Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87

O necessário ao discípulo do Cristo

dezembro/2017 - Por Rogério Coelho

[Ele] provou não ser necessária a evidência social
ou econômica para o serviço de utilidade a Deus.
Emmanuel[1]

 Um Espírito Amigo[2] ensinou: As legítimas fortunas são as que têm força indestrutível. Valem muitas vezes menos, porque desconsideradas pelo egoísmo, geratriz dos males que infestam os Espíritos multimilenarmente. Raros as disputam. São os valores morais.

Consoante formosa assertiva dos Espíritos Superiores[3] o homem só possui em plena propriedade aquilo que lhe é dado levar deste mundo.

Os bens da Terra pertencem a Deus, que os distribui a Seu grado, não sendo o homem senão o usufrutuário, o administrador mais ou menos íntegro e inteligente desses bens. Jesus[4] foi muito claro ao conclamar-nos à conquista dos tesouros imperecíveis dos Céus, quase sempre negligenciados quando fazemos a opção pelos ouropéis horizontais dos desejos puramente materiais. Não é necessário alçarmo-nos aos escorregadios e perigosos patamares argentários para a prestação de nossos recursos na Seara do Pai Celestial. Ao cristão decidido e perseverante basta a vontade de operar, incessantemente, no Bem.

Aduz Emmanuel1: Um dos fatos mais surpreendentes do Cristianismo é a posição escolhida pelo Salvador, a fim de anunciar as verdades eternas. Não aparece em decretos sensacionais, em troféus revolucionários ou em situações de domínio. Chega em paz à manjedoura simples, exemplifica o trabalho, conversa com alguns homens obscuros de uma aldeola singela e, só com isso prepara a transformação da Humanidade inteira.

As criaturas vulgares só entendem os que se impõem aos demais, ainda que, para isso, sejam compelidas a ouvir sentenças tirânicas, proferidas em tribunas sanguinolentas; apenas compreendem espetáculos que ferem a visão e gestos teatrais dos que dominam por um dia para sofrerem amanhã o mesmo processo transformador imposto ao mundo transitório. (…)

Jesus, todavia, falou à alma imortal. Por esse motivo, Suas revelações nunca morrem. Além disso, provou não ser necessária a evidência social ou econômica para o serviço de utilidade a Deus, demonstrando, ainda, não ser para isso indispensável a cidade com as arregimentações e recursos faustosos. Bastarão os princípios edificantes e simples, uma aldeota sem nome e alguns poucos amigos.

O portador da boa vontade sabe que foi esse o material com que o Cristo iniciou a remodelação da vida terrestre.

Joanna de Ângelis2, como que de intento, complementa assim o discurso de Emmanuel: O Evangelho de Jesus, no entanto, inapreciável fortuna de paz e amor ao alcance de todos, possui a solução para o magno problema da riqueza e da pobreza, em se referindo às leis do amor e da caridade que um dia unirão todos os homens como verdadeiros irmãos.

E o Espiritismo, confirmando as lições do Senhor, leciona, soberano, graças à informação dos imortais, que o mau uso da riqueza impõe o recomeço difícil na miséria, àquele que a tenha malbaratado.

Multiplica, então, os bens verdadeiros de que disponhas nas leiras do amor e reparte os valores transitórios de que te faças detentor na seara da Caridade para que tranquilos sejam os teus dias no Orbe e feliz o teu renascimento futuro, quando de volta à Terra.

 Assim, examinando, não penses em moedas e notas fiduciárias, em cheques e depósitos, cédulas e promissórias para as necessidades aquisitivas imediatas.

Penetra-te da certeza dos bens maiores com que a vida te aquinhoa e coloca em multiplicação os recursos de que te encontras possuído, espalhando alegria e entusiasmo por onde sigam os teus pés.

Compadece-te sempre, socorre; exorta com amor, ajuda; perdoa generosamente, ama; harmoniza as expressões do verbo servir e usa as mãos na lavoura da semeação da esperança; movimenta o corpo na direção do dever e faze que se renovem sempre os valores poderosos de que te encontres possuidor.

És detentor de fortunas que jazem enferrujando ao abandono, ante os ladrões da indolência que as roubam e as traças da negligência que as gastam e paralisam.

Jesus visitou a casa de Zaqueu, concedeu entrevista a Nicodemos, aceitou o sepulcro novo doado por José de Arimateia, como abençoando os tesouros amoedados e os seus mordomos temporários.  No entanto, foi severo com Judas, retrucando, quando este se referiu ao valor do bálsamo com que a “pecadora” lhe banhava os pés e cujo produto, se vendido, poderia auxiliar aos pobres[5]: “Os pobres, vós os tereis sempre, a mim, nem sempre”.

Preciosa lição, na qual toda fortuna aplicada na construção do amor é alavanca do progresso proporcionada por Nosso Pai para a grandeza do mundo e, ao mesmo tempo, ensinando que as fortunas pessoais, que todos detemos mediante a reencarnação, representam a nossa oportunidade para crescer em plena glória solar na direção do Rei Divino, que nasceu numa estrebaria para alar-se às estrelas desde os braços de uma cruz.

Lembremo-nos de que, consoante assertiva do nosso Mestre Maior[6], onde está o nosso tesouro, aí estará, também, o nosso coração.                                                                           

Bibliografia:

1 – XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida.  Pelo Espírito Emmanuel. 26. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2006. cap. 134.

2 – FRANCO, Divaldo Pereira. Florações evangélicas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 4. ed. Salvador: LEAL, 2000. cap. 48 e 49.

3-  KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 129. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009. cap. XVI, itens 9 e 10.

4 – BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 6, vers. 20.

5 – Op. cit. João. cap. 12, vers. 8.

6 – Op. cit. Lucas. cap. 12, vers. 34.

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