Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2019 Número 1625 Ano 87

O plano divino da família

dezembro/2012 - Por Camilo

No espaço, os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição,
pela simpatia e pela semelhança das inclinações. Ditosos por se encontrarem juntos,
esses Espíritos se buscam uns aos outros.

(KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. IV, item 18.)

Inegável a inteligência que se exprime na objetivação do conjunto familiar, nas vias de progresso do gênero humano.

Afinal, desde as expressões da irracionalidade no reino animal, podemos acompanhar os passos da formação do bando, do rebanho, dos magotes, sempre sob uma liderança que aí, então, se configura pela força, pela sagacidade, pelas habilidades nas lutas pela definição de domínios, pelas formas de caçar, depredar, de dominar as presas, e outros recursos que estabelecem e confirmam essa liderança.

No reino humano, desde as manifestações da anomia, quando os ajuntamentos humanos viviam aparente ausência de regulação, de regras ou de leis, à formação dos grupos variados ­ profissionais, desportivos, religiosos, sociais, familiares – há leis internas que estabelecem lideranças, coordenações, que assumem posições múltiplas. Aqui estão em jogo as conquistas feitas por indivíduos, capazes de ser assimiladas pelos demais, ou feitas pelo grupo como um todo, que podem ser também passadas ou negociadas com grupos diferentes.

Nos planos do Criador para o ser humano, a formação e a manutenção do grupo familiar são de soberba grandeza, são de suma importância, considerando-se os fins a que se destina.

Desde Jesus de Nazaré ouvimos a assertiva de que um dia conformaríamos um único rebanho sob a liderança de um só pastor. A simbologia presente nas palavras do Celeste Amigo, faz-nos pensar nessa unificação de todo o gênero humano como uma só e imensa família, uma grei gigantesca, de inabordável maturidade, a ponto de consentir a coordenação de um só Líder, de um só Guia. Isso não significa dizer que os membros dessa descomunal formação humana serão inconscientes ou incapazes, para que tenham que ser dirigidos por um pastor.

Não. Não se trata disso. Como a obediência corresponde ao consentimento do raciocínio, como estabelecem os Nobres Imortais, o fato de sermos orientados por um único zagal significa a unidade de vistas em torno do amor, da liberdade, da felicidade; a harmonia de propósitos, uma vez que se trata do Cristo Excelso, figura representativa do Pai Criador no seio das Suas criaturas, e não de uma liderança obtusa, inconsequente, de metas dominadoras, como costumeiramente deparamos no mundo terreno.

Dessa maneira, a fim de que aprendamos, ao longo das eras, a nos dedicar o verdadeiro amor, reciprocamente, deveremos, antes, aprender a vivenciar esse amor em suas expressões mais variadas, em pequenos grupos aos quais chamamos familiares – verdadeiros laboratórios em que aprendemos a conviver com espíritos das mais diferentes inclinações, gostos e posturas ante a existência – locus em que aprendemos a respeitar individualidades, personalidades, distintos posicionamentos. Não foi sem razão que Carlos Marx e Frederico Engels estabeleceram que a família representa o primeiro grupo histórico e a primeira forma de interação humana aos quais os indivíduos se ajustam.

Para alcançar esse estado de interação com todos os irmãos da humanidade, de amar sem nada exigir e de servir incondicionalmente aos propósitos das leis divinas, o espírito humano começa a realizar sua viagem evolutiva – ou seu drama evolutivo ­ desde as formações sociais mais rudimentares, devendo aprender a tomar as resoluções básicas para as suas necessidades mais gerais, amadurecendo e ampliando pouco a pouco a sua cultura, aprimorando a sua seleção de valores, a fim de ir-se acercando dos níveis evolucionais que o aproximarão sempre mais do Criador.

Nessa divina viagem de aprendizado, tendo partido da “estação” da simplicidade e da ignorância, o espírito chegará à “estação” da angelitude, ocasião em que fecha o ciclo das necessidades reencarnatórias, dando começo a outro estágio de desenvolvimento em circuitos de progresso que ainda são desconhecidos nos mundos tipicamente materiais.

É aí que o espírito é compelido pela lei dos renascimentos a mergulhar no bojo de todos os povos, sociedades e culturas do mundo, experimentando no corpo e no psiquismo as suas influências. Homens e mulheres africanos – que já se diferem por regiões geográficas, tribos, etnias e crenças – se distinguem física e psicologicamente dos homens e mulheres asiáticos que, por seu turno, se destacam dos homens e mulheres europeus ou americanos.

Nesses caldos culturais variadíssimos, nessas psicosferas riquíssimas é que cada espírito renasce, ora na masculinidade, ora na feminilidade, alternando as experiências de gênero em todos os níveis interculturais e intersociais, aprendendo a amar povos e raças, conseguindo, ao longo do tempo, a compreensão para as diversíssimas peculiaridades que se encontram no mundo.

Saindo das considerações desses macro-relacionamentos em nível de grupos sociais, de etnias e raças humanas, conduzimos nossas reflexões para as estruturas familiares. Nelas cada espírito vivencia, alternada ou concomitantemente, aprendizados nas várias estâncias domésticas. Assim, numa só existência o indivíduo molda personalidades de filho ou filha, de esposo ou esposa, de pai ou de mãe,de irmão ou de irmã,de avô ou de avó, e de outros laços secundários. Cada alma, reencarnações afora, aprende a sensibilizar-se, a portar-se, a agir e a reagir, a sofrer e a amar, vivenciando cada uma dessas relações, em famílias forjadas segundo povos, etnias e raças variados, conforme culturas diferentes.

Não podemos estranhar, com isso, a multiplicidade de valores, de coerências e incoerências, de grandezas e pequenezas, de gostos, de anseios, de liberdades, de algemas, de alegrias e tristezas endógenas que encontramos em indivíduos e em grupos de indivíduos. São somatórios, subtrações, multiplicações e divisões de tudo o que vêm acumulando, fixando, ganhando e perdendo, pelos milênios afora.

É desse modo, no mundo, que Deus nos mostra que para conseguir amar multidões inumeráveis de irmãos nossos, temos que aprendê-lo pelo exercício desse amor a pequenos grupos de três, cinco ou dez pessoas, dentro do lar, uma vez que ninguém pode ser fiel em grandes obras, se não consegue sê-lo nas obras pequenas, conforme o ensino de Jesus.

TEIXEIRA, J. Raul. Desafios da vida familiar. Parte I –
O plano divino da família – Ed. Fráter.

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