Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2018 Número 1613 Ano 86

O que quer que eu faça?

novembro/2018

Allan Kardec, codificador da Doutrina Espírita, ensina1: Numa palavra, primeiro que o torneis espírita, cuidai de torná-lo espiritualista. (…)Falar-lhe dos Espíritos, antes que esteja convencido de ter uma alma, é começar por onde se deve acabar, porquanto não lhe será possível aceitar a conclusão, sem que admita as premissas.

Sem o devido convencimento de uma certa ideia, podemos memorizar o seu conteúdo, mas o simples conhecimento em nada influenciará nossas crenças dominantes.Podemos ser vencidos pelo inusitado de um fato que confirme uma certa ideia que não a nossa, como, por exemplo, os notáveis feitos de Jesus, curando o que era tido por impossível e, mesmo assim, não alterar enraizados conceitos, simplesmente vermos nessas ocorrências uma mágica, não reconhecendo como uma realidade nova. Surpresos, mas não convencidos.

São nossas crenças que alimentam nossos valores existenciais, que nos formatam o comportamento. Formam os nossos paradigmas.

Mortalidade ou imortalidade caracterizam posicionamentos pessoais, segundo sua própria razão.

Imortalidade é tema de magna importância aos indivíduos, verdade existencial que deveria ser aprendida junto com o b a bá. Não fazendo parte de nossas cogitações, se faz tema alheio aos propósitos de vida,vigorando os padrões comuns vigentes no contexto do meio que vivamos.

Para dar começo ao redescobrimento do que somos – seres imortais – precisamos, conforme lição de Allan Kardec, trabalhar o nosso convencimento a respeito, formando entendimento segundo as condições de aprendizado que tenhamos.

A primeira condição, no entanto, é que tenhamos interesse no tema, estimulados pelo desejo, que decorre de uma certa necessidade identificada, que nos motiva e desperta a vontade, e nos faz mais receptivos ao conhecimento buscado.

Os pensamentos que escolhemos pensar são as ferramentas que usamos para pintar o quadro de nossas vidas, anotou Louise Hay, reconhecida escritora americana.

O convencimento é que impulsiona as transformações decorrentes, paulatinamente. Mudada certa crença, naturalmente advém mudança nos valores até então alimentados e, por conseguinte, os comportamentos e atitudes resultantes vão sendo remodelados.

Espírita com atitudes e comportamentos inadequados às proposições espíritas? É espírita que não está convencido suficientemente dos postulados espíritas. Logo, não iniciou ainda, nesse ou naquele aspecto, sua transformação. Transformação sem base de sustentação na aceitação e adoção do aprendizado, não acontece. Ensaia-se, mas não se firma.

Reconhece-se o verdadeiro espírita pelas suas transformações morais e pelo esforço que emprega em domar suas más inclinações, ensina Kardec.2

Pensando, sentindo e agindo com assertividade e determinação continuada, vai acontecendo a transição do convencimento, que leva à transformação, e dessa para a esperada conversão, cessando ciclos de erro gradativamente. E nos veremos, um dia, integrados ao todo maior, e a tudo que combine com nossos novos valores. Então, o presente será a certeza do futuro, igualmente feliz.

Sábio ensino de Sidarta Gautama, o Buda: Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo.

Precisamos nos convencer de que os pensamentos nos fizeram como nós somos e os nossos pensamentos farão de nós aquilo que seremos daqui por diante.

Alcançar o entendimento e a adoção da imortalidade é uma alta conquista intelectual do ser, é o autodescobrimento.

Viver como ser imortal que somos, é a iluminação da consciência, a autoiluminação.

Bela e oportuna recomendação, presente no Talmud:

Presta atenção em teus pensamentos, pois eles se tornarão palavras.

Presta atenção em tuas palavras, pois elas se tornarão atos.

Presta atenção em teus atos, pois eles se tornarão teus hábitos.

Presta atenção em teus hábitos, pois eles se tornarão o teu caráter. 

Presta atenção em teu caráter, pois ele determinará o teu destino.

Saulo de Tarso, convencido das Leis Divinas, empreendia dura luta pela transformação pessoal e a de seu povo, sem olhos, no entanto, para ver a compaixão por entre as linhas do rigor da Lei que praticava, e identificar o amor no espírito da letra que professava, seguindo fiel a Deus, segundo seus pensamentos e entendimento.

Em glorioso meio-dia, às portas de Damasco, sob luz mais intensa do que a do sol a pino, ele viu transmudar todos os seus pensamentos, ressignificando suas crenças e valores, remodelando sua visão de Deus e de Suas leis de amor, ao se deparar com Jesus, em Espírito e Verdade, que veio pessoalmente alçá-lo, de um só salto, do convencimento à conversão instantânea, passando por transformação essencial relâmpago, que lhe atingiu  a nascente interior do ser, resultando num novo homem, a partir dali: o grande Apóstolo dos gentios, Paulo.

Depois de ter inquirido: Quem és, Senhor? E ouvir: Eu Sou Jesus, a quem tu persegues; o convertido, humildemente, indagou: Que queres que eu faça?

Há um tempo para aprender, e sempre é tempo para servir.

É chegado o nosso tempo de perguntarmos, individualmente e na clareza de uma consciência imortalista lúcida:

Jesus, Divino Mestre, o que o Senhor quer que eu faça?

 

Referências:

  1. KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. 66. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2000. pt. 1, cap. 3, item 19.
  2. ______. O Evangelho segundo o Espiritismo. 118. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. 17, item 4.
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