Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2017 Número 1601 Ano 85

Os altos e baixos da vida

outubro/2017 - Por Cristiane Beira

Narra a mitologia grega que a deusa Deméter, com seus cabelos dourados, da cor do trigo, era parceira dos homens agricultores, providenciando-lhes as condições de clima e terra mais apropriadas, necessárias às melhores colheitas.

A alegria com que passeava pelos campos e prados, cuidando de tudo, no entanto, foi-lhe roubada quando Hades, o deus do mundo avernal, raptou sua filha, a deusa Perséfone, por quem havia se apaixonado, arrastando a jovem para as profundezas da terra.

Deméter foi tomada de desespero, deixou de cumprir seu papel de cuidar das colheitas e amaldiçoou a terra, a quem acusou de cúmplice de Hades, por ter-se aberto para a passagem de Perséfone, e partiu em busca da filha. Exigiu que Zeus, o pai da deusa raptada, convencesse seu irmão Hades a devolver a jovem.

Como a situação fosse ficando caótica: os grãos não germinavam, o solo se mostrava estéril, os animais começavam a morrer, Zeus interferiu no assunto e pediu que Hades libertasse sua filha com Deméter.

O deus do inferno não teve outra opção a não ser acatar a solicitação, mas antes teve o cuidado de fazer com que Perséfone comesse um bago de romã, prendendo-a para sempre ao mundo inferior, pois quem se alimentasse naquele lugar ficava obrigado a ali retornar.

A partir daí, a deusa Perséfone passou a ficar com a mãe durante um período do ano e com Hades, no mundo avernal, o outro período.

Nos períodos em que Deméter tem a filha perto de si, a deusa fica feliz e a natureza floresce: nessa época do ano celebramos a primavera e o verão. Mas, quando a deusa dos cabelos dourados precisa deixar que Perséfone retorne para junto de Hades, vê, novamente, sua tristeza brotar: é o início do outono e do inverno, quando as plantas começam a secar e a terra fica desolada.

A mitologia tem sido utilizada pela Psicologia por trazer conteúdos simbólicos profundos e arquetípicos, essenciais para os processos psíquicos.  No mito de Perséfone, encontramos a simbologia referente ao mundo objetivo – os ciclos e as estações da natureza, gerando as mudanças climáticas de cada período –, mas observamos, também, simbologias relacionadas ao mundo psicológico, por exemplo, no que diz respeito aos processos de mergulho em direção à subjetividade do Si-mesmo.

A entrada de Perséfone no mundo avernal, das sombras e profundezas, periodicamente, poderia ser observada como o mecanismo de regressão, enquanto que seu retorno ao mundo exterior, simbolizaria a dinâmica da progressão, ambos conceitos explicados por Jung: A progressão enquanto processo contínuo de adaptação às exigências do mundo ambiente assenta na necessidade vital de adaptação. A necessidade compele o indivíduo a se orientar inteiramente para as condições do mundo ambiente e a reprimir aquelas tendências e virtualidades que servem ao processo de individuação. 

A regressão, ao invés, enquanto adaptação às condições do próprio mundo interior, assenta na necessidade vital de satisfazer as exigências da individuação.1

A transição periódica e ritmada entre os dois mundos, que Perséfone executava, pode representar exatamente esse movimento alternado entre os estados opostos que fazem parte da vida como um todo, os chamados altos e baixos da vida.

A própria psicologia junguiana explica que a saúde é resultado da fluidez e do movimento da energia psíquica, que deveria, constantemente, passear de um polo a outro, do consciente para o inconsciente e vice-versa, de acordo com a situação vivenciada.

Quando a psique detecta a necessidade de elaboração de conteúdo psíquico, cuja demanda vem da necessidade natural do processo de individuação, inicia-se um movimento da energia psíquica em direção ao inconsciente. Durante esse período de regressão da energia psíquica, ficamos pensativos, procurando elaborar e compreender os sentimentos, comportamentos e acontecimentos. Em termos emocionais, podemos experimentar algo entre a melancolia e a introspecção.

Esse período de regressão da energia psíquica, que nada tem a ver com retrocesso, mas que apenas define que o foco da atenção se encontra no mundo íntimo (de dentro), inconsciente, permite-nos a oportunidade de iluminar sombras, de identificar complexos e, por consequência, avançar no processo de individuação que nos conduz à plenitude.

Por outro lado, como a vida objetiva continua e nela experimentamos o que é realmente viver, a energia psíquica também é conduzida a fluir para o consciente (mundo de fora), levando a pessoa a amadurecer, por meio de experiências práticas, relacionamentos sociais e execução de projetos concretos. Essa seria a fase que Jung chamou de progressão.

Fica claro, assim, o quanto os altos e baixos e os dentro e fora da vida são naturais e importantes para a evolução pessoal. No entanto, quantas pessoas aceitam de boa vontade e agradecidas essa alternância entre estados emocionais e situacionais?!

Infelizmente, a maioria de nós ainda observa essa dinâmica da vida, de forma contrariada, desejando estar mais nos alto e fora da vida do que aproveitando o que as experiências dos baixo e dentro nos oferecem.

Ainda que Jesus nos tenha alertado quanto a isso, afirmando que, para a conquista do reino de Deus, seria necessário suportar as aflições da vida, deixando-nos a mensagem, nas entrelinhas, de que passar por aflições faz parte do evoluir, costumeiramente empregamos grande dose de energia tentando evitar a regressão.

