Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2018 Número 1609 Ano 86

O período da curiosidade passou

junho/2018

Os Evangelistas registraram as inúmeras vezes em que Jesus, procurado pelo necessitado, o questionava1: Credes vós que eu possa fazer isto?

E também em um número sem conta, Jesus, após socorrer esse ou aquele padecente, recomendava2: Olha, não digas nada a ninguém.

Ainda, depois de um dos mais evidentes fenômenos da comprovação da imortalidade e da comunicabilidade dos Espíritos – o encontro de Jesus com Moisés e Elias, no Monte Tabor – descendo eles (Jesus, Pedro, Tiago e João) do monte, Jesus lhes ordenou3: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do homem seja ressuscitado dentre os mortos.

Além de recomendar a discrição e pedir a não divulgação da bênção da cura, Jesus orientava, lecionando4: Eis que já estás são; não peques mais, para que não te suceda alguma coisa pior.

Isso evidencia que a prática adotada por Jesus era reconhecer o grau de confiança prévia, a fé, que o sofredor tinha sobre Ele, como enviado de Deus; depois do socorro (nem todos eram atendidos), o pedido para que não saísse comentando o feito; porém, aproveitava de cada momento para ensinar as Leis Divinas, ao recomendar a mudança de comportamento moral, para que não lhe sucedesse padecimentos maiores, diante da lei de causa e efeito.

Em silêncio, com reservas, Ele não só confabulou com Moisés e Elias, fato notável por todos os aspectos, mais ainda pela representatividade religiosa e política desses históricos e glorificados personagens para toda a Israel, também aplacou tempestades, caminhou por sobre a água do mar da Galileia.

Nada superando a Boa Nova, a mensagem, o ensino iluminativo.

Seus ensinos, Sua grande missão na Terra, se dirigiam, em síntese, para o coração do povo: amar a Deus acima de todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo. Forma e conteúdo: o amor. Diante dos ensinos: colocar a candeia sobre o móvel, para irradiar luz. Diante dos fenômenos dos feitos espetaculares e as curas prodigiosas: reserva, discrição, não divulgação.

Desde 1857, 18 de abril, a Doutrina Espírita está entre nós, revivescendo e restaurando o Evangelho de Jesus, tendo, desde as primeiras letras do Espiritismo, Allan Kardec afirmado que ele é forte porque assenta sobre as próprias bases da religião: Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque mostra que essas penas e recompensas são corolários naturais da vida terrestre e, ainda, porque, no quadro que apresenta do futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar.5

A sua essência é o consolo. A sua forma e conteúdo se resumem em seus princípios: a existência de Deus, a existência e a imortalidade da alma, a pluralidade das existências, a comunicabilidade dos Espíritos e a pluralidade dos mundos habitados. Seus mandamentos: amor e instrução. Sua máxima: Fora da caridade não há salvação.

E os fenômenos mediúnicos? Serviram, em época própria, para revelar a Doutrina nova. Depois disso, se converteram em ferramenta de trabalho interno, nas organizações espíritas, por ter, a mediunidade, sido então coroada com a consagração do respeito, da educação e da utilidade, com diretrizes seguras, a serviço do Bem.

Nas palavras do insigne Codificador, Allan Kardec, sobre o progresso das ideias espíritas então nascentes5: Três períodos distintos apresenta o desenvolvimento dessas ideias: primeiro, o da curiosidade, que a singularidade dos fenômenos produzidos desperta; segundo, o do raciocínio e da filosofia; terceiro, o da aplicação e das consequências. O período da curiosidade passou; a curiosidade dura pouco. Uma vez satisfeita, muda de objeto. O mesmo não acontece com o que desafia a meditação séria e o raciocínio.  Começou o segundo período, o terceiro virá inevitavelmente. (Grifos nossos.)

Estamos na fase do raciocínio e da filosofia, cuja melhor fixação na mente se dá mediante estudo sério, dedicado, reflexivo, com decorrente e natural despertamento da necessidade e esforço pessoal da reforma moral íntima – para que coisa pior não nos aconteça – e da prática da caridade, que é o amor em ação.

Os que por primeira vez se acerquem hoje das Casas Espíritas, em busca de respostas, de consolo, de auxílio, ali possam encontrar o Espiritismo em sua verdadeira grandeza, onde a necessidade e sofrimento do coração encontre a água que dessedenta para sempre, o pão que alimenta a alma, e as mentes identifiquem a luz que ilumine seu mundo, com ela se identificando para sempre. Jesus presente e o Consolo por Ele prometido ali seja distribuído fartamente, como uma perene terceira (nos Evangelhos encontramos duas) multiplicação de pães e peixes.

Se o fenômeno em si mesmo não foi valorizado por Jesus como meio de divulgação de Sua mensagem, menor significado ainda ele tem para a difusão e a vivência prática do Espiritismo.

 

Referências:

1 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 9, vers. 28.

2 Op. cit. Marcos. cap. 1, vers. 44.

3.Op. cit. Mateus. cap. 17, vers. 9.

4.Op. cit. João. cap. 5, vers. 14.

5.KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. conclusão, item V.

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