Jornal Mundo Espírita

Julho de 2020 Número 1632 Ano 88

Os caminhos do Senhor

dezembro/2008

Ao deixar o fulgor das estrelas, para tomar nossas dores e abraçar nossa indigência, o Senhor Jesus sabia dos sofrimentos e humilhações que enfrentaria, ao mergulhar no báratro da ignorância humana.

Para despertar nossa sensibilidade, profetas notáveis reencarnaram, na fieira dos séculos, desde Moisés até os portais dos tempos novos, traçando o perfil do Sublime Pegureiro.

O Antigo Testamento fez-se um hinário de esperanças, cantarolando a chegada  do Messias no conturbado cenário da Terra.

Dele, disseram os enviados do Céu, na emocionante narrativa de Isaias:

“Em terra seca surgirá como um arbusto verde, embora mirrado. Será desprezado, o mais rejeitado entre todos, dele não faremos caso. Será oprimido, desrespeitado, mas não soltará um único lamento, de nada reclamará. Como cordeiro será levado ao matadouro, perdoando sempre. Quando der sua vida por amor, os interesses de Deus prosperarão em suas mãos”.

Vinha para combater os erros da conduta humana e limpar nossas almas, como bem fixou Malaquias, o último profeta: “Ele é como o fogo do ourives e a potassa dos lavandeiros”, por ser “o sol da justiça, o portador da salvação”.

Compulsando os quatro Evangelhos, constata-se que Mateus escreveu o mais longo texto, Marcos o mais curto. Lucas fez-se o mais didático e histórico, enquanto João, mais místico e profético, abordaria questões que escaparam aos demais como, no capítulo 14, ao exaltar a vinda do Consolador.

Mas, em todas as narrações, vê-se patente a imagem do Cristo na descrição dos profetas, ressalvando-se as peculiaridades de cada evangelista.

A epopeia cristã é verdadeiramente uma maratona de amor nas estradas da dor. O “Sol de Justiça” apagaria a própria luz para movimentar-se nas trevas de uma época de barbáries.

Ignorou grandezas terrenas, desde o seu nascimento. No desconforto da estrebaria, cercado de animais, tinha apenas o carinho dos pais, Maria e José, ali na minúscula  Belém, que o Cristo imortalizaria, como bem antecipou a visão de Miquéias, ao decantar: “E tu Belém de Judá não és tão pequena assim, porque de ti sairá o Salvador da Humanidade, cujas origens se perdem nos dias da Eternidade”.

Belém, na Judeia, era a “Casa de Davi”. José, o pai de Jesus, descendia de Davi. Por isso o Senhor era também chamado de “filho de Davi”.

Logo após a natividade, José é aconselhado em sonho a fugir para o Egito, escapando da fúria de Herodes, que temia a chegada de um outro “rei de Israel”, usurpador do seu poder.

Passado o risco, retornam a Nazaré, na Galileia, onde moravam.

Percorreram, no trajeto de ida e volta, cerca de duzentos e cinquenta quilômetros. Foi um ato de disciplina e dever cívico, típico das grandes almas. Obedeceram a um decreto de César Augusto, imperador de Roma, que determinava o recenseamento de todos os habitantes das colônias romanas, como registrou Lucas, no seu capítulo 2. À época, as pessoas eram recenseadas nas cidades dos seus ascendentes. José descendia de Davi, originário de Belém. Somente aos doze anos Jesus reapareceria em Jerusalém, na festa da Páscoa hebraica, no célebre episódio do encontro com os doutores no Templo de Salomão.

Não se tem conhecimento das passagens do Cristo dos doze aos trinta anos, quando se deixou batizar por João, próximo a Betânia, no rio Jordão.

Sua primeira aparição pública dar-se-ia nas bodas de Caná, logradouro próximo à cidade de Cafarnaum, onde o Senhor fixaria a base de suas ações iniciais.

Nas bodas de Caná, a pedido de Maria, sua mãe, o Mestre transformaria seis bilhas d’água em vinho.

Ali, em Cafarnaum, às margens do mar da Galileia, mais precisamente um lago de aproximadamente duzentos quilômetros quadrados, Jesus  seleciona seus apóstolos. Judas Iscariotes, era o único judeu do colégio apostólico, após trair seus compromissos e enforcar-se, foi substituído por Matias.

Nessa região, ocorreria um dos fatos mais marcantes do Evangelho: o Sermão da Montanha.

No Sermão estão as “bem-aventuranças”, “a ansiosa solicitude pela vida”, a advertência sobre os falsos profetas, a “oração dominical”, conhecida como  “Pai Nosso”, entre outros inesquecíveis ensinamentos.

Seis dias após deixar Cesárea de Filipe, junto à fronteira com a Síria, onde se deu o conhecido diálogo de Jesus com os seus seguidores, patenteando a reencarnação, o Enviado dos Céus dirigiu-se ao Monte Tabor.

Estava acompanhado de Pedro, João e Tiago, que ficaram extasiados com as materializações de Elias e Moisés.

Ao longo de três anos, ele peregrinou por dezenas de cidades, em toda a Palestina, formada por uma tetrarquia: Judeia, Samaria, Peréia e Galiléia.

Esteve em Tiro, Sidon, Gadara, Betsaida, Corazin, Dalmanuta, Jericó, Decápolis, entre outras.

Depois da famosa entrada triunfal em Jerusalém, o mais trágico acontecimento da história do planeta começaria a desdobrar-se.

Por trinta moedas de prata, Judas Iscariotes o entrega aos sacerdotes do Sinédrio, Anás e Caifás, que, mancomunados com Herodes e Pôncio Pilatos, o levariam à crucificação.

Sua prisão deu-se no Jardim do Getsêmani, junto ao Monte das Oliveiras, logo depois de lavar os pés dos discípulos na última ceia e prometer o Consolador.

Trocado por um criminoso confesso, Barrabás, pela imensa massa de judeus revoltados, percorreria a “via crucis”, da Torre Antônia até o Gólgota. Sob bofetões, cusparadas, imprecações e chicotadas, carregou a pesada cruz por cerca de quinhentos metros. (ilustrar com a imagem do Monte Caveira ou Gólgota)

Jamais se viu tanta covardia e violência contra alguém que só fez amar.

A tudo enfrentou com divina serenidade e ainda nos perdoou.

Passados três dias, o Mensageiro da Luz ressurge ante os olhos atônitos de Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Joana de Cusa. Mais tarde, reaparece no caminho de Emaús a dois de seus discípulos. Posteriormente, apresentou-se aos apóstolos em Jerusalém e a outros discípulos no Mar da Galileia.

No quadragésimo dia, retornou aos campos dourados da vida eterna despedindo-se na pobre e abandonada cidade de Betânia!

Suas parábolas, cheias de encantamento, inundam nossos corações de verdades libertadoras.

Sua presença celeste dividiu a história dos homens em antes e depois.

Sua misericórdia, somente agora podemos melhor compreender.

Seu sofrimento ainda nos comove.

Sua crença, no futuro da Humanidade, fez vir até nós as bênçãos do Consolador.

A Doutrina Espírita é o seu retorno ao campo atormentado da vida planetária.

Ficará eternamente conosco, como um perfume inextinguível, a embalar nossas esperanças na construção do mundo novo.

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