Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

O programa de Paulo, o Apóstolo

maio/2013 - Por Sandra Borba Pereira/RN

Na obra Ressurreição e Vida, de Leon Tolstoi, psicografia de Yvonne do Amaral Pereira e publicação da FEB, encontramos, em seu primeiro capítulo, singular narrativa do escritor russo em torno da figura de Zaqueu, aquele que subiu ao sicômoro, em Jericó, para ver Jesus passar.

Além de esclarecimentos sobre o significado transcendental do encontro com o Mestre, a permanência d’Ele em sua vivenda e das suas atividades quando depois da crucificação, Zaqueu informa sobre sua busca de inserir-se na causa do Evangelho, afirmando que buscara os discípulos, frequentara a granja de Betânia dos irmãos Lázaro, Maria e Marta, mas sem sucesso quanto a ser convidado para integrar o grupo dos continuadores da Boa Nova.

No entanto, o ex-publicano (havia deixado a vida aduaneira, repartira de fato seus bens, entregara terrenos aos pobres) possuía ardente vontade de seguir a Jesus, viver a Sua mensagem sem que encontrasse naqueles dias, o caminho a ser percorrido.

No texto acima citado, Zaqueu, ainda segundo Leon Tolstoi, ouve dizer, algum tempo depois, que haveria em Jerusalém uma fala do antigo perseguidor do Cristianismo, Paulo de Tarso, já convertido pelo próprio Cristo às portas de Damasco. Corre a escutá-lo, chorando junto com os  demais ouvintes, comovido  pela palavra do Apóstolo dos gentios e consegue, para sua alegria e futuro, uma conversação com o ex-doutor da Lei.

Exortado por Paulo a não ficar apenas na adoração inativa, a buscar a vivência dos valores evangélicos, Paulo lhe apresenta o que poderíamos denominar uma espécie de programa a ser vivenciado por aquele que deseja a união definitiva com o Mestre e Senhor Jesus. Abaixo transcrevemos as recomendações paulinas que Zaqueu, alma já tocada pelo desejo de ser bom, seguiu em sua jornada numinosa:

 Nenhum de nós será tão pobre que não possa favorecer o próximo com algo que possua para distribuir: o pão, o lume, o agasalho, o bom conselho, a advertência solidária, a assistência moral no infortúnio, o ensinamento do Bem, a lição ao ignorante, a visita ao enfermo, o consolo ao encarcerado, a esperança ao triste, o trabalho ao necessitado de ganhar o próprio sustento honrosamente, a proteção ao órfão, o seu próprio coração de amigo e irmão em Cristo, a prece rogando aos Céus bênçãos que aclarem os caminhos dos peregrinos da vida, o perdão àqueles que nos ferem e nos querem mal…1

Como observamos, Paulo apresenta recomendações que constituem um roteiro de vida para todo aquele que anseia pela vivência do Evangelho.

Ao receber o convite de Jesus, Desce Zaqueu, importa que me hospedes hoje em tua casa, o cobrador de impostos repudiado pelos romanos e odiado pelos judeus,  desceu de suas ilusões, de seu orgulho e egoísmo, para hospedar uma nova compreensão acerca da Vida e seus reais objetivos.

Superando a si próprio e estabelecendo como meta para sua vida a total entrega à causa do Evangelho, Zaqueu dedicou o restante daquela existência física à prática do Bem.

Rezam as tradições que saiu pelo mundo a pregar, a vivenciar o programa de Paulo de inspiração crística, tendo chegado, ao que parece, às terras das Gálias (hoje França), levando a palavra e o exemplo, unindo almas ao Senhor com seu trabalho de dedicação e amor.

Esses são dias difíceis em que nos demoramos no alto de nossas ansiedades, preocupações materiais e atitudes repletas de orgulho, vaidade e egoísmo. Jesus, porém, continua passando pelos caminhos de nossa vida nos chamando: Desce…  O que Ele deseja é que, semelhantemente à atitude de Zaqueu, possamos descer das ilusões e abrir o domicílio da própria alma para recebê-lO, encontrando definitivamente o roteiro a palmilhar, rumo ao nosso compromisso de reforma íntima.

 

Bibliografia:

TOLSTOI, Leon. Ressurreição e Vida, psicografia de Yvonne do Amaral Pereira, 11. ed. FEB, 2012.

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