Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

O que é evangelizar?

novembro/2014 - Por Cezar Braga Said

O que Jesus quer não é um culto pomposo; não é uma religião sacerdotal, rica em cerimônias
e em práticas que asfixiam o pensamento, não; é um culto simples e puro, todo de sentimento,
consistindo na relação direta, sem intermediário, da consciência humana com Deus, seu Pai.

Léon Denis –  Cristianismo e Espiritismo – cap. IV

 

Numa visão simplista e tradicional, evangelizar é transmitir informações sobre o Evangelho, de um modo geral.

Cada denominação religiosa, que se alicerce no Cristianismo, encontrará caminhos para que essa transmissão se dê a contento, seja ela dirigida a crianças, adolescentes ou adultos.

Do ponto de vista do Espiritismo, uma leitura possível é aquela que defende que evangelizar não deve ser apenas transmitir, pois isso nos coloca pedagogicamente dentro de uma proposta tradicional, algo que é incompatível com a visão de vanguarda trazida pela Doutrina Espírita para o campo educacional.

Seu vanguardismo no que diz respeito a crianças e adolescentes pode ser percebido por algumas das seguintes posições e informações:

– o educando é um ser reencarnado, um Espírito imortal, dotado de inúmeras potencialidades latentes precisando ser exploradas para o seu desenvolvimento. É um ser que também possui qualidades, que podem ser aperfeiçoadas e imperfeições que precisam ser compreendidas e transformadas;

– o educando aprende melhor de forma ativa, interativa, quando mobilizamos os seus sentidos e convidamos seu corpo a estar presente nas atividades;

– a evangelização espírita não endossa a competição para a superação do outro, mas a cooperação para a superação de si mesmo, do orgulho e do egoísmo que ainda nos caracteriza;

– a arte, em sua variada gama de expressões, é um veículo por excelência para explorarmos os diferentes conteúdos;

– o educando é permanentemente convidado em sala e fora dela, nas inúmeras atividades propostas pelo programa, a se relacionar com quem tem menos bens materiais, doar algum brinquedo, alimento, roupa, atenção e carinho a quem viva em condições delicadas, num abrigo ou numa instituição para crianças, idosos etc. Nesse exercício vai desenvolvendo a empatia e a solidariedade;

– o objetivo não é formar uma nova geração de espíritas, mas contribuir substantivamente, até onde seja possível, para a formação do homem de bem, de um ser inteligente que use seus conhecimentos para o bem da coletividade;

– o educando é convidado a refletir sobre a sua individualidade e suas múltiplas relações, usando a lógica e nunca aceitando verdades prontas, fechadas e acabadas;

– a figura de Jesus, dos vultos do Cristianismo e da História do Espiritismo é o tempo todo humanizada, mostrando a dimensão amadurecida de cada ser que nos guia e orienta, mas a ênfase recai sobre a natureza humana de cada um, de modo que o evangelizando sinta ser possível praticar a caridade e não a veja como prática exclusiva de seres superiores e angelicais;

– o evangelizador percebe que, sem a sua própria e permanente evangelização, não conseguirá sensibilizar nem convencer seus evangelizandos, pois suas palavras não terão o calor da verdade e não alimentarão aqueles que o ouvirem.

Nesta perspectiva, evangelizar, à luz do Espiritismo, será sempre problematizar, colocar o evangelizando para pensar e repensar sobre os fatos sociais, as leis Divinas e o que tudo isso tem a ver com a sua vida, propondo e construindo com as crianças e jovens, pequenas e possíveis ações que possam fazer alguma diferença no contexto em que vivam.

É preciso que estejamos atentos de modo a mantermos a singularidade desse olhar espírita para a evangelização, atenção que se traduz em tempo para estudar, trocar, meditar, rever, revendo-nos em nossas múltiplas relações.

Será sempre ler, interpretar e viver Jesus, com as lentes oferecidas por Allan Kardec, nas belas e profundas páginas de toda a Codificação.

Assine a versão impressa
Leia também