Jornal Mundo Espírita

Abril de 2017 Número 1593 Ano 85

O terceiro peregrino

fevereiro/2017

Dois discípulos de Jesus viajavam, no mesmo dia em que se deu a ressurreição, para o povoado de  Emaús,  cerca de 11 km de Jerusalém.

Enquanto conversavam entre si, um outro peregrino aproximou-se e pôs-se a caminhar com eles, lhes perguntando: Que assunto é esse que comentam?

Eles pararam, com o rosto sombrio. Um deles, Cléofas, retrucou: Você é o único forasteiro em Jerusalém que ignora os fatos que aconteceram nestes dias?

Quais? – Disse-lhes ele.

Responderam: O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obra e em palavra, diante de Deus e diante de todo o povo: nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e O crucificaram. Esperávamos que fosse Ele quem iria redimir Israel. Mas, faz três dias que crucificaram-nO no madeiro infame! É verdade que algumas mulheres nos assustaram. Tendo ido muito cedo ao túmulo e não tendo encontrado o corpo, voltaram dizendo que tinham tido uma visão de anjos, que lhes disseram que Ele está vivo. Alguns dos nossos foram ao local e encontraram as coisas tais como as mulheres haviam dito; mas não O viram!

Ele, então, lhes disse: Insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram! Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em Sua glória? E, começando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a Ele dizia respeito.

Aproximando-se do povoado, o terceiro peregrino simulou ir mais adiante. Eles, porém, insistiram: Fique um pouco mais conosco, pois cai a tarde e o dia já declina. Entrou, então, e, uma vez à mesa, tomou o pão, abençoou-o, depois partiu-o e o distribuiu a eles. Então eles O reconheceram. Era Jesus! Nesse momento, porém, Ele desapareceu diante deles.

Disseram um ao outro: Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?

Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém. Acharam  reunidos os companheiros, que disseram: É verdade! O Senhor ressuscitou e apareceu a Simão! E eles narraram os acontecimentos do caminho e como O haviam reconhecido na partilha do pão.

Notadamente no meio cristão e, em particular, no meio espírita, muito se comenta sobre os acontecimentos com Jesus, Seus ditos e feitos. Também seguimos, peregrinos da eternidade, para novos rumos, às Emaús modernas. E quais os dois caminhantes, boa parte de nós não reconhecemos o Terceiro Peregrino que de nós se aproxima e junto se mantém. Nossos olhos permanecem fechados, mesmo com a repetência dos ensinos e a lembrança das profecias e dos fatos, que colhemos em nossas leituras, em nossos estudos.

Jesus nos lábios, necessariamente, não está no coração.

Jesus nos textos estudados, nem sempre está em nossa vivência diária.

É muito significativo o convite dos dois discípulos ao peregrino: Fique um pouco mais conosco, pois cai a tarde e o dia já declina.

Quando, ao meio-dia do pleno vigor da idade, da saúde, dos gozos da vida, da vivência dos interesses outros, não nos lembramos e nem reconhecemos o Divino Peregrino ao nosso lado.

Quando se apresentam declínios e óbices na vida ou quando as sombras dos problemas e das enfermidades chegam, eis que O convidamos para que fique conosco, para que adentre nossa casa.

Poucos somos os que convidamos o Meigo Peregrino, ainda no alvorecer da vida, para que fique conosco, pelo prazer do convívio, pelo contentamento dos ensinos, pelos laços de benquerença, sem nada pedir, apenas estar junto, desfrutar do momento, e aprender a servi-lO, servindo ao próximo.

Quando o Terceiro Peregrino reparte do pão das bênçãos e distribui dentre nós Suas dádivas, O reconhecemos, O louvamos, e dEle nos dizemos discípulos,  recordando, saudosos: Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?

No entanto, nem todos, gratos, mesmo após recebermos as bênçãos do pão da misericórdia, nos levantamos para as ações nobres da vida, vivendo, narrando os acontecimentos do caminho, como O reconhecemos na fração do pão do socorro, testemunhando, para que outros possam se beneficiar: É verdade! O Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!

Essa postura de convencidos, porém, não convertidos; de beneficiados, mas não reconhecidos; de socorridos, porém não gratos, não é de agora.

Por que esperar que caia a tarde e o dia decline para convidar o Terceiro Peregrino para estar conosco?

Será que precisaremos que o mal chegue ao excesso em nossas vidas para tornar compreensível a necessidade do bem e das reformas, conforme lemos em O livro dos Espíritos, de Allan Kardec, na resposta à questão 784?

Aprendemos que o Espiritismo é o Cristianismo redivivo; que Jesus é nosso Guia e Modelo, o ser mais perfeito que Deus ofereceu à Humanidade. Assim, cabe-nos bem conhecer a Doutrina Espírita para melhor vivenciarmos Jesus.

Ser cristão, ser espírita, é amar a Deus acima de todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos.

Afinal, somos cristãos com Cristo ou sem Cristo no coração?

Quando convidaremos o Terceiro Peregrino para que adentre nosso coração e ali se demore um tanto mais?

Pelas circunstâncias da vida, rendamo-nos à realidade presente e roguemos a Jesus, com unção: Fique um pouco mais conosco, pois cai a tarde e o dia já declina.

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