Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2019 Número 1623 Ano 87

O programa de Abigail

fevereiro/2010 - Por Rogério Coelho

 “A alma da Vida se chama: Caridade.”
– Joanna de Ângelis

 

Quatro anos se passaram, mas ele lembrava-se bem do magnífico e decisivo acontecimento que se deu nas escaldantes areias de pleno meio-dia no deserto da Síria, às portas da cidade de Damasco de onde apontavam as cúpulas dos casarios da periferia…

Não obstante submeter-se por largos períodos às profundas elucubrações e meditações em torno da Mensagem Nova, Saulo, agora transformado em Paulo, ainda se encontrava com a mente turbilhonada por imensas perplexidades. Antes, porém, que ele iniciasse os primeiros labores apostólicos, sua terna e meiga noiva Abigail apresentou-se à sua visão espiritual e teceu carinhosamente com os fios fortes de seu conhecimento e lucidez, o Programa que o seu bem-amado adotaria como lema para todo o sempre:

AMAR, TRABALHAR, ESPERAR, PERDOAR!…

Amar! – É o meio mais indicado para adquirir a perfeita compreensão dos desígnios do Cristo.   Ele aconselha o amor aos próprios inimigos.

Entretanto, quão difícil é semelhante realização! Penoso, testemunhar dedicação, sem o real entendimento de todos. Como fazer para que a Alma alcance tão elevada expressão de esforço com Jesus?

Trabalhar! – É a resposta. Mister realizar a obra de aperfeiçoamento interior. Todavia, embora acalentemos sadias esperanças, via de regra elas se convertem em dolorosas perplexidades. Que providência adotar contra o desânimo destruidor?

Esperar! – é a solução. A Alma deve estar pronta para atender ao programa divino, em qualquer circunstância, extreme de caprichos pessoais.   Saber aguardar o porvir com as bênçãos de Deus; confiar em Sua misericórdia; não desdenhar as oportunidades do serviço redentor.

Sim, indispensável se faz amar, trabalhar e esperar; entretanto, e os homens?  Em toda parte medra a confusão nos Espíritos; as criaturas anestesiadas pelos vapores narcotizantes dos interesses imediatos, horizontais, subalternos, parecem igualmente desinteressadas da Verdade e da Luz.   Como agir no âmbito de forças tão heterogêneas?   Como conciliar as grandiosas lições do Evangelho com a indiferença dos homens?

Perdoar! – É a trilha a seguir. Os caminhos evolutivos ficam menos rudes quando acolchoados com as forragens macias do perdão!

Completou-se, assim, a Revelação da doce Mensageira de Jesus ao coração dorido do convertido de Damasco. Em seguida, seu vulto luminoso pareceu diluir-se como se fosse feito de graciosos fragmentos de aurora.

Empolgado pela maravilhosa Revelação, Paulo viu-se só, sem saber coordenar as expressões do próprio deslumbramento.   Aos seus ouvidos ainda ecoavam as suaves blandícias das meigas exortações.

(…) Guardaria o lema de Abigail para sempre!

O Amor, o Trabalho, a Esperança e o Perdão seriam seus companheiros inseparáveis.   Cheio de dedicação por todos os seres, aguardaria as oportunidades que Jesus lhe concedesse, abstendo-se de provocar situações, e, nesse passo, saberia tolerar a ignorância ou a fraqueza alheias, ciente de que também ele carregava um passado condenável, que, nada obstante, merecera a compaixão do Meigo Rabi Galileu.

Se este Programa serviu maravilhosamente bem a Paulo, igualmente servirá para todos nós, nos tumultuados tempos de hoje, onde os desvalores campeiam e a dignidade escasseia, enquanto que os vícios e o mal “ganham títulos de cidadania sob os spotlights da promoção” sob a indiferença das autoridades.

O Programa de Abigail deve constituir-se em perene e imarcescível mensagem aos nossos corações, sensibilizando-nos da mesma forma que sensibilizou o valoroso coração do incomparável “Vidente de Damasco”.

Procuremos – todos os dias – as renovadoras disposições de amar a tudo e a todos. Para prosseguirmos nos caminhos retos, trabalhemos ativamente.   Se nos chegarem ansiosos desejos e inquietações para intensificar atividades fora do tempo apropriado, basta esperar.   Se alguém nos apelidar de louco, desertor ou fantasista e nos tratar com indiferença e ironia, procuremos esquecer a incompreensão alheia com o perdão sincero, refletindo nas vezes muitas que também ofendemos os outros por ignorância…

Cumprindo este programa, engendrado nas Esferas Superiores, estaremos sedimentando na Terra os alcandorados valores da vera Caridade que não será apenas simples virtude teologal, e sim, o efetivo exercício do amor em jornadas de sublimação pessoal, intransferível, exercício este do qual Jesus foi e continuará sendo pela Eternidade o inigualável vexilário.

Com a delicadeza de fino trato que lhe é peculiar, através da mediunidade de Divaldo Franco, diz Joanna de Ângelis no capítulo cinquenta e três do livro “Lampadário Espírita”:

“(…) Educado o homem moderno dentro da vigorosa conceituação da filosofia utilitarista, nem sempre tem visão para alcançar o fulgor resplandecente da legítima Caridade. Quando afortunado pelas concessões do poder econômico, compraz-se na filantropia e nela se detém, sem o valor de avançar, intimorato, até banhar-se na sua luz, que é a claridade luarizante a permear por dentro.

Ante os padrões vigentes que estabelecem metas materialistas para a compulsão orgânica que a sepultura desconsidera, perde-se o homem nos tormentos da posse, quando, impregnado pela excelsa mensageira, (a Caridade), poderia fruir a paz que é o clímax da felicidade que todos almejamos.

Entre Jesus e Pilatos, muitos homens preferem o beleguim de César ao Enviado de Deus”.

Finalizando, conclama-nos a Mentora Amiga a fixarmos  “(…) a mente nos objetivos do ensino evangélico e iniciarmos de imediato a renovação espiritual, pacificando-nos, e fácil nos será vestir os nus, alimentar os esfaimados, medicar os enfermos, dessedentar os aflitos e socorrer os agoniados a que sempre se referiu Jesus, e a Caridade, refletirá luminescências através de todos nós, em torno de nós mesmos, fazendo-nos ditosos, por fim, vencedores das próprias imperfeições, realizados nos objetivos essenciais a que nos propomos na presente existência”.

Assine a versão impressa
Leia também