A vida do Apóstolo Pedro nos oferece uma lição viva dessa experiência, e temos registros de diversos altos e baixos vividos pelo sábio pescador: E,, chegando Jesus às partes de Cesareia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus. (Mt, 16:13-17)

Desde então começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia. E Pedro, tomando-o de parte, começou a repreendê-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de modo nenhum te acontecerá isso. Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens. (Mt, 16:21-23)

Além dessa passagem específica, em que Pedro é apresentado como mensageiro de Deus para, no instante seguinte, comportar-se como se estivesse sob influência de  Satanás, lembramos algumas outras:

  • Pedro nega Jesus três vezes (Jo,18:27) e depois da crucificação do Cristo é escolhido pelo Mestre para afirmar seu amor por Ele três vezes (Jo, 21:15-17);

 

  • Pedro experimenta a fé e anda sobre as águas, para em seguida duvidar e afundar, sendo resgatado por Jesus (Mt, 14:28-31).

Jesus era mestre em nos demonstrar o quanto é natural esse movimento em nossas vidas. Nunca exigiu que apenas acertássemos ou que somente estivéssemos alegres socialmente. Amou tanto os caídos quanto os que ocupavam posição de destaque e via beleza em todos e em tudo.

Entretanto, apesar de termos contato com o Cristianismo, desde há muitos séculos, ainda hoje observamos uma certa relutância em aceitar o dinamismo que a vida propõe, inclusive, nos comentários do tipo: O que tem de errado com você?! Está tão introspectivo e calado, como se essa vivência de visita ao mundo íntimo fosse um erro, um problema a ser corrigido. Deixe disso, vamos passear e procurar alguma diversão para você esquecer do que o incomoda, é a frase proposta na sequência, como solução para a questão.

É verdade que se manter indefinidamente  num estado melancólico é sinal de atenção porque o movimento da energia psíquica foi bloqueado e pode gerar algum sintoma, mas vivenciar esse convite do inconsciente, elaborando os conteúdos necessários, buscando o autoenfrentamento e a iluminação das sombras, é oportunidade riquíssima de amadurecimento e deve ser valorizada.

O problema que o movimento da psique pode encontrar é justamente a resistência que qualquer mudança costuma encontrar. Parece ser uma rigidez que teme enfrentar o novo e o diferente. Existe uma tendência aparentemente instintiva ou automatizada que leva o indivíduo a sempre se opor às mudanças, esforçando-se para manter o status quo.  Curioso é que essa tendência é tão irracional que deseja, muitas vezes, manter a situação, ainda que ela esteja muito desconfortável. Quantas pessoas preferem ficar com o ruim conhecido do que se arriscar a conquistar o melhor desconhecido.

Interessante notar, portanto, que a saúde ou a plenitude da vida encontra-se justamente no movimento entre os polos. Quando forçamos a situação de modo que permaneçamos num dos polos, um mecanismo psíquico automático é ativado e o polo oposto é constelado, no entanto, algumas vezes de modo inconveniente, por meio de sintomas, como se um recurso de alerta fosse acionado.

A própria Humanidade, como indivíduo coletivo, também vem passando por esses movimentos e experimentando diversos sistemas de alerta. Ao longo de sua História, muitos exemplos nos ofereceram modelo de como isso acontece:

  • quando o mundo de fora exaltava o masculino, o poder patriarcal, a super-valorização do homem, o seu oposto, o feminino, adoecia, produzindo um fenômeno de histeria quase pandêmico;

 

  • quando o mundo de fora exaltava a inflexibilidade e a rigidez, com a doutrina maniqueísta, o lado oposto constelou e a necessidade da relativização conduziu a inúmeros casos de esquizofrenia. Nesse momento Einstein lança a Teoria da Relatividade;

 

  • quando o mundo de fora exalta, nos dias atuais, a posse, o poder e a fama, o lado oposto, do mundo de dentro, do sagrado, da conexão interna com Deus começa a se manifestar, pedindo o retorno para o Si-mesmo, na forma do que denominamos depressão.

Por isso é que, nesse momento histórico que vivemos, em que o brilho social é exaltado, reverenciando o mundo de fora, Joanna de Ângelis nos adverte que é fundamental nos lembrarmos de Perséfone, permitindo que a vida não gire somente em torno das conquistas exteriores: À medida, porém, que as contas bancárias aumentam e o brilho social projeta, o indivíduo perde contato com a sua realidade, tornando-se antinatural, exigindo tratamento especial em toda parte () sentindo-se todo poderoso e agressivo.2

A Doutrina Espírita, igualmente, apresenta-nos compreensão clara no que se refere ao dinamismo presente nas Leis que regem a vida, explicando que os baixos de nossas existências são necessários para o crescimento espiritual, lembrando, porém, que, passada a tempestade, há sempre o sol brilhando e nos convidando a outro ciclo complementar, correspondendo aos altos tão desejados: Contudo, assim como para o obreiro o Sol se levanta no dia seguinte, permitindo-lhe neste reparar o tempo perdido, também para o homem, após a noite do túmulo, brilhará o Sol de uma nova vida, em que lhe será possível aproveitar a experiência do passado e suas boas resoluções para o futuro.3

 

 Bibliografia:

1 JUNG, C. G. Energia Psíquica. Petrópolis: Vozes, 1999. p. 37-38.

2 FRANCO, Divaldo Pereira. Amor, imbatível amor. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2014.  cap. 6, item Objetivos conflitivos, p. 108.

3 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. 5, item 5.

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