Jornal Mundo Espírita

Junho de 2019 Número 1619 Ano 87

O sentido e o valor da vida – uma proposta de Rudolf Eucken

julho/2017 - Por Clayton Reis

A Doutrina Espírita é um nível elevado de conhecimento, que abre nossa mente para sondar o desconhecido e para encontrar as razões lógicas e científicas, que explicam os misteriosos segredos da natureza universal que nos rodeia. Somente a lógica da razão e da ciência poderá nos conduzir ao desvendamento desses infinitos mistérios que envolvem a matéria física e espiritual da qual todos os seres vivos são detentores.

Nessa linha de pensamento, valemo-nos da lógica cartesiana de René Descartes quando afirmou: Penso, logo existo! Hannah Arendt, a célebre filósofa alemã destacou, com lucidez, em seu célebre livro A vida do Espírito que de fato, inclinamo-nos a concordar em que nenhuma parte do interesse de nosso corpo jamais aparece autenticamente, por si mesma; mas, se falamos de uma vida interior que se expressa em aparências exteriores, referimo-nos à vida da alma.

A maioria das pessoas vive a existência sem perquirir o sentido da vida. É mais cômodo e menos tormentoso questionar ou refletir sobre a célebre indagação que aflige as pessoas conscientes da realidade cósmica: De onde viemos, para onde vamos e quem somos? Vivemos a vida da aparência, onde tudo está apenas representado pelo que podemos sentir através das nossas sensações auditivas, visuais e tácteis, que são captadas através das nossas parcas e limitadas faculdades corporais, diante da nossa interação com a realidade exterior. E, por essa razão, Hannah adverte: O erro é o preço que pagamos pela verdade, e a semblância é o preço que pagamos pelo prodígio das aparências.

A vida material nos limita ao mundo das sensações. Na verdade, um mundo de alienações que Max Weber denominou de ascetismo do mundo interior. O tormento existencial, que nos traumatiza no momento da morte, é a negação de uma realidade que preferimos não aceitar, consistente na passagem do plano material para o espiritual. A descoberta de uma nova realidade existencial, nesse significativo momento, é a demonstração de um fato inconteste da existência material, a de que simplesmente vivemos a vida, sem nos preocuparmos com a inevitável transferência para uma nova realidade.

E, por essa razão, Joanna de Ângelis, em seu livro O Homem Integral afirmou com clareza, numa análise psicológica profunda, o homem teme a morte, porque receia a vida. Daí porque, ao viver sem pensar, o ser humano deixa de refletir sobre a sua existência, martirizando-se por intermédio de diversos motivos de escapes para explicar uma vida sem significado e quase sempre sem razões plausíveis que possam justificá-la.

Nessa linha de reflexão, Marcelo Gleiser, o célebre físico e escritor brasileiro, proclamou em seu livro A simples beleza do inesperado: O sentido da vida é viver em busca de sentido. É no ato da busca, na experiência do novo e do inesperado, que damos sentido à nossa existência.  E, nessa busca crítica e reflexiva da verdade, que nos liberta, encontramos, através do conhecimento, as novas realidades que nos cercam procurando compreender as razões por intermédio das quais elas foram construídas. Partindo do princípio universal da lei de causa e efeito, será necessário que nosso processo de investigação permita conhecer a realidade física e psíquica do mundo em que vivemos. E, nesse sentido, é preciso entender a linguagem viva e presente, existente na natureza, considerando que, segundo ensina o filósofo Heráclito, a natureza ama se esconder.

E, para conhecer o desconhecido, Erich Fromm, em seu livro Ter ou ser, nos ensina que conhecer significa penetrar através da superfície, a fim de chegar às raízes, e, por conseguinte, às causas; conhecer significa “ver” a realidade em sua nudez. Nenhuma doutrina filosófica, no curso da História da Humanidade, vislumbrou a necessidade de se desvencilhar das mitologias e dos dogmas que nos cercam para desvendar o véu que nos separa da vida material para a vida espiritual. O Espiritismo, através da lucidez da razão, inaugurou uma nova linguagem para esclarecer os mistérios da desencarnação, explicando a realidade somática que se encontra impregnada em nosso Espírito, em virtude de processos vivenciados anteriormente.

