Jornal Mundo Espírita

Fevereiro de 2021 Número 1639 Ano 88

O Relatório Delors – Os Quatro Pilares da Educação

fevereiro/2011 - Por Coordenadoria de Estudo da Doutrina Espírita

Recordando algumas citações já feitas nesta coluna: “O objetivo essencial do Espiritismo é o melhoramento dos homens. Não é preciso procurar nele senão o que pode ajudá-lo para o progresso moral e intelectual” (Allan Kardec, O Espiritismo em sua Expressão mais Simples – Resumo dos ensinamentos dos Espíritos, item 35). Ainda: “Só a educação poderá reformar os homens” (O Livro dos Espíritos, item 796). E, por fim: “O processo da educação deve sustentar-se em bases dinâmicas, jamais estacionando no já feito, embora os resultados positivos conhecidos. Os mecanismos da educação devem estar sempre receptivos às novas contribuições do conhecimento, de forma a evoluir e penetrar mais profundamente nas raízes das necessidades dos educandos.” (Vianna de Carvalho – Atualidade do Pensamento Espírita – q. 92).

Joanna de Ângelis, afinada com o propósito de Kardec, no livro Diretrizes para o Êxito, demonstra a preocupação que todos devemos ter com relação ao aprimoramento das ferramentas e métodos educacionais. Já no primeiro capítulo da referida obra, frisa a ilustre mentora:

Renovam-se, periodicamente, no mundo, os métodos pedagógicos, em razão da conquista do conhecimento nas suas diferentes áreas.

Nos últimos anos, a valiosa contribuição da psicologia infantil abriu espaços para mais profundo e claro entendimento em torno das possibilidades de aprendizagem da criança, ensejando novas técnicas para a educação.

Merecem especial destaque o Relatório Jacques Delors, encomendado pela UNESCO e, posteriormente, a proposta do eminente educador francês Edgar Morin, através dos expressivos quatro pilares de uma educação para o século XXI.

Mas o que seria o Relatório Delors?

Cumprindo um compromisso de ampliar nossos horizontes quanto aos avanços da teoria da aprendizagem, cabe-nos trazer informações que consideramos valiosas sobre o que se discute hoje, no mundo, em matéria de educação.

Nos anos posteriores à Segunda Grande Guerra o planeta entrou em franco desenvolvimento tecnológico, científico e econômico. O frenesi, resultante do enfrentamento do novo, motivou a população do planeta a todo o tipo de aventura na busca da satisfação dos sentidos, atitude esta que, até aquele momento histórico, era sistematicamente reprimida. Embora o primeiro dos resultados percebidos tenha sido algo equiparado à liberdade, logo se percebeu o crescimento conjunto de fatores nocivos, proporcionadores de desigualdade social, do vício, da alienação.

Assombrada com a realidade que se estava consolidando, a Unesco – braço das Nações Unidas encarregada do desenvolvimento da cultura, educação e ciência – iniciou uma das primeiras grandes tentativas globais de diagnóstico dos problemas, como passo inicial para o delineamento das possíveis soluções. No começo dos anos 1970 a Unesco encarregou Edgar Faure, advogado, Ministro da Educação e ex-Primeiro Ministro Francês, de chefiar uma equipe de pesquisadores voltados a essa tarefa. O resultado foi divulgado em 1972, mediante a publicação do Relatório Faure http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001297/129766por.pdf, que ganhou reconhecimento universal com o nome “Aprender a Ser”.

A inovação apresentada pelo aludido documento foi frisar que, ao contrário do que surpreendentemente se acreditava naquela época, o ser humano é naturalmente voltado ao aprendizado, podendo sonhar, criar e crescer em todas as fases da existência. Estabeleceu o referido relatório que o desafio primeiro do educador contemporâneo é estabelecer condições de manter no aprendiz o desejo de transformação, reformulação e crescimento, mediante a consciência de que o ser humano jamais está pronto, mas sempre em evolução. Em um dos momentos, o referido documento é incisivo:

A partir de agora, a educação não se define mais em relação a um conteúdo determinado que se trata de assimilar, mas concebe-se, na verdade, como um processo de ser, que, através da diversidade de suas experiências, aprende a exprimir-se, a comunicar, a interrogar o mundo e a tornar-se sempre mais ele próprio.

Em 1993, a Unesco encampou um novo intento, ainda mais ousado, com vistas a fixar as orientações do processo educativo no novo milênio. Para a coordenação dessa nova empreitada foi nomeado Jacques Delors, ex-ministro da Economia Francês, presidente da Comissão Europeia por vários mandatos, que, à frente de uma equipe ainda mais completa que a primeira, investigou com profundidade o que estava sendo feito e quais seriam as orientações para o futuro. Tomando por ponto de partida o Relatório Faure, a pesquisa foi concluída e divulgada em 1996, com a apresentação do Relatório Delors (http://unesdoc.unesco.org/images/0010/001095/109590por.pdf), chamado “Educação: Um tesouro a descobrir”, que passou a ser considerado fundamento primeiro de todo programa sério de organização e reflexão sobre a temática da aprendizagem.

Frisava o relatório que, historicamente, os educadores vinham dando ênfase exagerada à aquisição do conhecimento, mediante o repasse de informações que, de alguma forma, talvez, um dia, servissem a algum propósito do educando. A novidade do Relatório Delors foi justamente estabelecer que a educação merecia ser abordada por outros prismas, enumerando as quatro metas do milênio: (1) aprender a conhecer, (2) aprender a fazer, (3) aprender a conviver e (4) aprender a ser. Assim, começaremos uma série de textos a respeito do relatório Delors e de como os objetivos da educação para o Novo Milênio podem influenciar a maneira como conduzimos o estudo dentro das Instituições Espíritas.

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