Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

O Schindler brasileiro

junho/2019 - Por Mary Ishiyama

Possivelmente poucos saibam mas, além do Anjo de Hamburgo (Aracy Guimarães Rosa), que foi destaque nesta coluna, na edição de  julho de 2014, temos um compatriota conhecido como o Schindler brasileiro.

Nas décadas de 1930 e 1940 Luís Martins de Souza Dantas era embaixador em Paris, na França, e concedeu centenas de vistos de entrada no Brasil a judeus e outros perseguidos pelo regime nazista, contrariando ordens das circulares secretas do Presidente.

Ambos têm seus nomes no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto, em Jerusalém. É um prêmio instituído pelo Memorial do Holocausto como reconhecimento a todos os não judeus que, durante a Segunda Guerra Mundial, salvaram vidas de judeus perseguidos pelo regime nazista.

Luís Martins de Souza Dantas, conhecido como Souza Dantas, filho do conselheiro Manuel Pinto de Souza Dantas Filho e de Maria Luiza Martins de Souza Dantas, neto do também conselheiro Manuel Pinto de Souza Dantas, conhecido como Senador Dantas, nasceu em 1876, no Rio de Janeiro.  Graduou-se, em 1896, em Direito, pela Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio.  Foi Adido em Berna, Suíça; Segundo-Secretário em São Petersburgo, Rússia, e em Roma, Itália; Primeiro-Secretário em Buenos Aires, Argentina; Chefe Interino do Ministério das Relações Exteriores.

Assumiu a chefia da Embaixada Brasileira em Paris, em dezembro de 1922 permanecendo até 1944.  Em 1945, chefiou a Delegação do Brasil na Conferência de Paz, na mesma capital.

Nos anos 20, a Embaixada Brasileira na França era a mais importante e muito disputada. Paris era a capital política e intelectual do mundo. Souza Dantas gostava da noite, participava e promovia jantares e festas, era o que se pode chamar de bon vivant.

Ele transitava com muita facilidade por vários países, era amigo de reis e rainhas, de Santos Dumont, de jornalistas, empresários, intelectuais, artistas, mas transitava, também, entre os mais pobres, mais necessitados.

Em depoimento, o embaixador Paulo Carneiro diz que, às vésperas de deixar Paris, Souza Dantas visitou várias pessoas a quem ajudava, em sigilo, regularmente, entregando-lhes uma quantia de dinheiro um pouco maior do que a habitual, considerando os tempos difíceis e que ele não estaria mais ali.

A historiadora e professora da Universidade de São Paulo, Maria Luiza Tucci Carneiro (O anti-semitismo na era Vargas e Brasil, um refúgio nos trópicos, arquivo digital sobre o holocausto www.arqshoah.com.br), revela que esse homem não agiu por impulso. Ele se colocou em risco, bem como sua carreira, em nome do que acreditava ser o correto:  ajudar àqueles que o buscavam.

 

Concedeu pelo menos oitocentos vistos, mais de quatrocentos para judeus. Igualmente auxiliou outros grupos perseguidos, como homossexuais, ciganos, negros e ativistas de esquerda.

Assim procedeu até a Embaixada Brasileira ser invadida, vindo a sofrer sanções por parte dos alemães e se tornou alvo de um inquérito administrativo do Itamaraty.

Sua ajuda nos vistos não foi um caso isolado. Koifman diz que Souza Dantas era considerado um dos mais importantes e competentes diplomatas brasileiros de seu tempo. Toda sua vida diplomática esteve pautada em apaziguar questões nevrálgicas, em negociar empréstimos, lutou por salvaguardar os direitos dos brasileiros no Tratado de Versalhes.

Cuidava dos brasileiros que viviam na França. Brício de Abreu publicou no Diário de Notícias1 que para os brasileiros que vivem em Paris, Souza Dantas não é o embaixador importante e burocrata, é o irmão zeloso, cheio de cuidados e interesse, cuidando desde o mais simples caso até o mais complicado.

Ajudou em negociações, em 19262, sendo o relator de quase todas as questões sobre minorias, algumas de grande importância, como as relativas à Lituânia, formulando conclusões desde logo aceitas pelos próprios interessados, que louvaram sem reservas o alto senso de imparcialidade e de justiça, revelado pela solução dada ao problema.

Assis Chateaubriand1 disse que Souza Dantas era um homem público na acepção da palavra. Amava seu país. Gastou todo seu dinheiro de representação do Brasil no Exterior. Enquanto os outros poupavam e poupavam o dinheiro da representação, ele vivia a descoberto, usava-o naquilo que era o seu dever.

Desencarnou em 16 de abril de 1954, em Paris, França. No seu inventário listava poucos bens, vivia de sua aposentadoria, usou tudo o que tinha para auxiliar os necessitados que passaram por seu caminho.

Em 2015, em evento promovido pela Confederação Israelita do Brasil – CONIB, para marcar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, Aracy Guimarães Rosa e Luís Martins de Souza Dantas foram reconhecidos como heróis pela nação pela primeira vez.

 

Referências:

  1. KOIFMAN, Fábio. Livro Quixote nas trevas: o embaixador Souza Dantas e os refugiados do nazismo. Rio de Janeiro: Record, 2002.

2.FRANCO, Álvaro da Costa (Org.). Em meio à crise: Souza Dantas e a França ocupada, 1940 – 1942. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, Centro de História e Documentação Diplomática, 2008.

3.http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/notas-a-imprensa/7583-dia-internacional-em-memoria-das-vitimas-do-holocausto

4.https://www.terra.com.br/noticias/mundo/conheca-os-brasileiros-que-salvaram-perseguidos-pelo-nazismo,9e69d82b8d88c310VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html

  1. https://piaui.folha.uol.com.br/o-schindler-brasileiro/
Assine a versão impressa
Leia também