Jornal Mundo Espírita

Maio de 2019 Número 1618 Ano 87
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O poeta dos céus

fevereiro/2016 - Por Mary Ishiyama

O historiador Michelet  o chamou poeta dos céus ou um filósofo enxertado de sábio. Esse enamorado dos astros nasceu como Nicolas Camille Flammarion, na Vila de Montigny-le-Roy, França em 26 de fevereiro de 1842.

Aos quatro anos sabia ler, aos cinco aprendeu gramática e aritmética, aos onze, ouviu o Padre Mirbel, seu pároco, fazer um elogio ao astrônomo Dominique François Jean Arago, que havia morrido em 1853, dizendo ainda da beleza e a grandeza da astronomia. Naquele instante, Camille descobriu-se como o poeta dos céus.

Em 1856, estava em Paris. Empregou-se como aprendiz de gravador em prata.  Enfrentou tempos difíceis, em que comia e dormia mal, enquanto as condições de trabalho eram muito complicadas e o patrão exigente.

Trabalhava em torno de quinze a dezesseis horas diárias, estudava à noite. Quando não havia dinheiro suficiente para comprar velas, servia-se da claridade da lua. Tinha apenas os domingos para descanso e os utilizava participando de seminários sobre astronomia, sua paixão.

Seu espírito sensível e nostálgico parecia dotado de uma imensa saudade dos Mundos Felizes donde viera e que procurava reencontrar nos mapas zodiacais, através da astronomia, tornando essa ciência fácil aos leigos.2

Em um domingo, desmaiou e o médico, ao atendê-lo, encontrou no seu quarto um grosso manuscrito, intitulado Cosmogonia Universal. Esse projeto de livro e a modesta biblioteca de duzentos e trinta volumes, impressionou Dr. Fournié que, contatando Le Verrier, diretor do Observatório de Paris, conseguiu que Camille fosse ali admitido.

Para Le Verrier, a pluralidade dos mundos habitados era uma ideia medíocre e uma pura fantasia, quase indigna de atenção. Quando, em 1862, antes de completar vinte anos, Flammarion publicou A pluralidade dos mundos habitados, foi despedido.

O livro se esgotou em pouco tempo, foi reeditado e traduzido para o alemão, inglês, espanhol, português, italiano, russo, dinamarquês, sueco, polonês, tcheco, árabe, turco, chinês e para cegos. Virou moda na corte de Napoleão III, e o autor chegou a receber carta, de próprio punho, de Victor Hugo, dizendo sentir-se em extrema afinidade com ele.

Flammarion lamentava a divergência entre a ciência e a religião: Duas verdades não podem ser opostas uma da outra. 1

Questionava sobre o que é o homem? Existe a alma? Desaparecemos ou não após a morte?

Em 1860, leu um artigo, no jornal, sobre feitiçaria no Século XIX, e começou a refletir se não haveria uma causa física que explicasse aqueles fenômenos.

Aos dezenove anos,  leu O livro dos Espíritos e se tornou espírita e amigo dedicado de Kardec. Foi Flammarion quem fez o discurso à beira do túmulo do mestre lionês, em 1869 e o denominou de o bom senso encarnado.

O sucesso do livro A pluralidade dos mundos habitados, repetiu-se em 1865, quando Flammarion escreveu Mundos imaginários e mundos reais, o que lhe granjeou convites para frequentar os salões de Paris. Esperava-se que o jovem de vinte e três anos ficasse deslumbrado mas, a alegria ruidosa não o agradou, nem as mulheres nobres, com suas poucas e decotadas roupas, pronunciando-se da seguinte forma: Devemos fugir dessas ociosidades como a peste, é um absurdo o desperdiçar a vida com essas coisas. O tempo que se perde não se recupera mais.

Um senhor septuagenário de Bordeaux, não tendo descendentes e sendo admirador de Flammarion, em desencarnando, lhe deixou uma bela e vasta propriedade que possuía em Juvisy. Ali, Camille fundou o Observatório de Juvisy-Sur-Orge, que dirigiu até sua desencarnação. Uma das primeiras personalidades a visitá-lo, no novo observatório foi D. Pedro II. Nessa ocasião, nosso Imperador plantou um pinheiro nos jardins de Juvisy e concedeu ao ilustre astrônomo a comenda da Ordem da Rosa. Um monumento alusivo à visita foi inaugurado mais tarde.

Em 1887, Flammarion  fundou a Sociedade Astronômica de França.  Em 1880, ganhou o prêmio Montyon da Academia de França pelo seu livro Astronomia popular e foi homenageado com o selo postal da França. Em 1922, recebeu a Comenda da Legião de Honra.

Entre muitos dos seus livros, destacamos Deus na natureza, As casas mal assombradas, Urânia, Estela, Narrações do infinito, O fim do mundo, A morte e seus mistérios, O desconhecido e os problemas psíquicos, alguns obra de ficção.

O homem das estrelas voltou para elas na tarde de 4 de junho de 1925. Na manhã ensolarada desse dia, ao visitar os jardins do Observatório, onde a vida irradiava nas flores e nos cantos dos pássaros, disse à sua esposa Gabrielle: Que mistério é a vida… que mistério é a morte..

Essa estrela brilhante afirmava que a justiça existe na mecânica celeste. Nela erro nenhum é possível.

 

1. GODOY, Paulo Alves. Camille Flammarion – o poeta dos céus. Anuário Espírita 1981, Araras: IDE, ano XVIII, n.18.

2. FLAMMARION, Nicolas Camille. Minibiografia. Presença Espírita, Salvador, ano III, n. 28, jun. 1976.

3. GODOY, Paulo Alves. Camille Flammarion. Revista Internacional de Espiritismo, ano LVII, n. 6, jul. 1982.

4. http://feparana.com.br/topico/?topico=500

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