Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
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O trabalho dos mortos

julho/2012

Possivelmente poucas pessoas conheçam a obra em destaque. Publicada por primeira vez em 1943, pela Federação Espírita Brasileira, é um livro esquecido em prateleiras das livrarias.

Trata-se de relatos detalhados das experiências realizadas com a médium Ana Prado, no início do século XX, a quase totalidade em sua casa, em Belém do Pará.

Eurípedes Prado, o esposo, era comerciante abastado e conceituadíssimo. Sofreu, à época, acusações de farsa e fraude.

Em desabafo público, perguntou o que o induziria para tal, desde que não havia dinheiro envolvido nem interesses políticos. E concluiu, ainda: Será possível que eu, que posso gerir a minha casa comercial; que os meus filhos maiores, que se formam este ano em Farmácia; que meu cunhado, que é quintanista de Direito, estejamos alucinados?

Eurípedes Prado foi atraído à Doutrina Espírita após a leitura de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec. Compareceu a sessões espíritas, sem conseguir que esposa e filhos o acompanhassem.

Então, desejou fazer experiências com a mesa, tentando obter alguma manifestação. Tudo foi inútil no começo, até o momento em que conseguiu convencer sua esposa, Ana, a acompanhá-lo no tentame.

Iniciaram-se então os fenômenos de movimentação da mesa, de objetos, escrita pela tiptologia e transporte de flores. Seguiram-se depois as materializações em obscuridade plena, apenas perceptíveis pelo tato, enquanto se ouvia a médium ressonar ao lado, junto à fila dos assistentes; gradualmente, da obscuridade plena, passou-se a uma luz muito tênue e de materializações de membros esparsos – um braço, mãos, etc. – ao aparecimento de vultos perfeitos e até ao reconhecimento dos mesmos por parte de parentes.

Os fenômenos incluíam ainda escrita direta e cirurgias.

Foram muitos os que tiveram franqueada a presença nas sessões. Primeiro foram os amigos que, por sua vez, a outros convidaram e assim, ali compareceram altos funcionários do Estado, membros do Superior Tribunal de Justiça, políticos, advogados, juízes, oficiais da Marinha, comerciantes, médicos, artistas.

Dentre esses, o grande maestro Ettore Bosio, autor da ópera O Duque de Vizeu, elogiada pelo imortal Carlos Gomes.

Ana Prado submeteu-se a muitas exigências dos circunstantes, sobretudo dos que, descrentes ou desejosos de provar a fraude, se tornavam inconvenientes. Chegou a ser colocada dentro de uma jaula, não bastassem os lacres, os selos especiais e toda uma série de outros cuidados a que era submetida.

Atas das sessões foram redigidas, assinadas pelos presentes, e são elas o mais preciso documento acerca dos raros fenômenos apresentados pela médium, provando a Imortalidade do Espírito.

Também se fizeram experiências datiloscópicas, comparando-se as impressões digitais dos Espíritos materializados com as da médium e assistentes.

Entre os Espíritos mais assíduos aos trabalhos estavam João, assim denominado porque uma das suas primeiras aparições se deu em 24 de junho, dia de São João. Seu nome verdadeiro era Felismino de Carvalho Rebelo, tio da médium.

Anita, outro Espírito que amiúde se manifestava, se apresentava como tendo sido florista em sua última encarnação e era hábil em reproduzir flores em parafina ou com lenços, que pedia aos participantes das sessões.

O livro é um repositório de provas concretas da sobrevivência da alma. Enfeixa documentos divulgados na imprensa, ou registrados em atas, referentes aos fenômenos mediúnicos de efeitos físicos, obtidos graças à mediunidade de Ana Prado.

O autor da obra, Raymundo Nogueira de Faria, teve como objetivo, ao reunir toda a preciosa documentação e as cerca de cinquenta ilustrações, divulgar os fenômenos, oferecendo à Ciência elementos de estudo, além de levar conforto, esperança e fé aos que as perderam.

Entre outras, o livro apresenta as admiráveis sessões de materialização de Rachel, filha de Frederico e D. Esther Fígner, desencarnada em 30 de março de 1920, aos vinte e um anos de idade. São depoimentos de um coração materno, plenamente reconfortado após o reencontro com a filha querida.

É, por fim, o volume de quase trezentas páginas, o relato de duas almas sofridas, Eurípedes e a esposa. O primeiro chegou a adoecer, ante tantas acusações de fraude. A ideia de que alguém o julgava capaz de uma fraude o magoava muito. Passava noites sucessivas sem poder conciliar o sono. Ela, por sua vez, chegou a um quase esgotamento nervoso, fosse por acompanhar o marido em suas vigílias, fosse pelas exigências descabidas de ficar em uma jaula, durante a produção dos fenômenos.

Não sou fera nem criminosa. – Desabafava.

Recomendamos a leitura e estudo da obra, associada às lições imorredouras de O Livro dos Médiuns.

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