Jornal Mundo Espírita

Maio de 2019 Número 1618 Ano 87

O quebra-cabeças e o furacão

abril/2017 - Por Andrey Cechelero

Se há na Terra menos alegria do que sofrimento, é que este é o instrumento por excelência da educação
e do progresso, um estimulante para o ser, que, sem ele, ficaria retardado nas vias da sensualidade.
A dor, física e moral, forma a nossa experiência. A sabedoria é o prêmio.
Léon Denis – O problema do ser, do destino e da dor – cap. XI

 

Pai, hoje você pode me ajudar a montar aquele quebra-cabeças de peças pequenas que eu ganhei no aniversário?

Acredita-se que o cartógrafo inglês John Spilsbury tenha sido o inventor, o pai do que conhecemos hoje como quebra-cabeças.

Por volta de 1760, com o intuito de ajudar as crianças a aprender mais sobre geografia, Spilsbury colou mapas sobre finas placas de madeira e, com um estilete, recortou os países em suas fronteiras, originando assim várias peças.

Com esse novo método, os pequenos aprendiam a identificar os territórios e sua localização enquanto se divertiam.

Os anos se passaram e os jigsaw puzzles (pois eram cortados através de uma serra), ou apenas puzzles como são conhecidos, viraram verdadeiros desafios de concentração, persistência e, ao mesmo tempo, uma forma de entretenimento para crianças e adultos.

Estudos se multiplicam, mostrando ainda mais: revelam que a brincadeira ajuda a desenvolver diversas esferas da inteligência humana. Além disso, pode proporcionar uma excelente integração entre as pessoas, por ter caráter colaborativo.

*   *   *

Pai, hoje você pode me ajudar a montar aquele quebra-cabeças de peças pequenas que eu ganhei no aniversário?

Um convite irrecusável, de filho para pai.

Era uma ótima oportunidade de, após a jornada de trabalho, passarmos algum tempo juntos, colocando a conversa em dia. E mais: de nos divertirmos com algo que não fosse eletrônico nem envolvesse uma bola e muita correria.

Confesso que me assustei um pouco quando vi as dimensões da caixa – muito pequena – e o número 500 escrito sobre ela. Fiquei preocupado. Soube que a tarefa não seria nada fácil. E as peças? Minúsculas! Algumas delas muito parecidas, com diferenças quase imperceptíveis.

Acho que essa é igual a essa outra, filho. Olha, essa aqui veio com algum problema, não tem nada impresso. Não. Não havia nada errado com as peças. O problema era eu.

Quanto tempo levaremos!?  – Pensei. A figura para ser montada era igualmente complexa, cheia de detalhes. Senti-me ansioso e só pensava em quando aquilo ficaria pronto finalmente. Vivemos no mundo das tarefas que precisam ser cumpridas neste ou naquele prazo, das metas a serem batidas, dos objetivos no alto da montanha a serem alcançados! Chegar e chegar o quanto antes!

Começamos. Dividimos as tarefas por setores. Ele ficou responsável por uma parte em cima e eu por outra mais embaixo, repleta de escritos.  Nosso objetivo estava ali à frente: conseguir enxergar algo harmônico naquele quadro despedaçado.

Vez ou outra nos ajudávamos:

Papai, você me ajuda a encontrar uma pecinha mais ou menos desse jeito?

Filho, você viu um pedaço vermelho cortado por um risco branco no meio?

Esse? Não, quase esse. Esse não cabe. Já tentei…

Trocávamos peças, trocávamos comemorações a cada novo fragmento encontrado e encaixado com prazer no lugar certo, finalmente!

Havia celebrações mais efusivas que outras, pois devido à dificuldade da tarefa, eu – que fique claro – chegava a levar uns cinco a dez minutos para encontrar uma única peça – danada! – que teimava em não aparecer.

Ele achava engraçado. Que exagero! – deve ter pensado. Porém, ao mesmo tempo ficava feliz por perceber que eu estava curtindo o desafio.

Entre um silêncio e outro surgiam algumas conversas interessantes. Falamos sobre a expectativa do sexto ano, sobre as férias que estavam terminando, sobre o desejo de se tornar um youtuber e vários outros assuntos.

