Jornal Mundo Espírita

Maio de 2019 Número 1618 Ano 87

O papel da mulher

setembro/2012 - Por Antônio Moris Cury

O eminente e culto professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, o nosso Allan Kardec, em comentário pessoal sobre a questão 202 de O Livro dos Espíritos, a obra fundamental do Espiritismo, afirmou que: “Os Espíritos encarnam como homens ou como mulheres, porque não têm sexo. Visto que lhes cumpre progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhes proporciona provações e deveres especiais e, com isso, ensejo de ganharem experiência. Aquele que só como homem encarnasse só saberia o que sabem os homens” (75ª edição FEB, 1994, página 135).

Com isso, não deixou margem a qualquer dúvida quanto à necessidade de o Espírito encarnar ora em corpo masculino, ora em corpo feminino, diante das provas pelas quais tem de passar, uma vez que precisa progredir em tudo, razão pela qual a aquisição da experiência em cada novo corpo físico é de considerável importância. Reencarnar, como se sabe, literalmente significa entrar de novo na carne.

Nada obstante ser indiscutível a indispensabilidade de o Espírito estagiar ora em corpo feminil, ora em corpo masculino, com a importante finalidade de avançar na senda do progresso rumo a Deus, cumpre não perder de vista o especial papel do Espírito encarnado como mulher, tal como o registrou Léon Denis: “O papel da mulher é imenso na vida dos povos. Irmã, esposa ou mãe, é a grande consoladora e a carinhosa conselheira. Pelo filho é seu o porvir e prepara o homem futuro. Por isso, as sociedades que a deprimem, deprimem-se a si mesmas. A mulher respeitada, honrada, de entendimento esclarecido, é que faz a família forte e a sociedade grande, moral, unida! (O Problema do Ser, do Destino e da Dor, 23ª edição FEB, 2000, página 178).

Neste passo é importante comparar o texto acima reproduzido com a pergunta 821 de O Livro dos Espíritos: “As funções a que a mulher é destinada pela Natureza terão importância tão grande quanto as deferidas ao homem?” E a sua resposta: “Sim, maior até. É ela quem lhe dá as primeiras noções da vida”.

Por outra parte, parece não haver dúvida que tanto a maternidade quanto a paternidade constituem verdadeira missão, no mínimo porque estão os pais incumbidos inerentemente de formar o caráter dos seus filhos.

Entretanto, não podemos esquecer que à mulher incumbe a realização de tarefas deveras especiais, a começar pela educação de seus filhos, geralmente em parcela maior de tempo – para dizer o mínimo. E como já sabemos, com a veneranda Doutrina Espírita, educação é o conjunto dos hábitos adquiridos.

Vale recordar que muitos anos atrás, pelo menos em Curitiba, a cidade onde vivemos, na esmagadora maioria dos casos, à mulher cabia cuidar de seus filhos. Ao homem competia, com o seu trabalho fora de casa, obter recursos suficientes para prover a família. Claro que à mulher restava ainda o ônus de se desincumbir de todos os demais afazeres domésticos. O seu papel era imenso, portanto, e enorme a sua responsabilidade, haja em vista que a ela cabia preparar o homem futuro (seu filho ou seus filhos, no sentido de seres humanos encarnados – homens ou mulheres).

Apesar disso, nem sempre o gigantesco trabalho de que a mulher era encarregada foi devidamente valorizado por terceiros. No entanto, não tem maior importância esta ausência de reconhecimento porquanto “A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las” (frase extraída de texto atribuído ao filósofo grego Aristóteles – 360 anos antes de Cristo).

Os tempos mudaram, os costumes em parte também, e as necessidades aumentaram, ao que se vê, aparentemente, por obra do próprio ser humano encarnado na Terra, que passou a criar outras necessidades, talvez em certa medida decorrentes de excelente publicidade veiculada diariamente, que tantas vezes faz com que a pessoa menos atenta ou menos reflexiva compre o que não precisa com o dinheiro que não tem.

Seja como for, houve mudanças.

As mulheres, em considerável número, passaram a trabalhar dentro e fora de casa, em jornada dupla, com ônus dobrado a toda evidência.

Nem por isso, no entanto, ficaram liberadas de seu compromisso maior: preparar o homem (ser humano) futuro, sobretudo se se considerar que “Deus apropriou a organização de cada ser às funções que lhe cumpre desempenhar. Tendo dado à mulher menor força física, deu-lhe ao mesmo tempo maior sensibilidade, em relação com a delicadeza das funções maternais e com a fraqueza dos seres confiados aos seus cuidados” (comentário pessoal de Allan Kardec sobre a questão 820 de O Livro dos Espíritos, edição citada, páginas 380 e 381).

Com efeito, como bem esclarecido na obra fundamental do Espiritismo: “Os direitos de homens e mulheres são iguais, as funções não. A emancipação da mulher acompanha o progresso da civilização. Sua escravização marcha de par com a barbaria. Os sexos, além disso, só existem na organização física. Visto que os Espíritos podem encarnar num e noutro, sob esse aspecto nenhuma diferença há entre eles. Devem, por conseguinte, gozar dos mesmos direitos” (questão 822 de O Livro dos Espíritos, editora e edição antes indicadas, pág. 381).

Assim, ter jornada dupla é opção, é escolha, talvez necessidade.

Afinal, somos dotados de livre-arbítrio, que nos permite escolher, decidir, mas que também nos torna responsáveis pela escolha, pela decisão, e naturalmente responsáveis por suas consequências.

Por fim, nestas brevíssimas considerações sobre assunto tão complexo quão extenso, vale a pena repetir, para enfatizar, o que afirmou Léon Denis na última frase do trecho aqui transcrito: “A mulher respeitada, honrada, de entendimento esclarecido, é que faz a família forte e a sociedade grande, moral, unida!”

Assine a versão impressa
Leia também