro estariam no caminho do verdadeiro Espiritismo, isto é, do Espiritismo cristão. Aquele que pensa ter uma opinião mais justa que os outros, poderá fazê-la aceitar melhor pela doçura e pela persuasão; seu azedume seria mal calculado.7 [Destaques nossos.]

Os espíritas duvidosos

Neste texto da Revue Spirite de dezembro de 1861, no mesmo artigo Organização do Espiritismo, agora no item 19, Kardec faz uma alusão muito interessante aos espíritas duvidosos (spirites douteux):

Como se vê, tudo isto é de execução muito simples e sem engrenagens complicadas; mas tudo depende do ponto de partida, isto é, da composição dos grupos primitivos. Se formados de bons elementos, serão outras tantas boas raízes que darão bons renovos. Se, ao contrário, forem formados de elementos heterogêneos e antipáticos, de espíritas duvidosos, mais ocupados com a forma do que com o fundo, que consideram a moral como parte acessória e secundária, há que esperar polêmicas irritantes e sem saída, pretensões pessoais, estremecimentos de suscetibilidades e, em consequência, conflitos precursores da desorganização. Entre verdadeiros espíritas, tais quais os definidos, que veem o objetivo essencial do Espiritismo na moral, que é a mesma para todos, haverá sempre abnegação da personalidade, condescendência e benevolência e, por conseguinte, segurança e estabilidade nas relações. Eis por que temos insistido tanto sobre as qualidades fundamentais.8  [Destaques nossos.]

 

Vivência dos ensinos de O livro dos médiuns

Terminamos a nossa pesquisa citando o grande Apóstolo Paulo, que se comunicou em Paris, em 1860, e cuja mensagem conclui da seguinte maneira, chamando-nos à grave decisão:

Meus amigos, agradecei a Deus o haver permitido que pudésseis gozar a luz do Espiritismo. Não é que somente os que a possuem hajam de ser salvos; é que, ajudando-vos a compreender os ensinos do Cristo, ela vos faz melhores cristãos. Esforçai-vos, pois, para que os vossos irmãos, observando-os, sejam induzidos a reconhecer que verdadeiro espírita e verdadeiro cristão são uma e a mesma coisa, dado que todos quantos praticam a caridade são discípulos de Jesus, sem embargo da seita a que pertençam. – Paulo, o apóstolo. (Paris, 1860)9 [Destaques nossos.]

 Que a viagem interior que O livro dos médiuns nos convida a fazer, nestes 155 anos de lançamento, no combate firme aos nossos maus pendores – que ainda os temos no cerne –, possa ser uma realidade insofismável e não uma simples teoria, procurando a verdadeira vivência que a Doutrina nos ensina sobejamente a concretizar, para vencermos em definitivo as nossas imperfeições, reformando o que precisa ser mudado, a fim de atingirmos, com o Espiritismo, o tão anelado objetivo das nossas existências: a melhora íntima.

 

1 BALDOVINO, Enrique Eliseo (com publicação de fac-símiles da obra).  A 1ª edição histórica e rara de Le livre des médiums Mundo Espírita, Curitiba: FEP, p. 10-11, jan. 2013.

2 BIBLIOTECA ESPÍRITA VIRTUAL. Le livre des médiums. 1. ed. de 1861. Paris: Didier et Cie, Libraires-Éditeurs. 495 p.

(http://www.bibliotecaespirita.com.br/obras/detalhamento/?material=482). Curitiba: FEP. Gentileza de Leandro Ramos de Souza, de Florianópolis/SC.

 3 __________. Le livre des médiums. Edição definitiva. Paris: Librairie des Sciences Psychiques et Spirites. 517 p. (http://www.bibliotecaespirita.com.br/obras/detalhamento/?material=445). Curitiba: FEP.

4 KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 62. ed. Brasília: FEB, 1996. cap. III: Do método, item 28, § 4º. p. 45-46.

 5 __________. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 123. ed. Brasília: FEB, 2004. cap. XVII: Sede perfeitos, item 4: Os bons espíritas. p. 276.

 6 Op. cit. cap. XVII: Sede perfeitos, item 3: O homem de bem. p. 274-275.

 7 KARDEC, Allan. Organização do espiritismo, §§ 10 e 11. Revista Espírita – Jornal de estudos psicológicos, dez. 1861. Tradução de Júlio de Abreu Filho. São Paulo: EDICEL, 1950. p. 393-394.

 8 Op. cit. § 19. p. 397.

9 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 123. ed. Brasília: FEB, 2004. cap. XV, Instruções dos Espíritos (Paulo, o apóstolo), item 10: Fora da caridade não há salvação. p. 252.

2 LEGENDAS: FAC-SÍMILES COMPARADOS DA 1ª E DA 2ª EDIÇÃO DE LE LIVRE DES MÉDIUMS:

FAC-SÍMILE 1 – Original francês da página 117 (categorias dos espíritas), da 1ª edição rara de Le Livre des Médiums (15.01.1861).

 FAC-SÍMILE 2 – Item 28 (categorias dos espíritas: p. 27), da 2ª e definitiva edição francesa de Le Livre des Médiums (novembro de 1861).

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