E assim se passaram quase noventa minutos. Anunciei o fim dos trabalhos por aquela noite. Podemos continuar amanhã? Estava exausto, até um pouco tonto, confesso, embora me sentindo bem. Como se o cérebro tivesse feito uma viagem pelo espaço, flutuando, vislumbrando paisagens que não havia visto antes.

Olhamos para o resultado parcial: Nem 20% do total… Faltava muito chão ainda. O objetivo estava longe! Quando será que íamos enxergar a figura pronta?

Deixamos nossa inacabada obra ali, sobre o balcão do quarto dele, com todo cuidado do mundo. As partes prontas e o restante das peças já semiorganizadas para a continuidade.

Passou a noite. Passou a manhã seguinte. Cheguei para o almoço.

Meu filho aguardava com ar de preocupação próximo à porta.

Pai… preciso contar uma coisa.

O que aconteceu, filho?

Ela destruiu tudo, pai! Toda a sua parte!

Levei um tempo para entender o que estava acontecendo. Ela quem? Destruiu o quê? O que era assim tão grave?

O quebra-cabeças, pai…

Foi então que tudo fez sentido.

Enxerguei a cena em minha mente. Quando finalizamos nosso trabalho do dia anterior, deixando tudo organizado, esquecemos de um detalhe: que temos em casa um pequeno furacão de cinco anos de idade em forma de gente: a irmã mais nova, a filha sapeca, a Incrível e Terrível Destruidora de Quebra-Cabeças

E que prazer ela deve ter sentido ao ter tocado todas aquelas pecinhas de papelão, fazendo-as escorrer por suas mãozinhas fofas. Depois, atirando-as para cima, de punhado em punhado, percebendo-as cair de volta feito chuva sobre sua cabeça. Que delícia…

Uma frase ecoou dentro de mim: Toda sua parte! Claro, tinha que ser a minha parte. Tudo aquilo era uma lição para mim, para mais ninguém.

Rimos. Olhei para ela, a acusada, que não tinha a mínima ideia do que havia feito, obviamente, e não tive coragem de falar nada. Fui correndo dar um abraço apertado. Apenas isso.

Lembrei-me das belas mandalas tibetanas, obras de arte multicoloridas construídas com areia. Exigem concentração, tempo e maestria. São horas e horas de trabalho de muitos monges para finalizar cada uma delas.

Muitos de nós, ocidentais, ficaríamos ensandecidos para tê-las adornando nossas paredes, mesas ou mesmo expostas em galerias de arte. Porém, o que fazem eles quando terminam? Destroem-nas. Atiram toda areia no rio mais próximo como forma de desejar que a paz e a cura se espalhe pelo mundo. É uma forma simbólica de representar a impermanência da vida, igualmente.

Isso me fez pensar que nosso maior objetivo ali não era vislumbrar a figura pronta do quebra-cabeças. Quem sabe isso seja mais um prêmio ao final apenas – nada mais. Porém, há muitos outros objetivos pelo caminho – se quisermos utilizar esta palavra. Temos que aprender a vislumbrar as belezas da estrada ao invés de ficar apenas sonhando com a perfeição da chegada.

O que ganhamos no processo? Quanto crescemos por nos permitirmos tentar, errar, acertar, errar de novo e assim por diante.

Sonhamos tanto com a ideia de um paraíso, de um mundo ideal, mas não vemos que ele é construção e não prêmio apenas.

Ganhei a companhia mais agradável do mundo naqueles noventa minutos; ganhei o tempo que não volta mais; ganhei a possibilidade de não dizer, como pai: Passou tão rápido!  Ganhei alguns minutos com um grande amigo; ganhei concentração, foco, e mais tantas outras coisas…

Por fim, ambos aprendemos a lição do recomeço. Vamos tentar de novo, vamos conversar de novo, nos ajudar mais uma vez. Vamos adiante, fazer o quê? Ainda quero ver o Darth Vader bonito, completo, olhando para mim!

Só que desta vez, vamos fechar a porta do quarto quando terminarmos.

 

Assim, a vida do ser consciente é uma vida de solidariedade e liberdade. Livre dentro dos limites que lhe assinalam as leis eternas, faz-se o arquiteto do seu destino. O seu adiantamento é obra sua.

Léon Denis – O problema do ser, do destino e da dor – cap. XI

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