Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2022 Número 1650 Ano 89
Revivendo Ensino Envie para um amigo Imprimir

Os arquivos da alma

novembro/2020

O estudo do perispírito, sua organização, suas propriedades, sua utilidade e necessidade na organização humana, suas possibilidades verdadeiramente fabulosas, encantadoras, constituem, por certo, uma das maiores atrações da Doutrina dos Espíritos.

Esse delicado invólucro da alma, inigualavelmente concreto, poderoso, nas funções que foi chamado a exercer na personalidade humana, é também denominado corpo fluídico, dada a estrutura da sua natureza, que, segundo os sábios pesquisadores da Ciência Espírita, é composta de três espécies de fluido: o fluido elétrico, o fluido magnético e o fluido cósmico universal, este também considerado pelos espiritistas a quintessência da matéria.

Esse corpo fluídico da alma, pois, que jamais a abandona, que, qual ela própria, é imortal, mas não imutável, pois evolui, partindo dos graus primitivos até galgar os pináculos da superioridade, seguindo o mesmo trajeto glorioso daquela essência divina, ou seja, a alma; esse admirável corpo intermediário, que tanto participa do fluido imponderável como da matéria sublimada à quintessência; o perispírito, chamado também mediador plástico, é também transmissor das vontades da alma, ou ser inteligente, à ação da matéria humanizada, ou corpo físico humano; é a sede das sensações que agitam nossas sensibilidades, sensações que tanto mais amplas serão quanto mais ele próprio progrida; esse corpo celeste, como o definiu o grande Paulo de Tarso, corpo astral, no enunciado dos orientalistas, tão indispensável à alma para os fins da reencarnação, de onde lhe advém a confirmação do progresso; o perispírito, forma, esteio que mantém e conserva a própria estrutura do corpo carnal, conservando a personalidade detida na carne: pensamento, vontade, memória, fisionomia etc., enquanto as células humanas sofrem as variadas renovações periódicas, além de outras singulares propriedades possui, também, uma das mais importantes que a mentalidade humana poderia conceber, consoante o provaram numerosas experiências científicas: ele arquiva em seus refolhos, como que superpostos os fatos, atos, sensações, e até os pensamento que tenhamos produzido através das nossas imensas etapas evolutivas.

Referindo-se a esse magnífico envoltório intermediário, explicam os grandes mestres da Doutrina Espírita:

Como o carvalho que guarda em si os sinais de seus desenvolvimentos anuais – escreve Léon Denis no capítulo XXIII de Depois da Morte -, assim também o perispírito conserva, sob suas aparências presentes, os vestígios das vidas anteriores, dos estados (humanos e espirituais) sucessivamente percorridos. Esses vestígios repousam em nós muitas vezes esquecidos, porém, desde que a alma os evoca, desperta a sua recordação, eles reaparecem, como outras tantas testemunhas, balizando o caminho longa e penosamente percorrido. (…)

As menores particularidades da nossa vida registram-se em nós e deixam traços indeléveis. Pensamentos, desejos, paixões, atos bons ou maus, tudo se fixa, tudo se grava em nós. Durante o curso normal da vida, estas recordações acumulam-se em camadas sucessivas e as mais recentes acabam por diluir aparentemente as mais antigas.

Parece que esquecemos aqueles mil pormenores da nossa existência dissipada. Basta, porém, evocar, nas experiências hipnóticas, os tempos passados e tornar, pela vontade, a colocar o sujet numa época anterior da sua vida, na mocidade ou no estado de infância, para que essas recordações reapareçam em massa.

Tais recordações podem avançar abrangendo o estágio no espaço, antes da reencarnação, como é sabido entre os espíritas, até rever a existência anterior, e, sendo o estado de desprendimento aprofundado, tanto no sono natural como nos diversos transes possíveis no caso, avançará até duas e mais existências passadas. (…)

Acontece, por vezes, que, durante o estado de sono ordinário, a alma, exteriorizada temporariamente do corpo, encontra momentaneamente condições favoráveis para que o renascimento do passado possa produzir-se.

Pode suceder que essa renovação seja acidental, como em relâmpagos, no estado normal. Assiste-se, então, a uma revivescência de imagens antigas que dão àquele que as experimenta a impressão de que já viu cidades ou paisagens, ainda que nunca lá fosse.

Entretanto, a prática do Espiritismo e o ensino dos Espíritos, na atualidade, também parece demonstrar que outras circunstâncias podem cooperar para as recordações aflorarem do passado, e que não apenas os Espíritos superiores, encarnados ou não, se acham na situação de lembrarem algo das próprias existências percorridas, conquanto o fato se declare chocante, mesmo circulado de anormalidades, e à revelia da vontade do paciente.

Também poderemos apresentar o nosso testemunho a respeito da regressão da memória no estado de transe, como apresentamos as lembranças, embora restritas, da passada migração terrena, visto que será dever registarmos os fenômenos autênticos do nosso conhecimento, a fim de também contribuirmos para a solidificação das teses espíritas.

 

Referência:

1 PEREIRA, Yvonne A. Recordações da mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 1976. cap. 4.

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