Nessa linha de pensamento, Rudolfo Eucken, Prêmio Nobel de Literatura de 1908, sintetizou uma nova realidade a ser examinada pela sociedade humana, em seu livro premiado: O sentido e o valor da vida. Na introdução, assinala: A procura do sentido e do valor da vida não é de modo algum óbvia; surge em épocas em que o indivíduo não mais discerne com clareza o conteúdo da vida que seu meio lhe apresenta. Realmente, o esvaziamento espiritual das vidas humanas, no milênio da ciência e da tecnologia, conduziu o ser humano a um materialismo exagerado; os prazeres do consumismo inibiram os voos do Espírito, fixando as pessoas na superfície material do planeta.

O sempre lúcido Espírito Joanna de Ângelis, ao fazer alusão a esse fato, nos adverte que há uma imensa defasagem entre o homo tecnológico e o ser espiritual que se apresenta desequipado de recursos para os grandes enfrentamentos propostos pelos mecanismos das suas próprias construções. Essa constatação foi vislumbrada e advertida por Eucken ao assinalar: Com efeito, o nosso tempo, em meio de obras geniais e de progresso incessante, é desprovido dum sentimento alegre e seguro da vida… O homem perde seus valores espirituais, na medida contrária em que desenvolve, de forma extraordinária, a tecnologia, que propicia nossa libertação das forças gravitacionais que nos mantêm prisioneiros na superfície do planeta, mas não foi capaz – em razão do conhecimento – de nos emancipar espiritualmente. Adquirimos capacidade de nos comunicar e nos deslocar nos espaços geográficos que nos separam materialmente, no entanto, estamos cada vez mais distantes e alheios à vida do próximo.

Coerente com essa conduta, os seres humanos procuram soluções nos bens da matéria, enquanto segmentos filosóficos justificam, mas não explicam as razões verdadeiras da vida do Espírito. Não se trata, todavia, de uma escolha voltada exclusivamente para o ascetismo existencial, mas, a de estabelecer conexões entre as realidades físicas e invisíveis com as quais convivemos. Todavia, os dogmas que marcaram milênios da existência humana, cujas ideias empíricas não nos conduziram à aceitação dessas realidades, se apresentam meramente virtuais. Por essa razão, Rudolfo Eucken, em seu livro, adverte: O principal ponto de apoio do trabalho espiritual continua sendo imutavelmente o mundo invisível, mas este só atingirá o seu pleno desenvolvimento se se apoderar da existência visível e a apropriar. O homem se torna prisioneiro de si mesmo. Não consegue elevar seu Espírito às alturas que pode e deveria alcançar. Ao desconhecer essa realidade, se entretém nos estreitos espaços que a materialidade propicia. E, ao se afastar da inexorável realidade espiritual, vive a vida da fantasia e do êxtase, que o limitam na busca da realidade existencial. Fragilizado e desprotegido, em razão da sua insignificância espiritual, o homem se torna escravo das inúmeras tormentas que o afligem, porque não aprendeu a se libertar das algemas que o agrilhoa à vida efêmera e passageira.

Finalmente, Rudolf Eucken, de forma conclusiva, afirma, espargindo a luz do seu conhecimento: Nada causa mais tensão e grandeza em nossa vida do que esta luta em que entra em jogo não apenas a felicidade do indivíduo, mas, sobretudo a manutenção da vida do espírito no domínio da humanidade. Somente assim a nossa vida adquire, no fim de contas, um sentido e um valor. Através dessas lições, Eucken se inscreve no rol dos que construíram, ao lado de outros, o projeto de libertação do homem, na direção do conhecimento da verdade que nos cerca, criando pontes de ligações da pessoa com o Espírito. Este é o momento decisivo, nessa fase de transição planetária em que a sociedade humana vive. Será capaz de propiciar a sua libertação na direção do verdadeiro valor do sentido da vida, bem como do conhecimento e aceitação do fenômeno da morte.

 

Referências bibliográficas:

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

__________A vida do Espírito. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

EUCKEN, Rudolf. O sentido e o valor da vida. Rio de Janeiro: Delta, 1962.

FRANCO, Divaldo Pereira. O despertar do Espírito. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2000.

__________O Homem Integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1990.

FROMM, Erich. Ter ou Ser. Rio de Janeiro: LTC – Livros Técnicos e Científicos, 1987.

GLEISER, Marcelo. A simples beleza do inesperado. Rio de Janeiro: Record, 2016.

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