Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87

O mordomo da Casa Branca

setembro/2014 - Por Maria Helena Marcon

Pode-se aprender algo assistindo um filme? Além de aspectos culturais que ele possa apresentar, poderá nos servir a reflexões em torno da vida, da ética, da moral?

Algum conteúdo poderá nos apresentar exemplos de conduta?

Allan Kardec, durante seu retiro em Sainte-Adresse (setembro 1863), zona praieira a mais ou menos duzentos quilômetros de Paris, escreveu, em carta dirigida à esposa, Amélie: Faz alguns dias que o tempo está admirável, sem nuvens no céu, um Sol resplandecente, um mar tranquilo como um lago, salpicado de navios e de embarcações de todos os tamanhos; é um espetáculo encantador. O mar sem fim é para mim uma grande distração; todo dia constato sua beleza. Não há um único ponto no horizonte que eu não o explore, daí saindo observações interessantes e instrutivas que me levam a meditar, pois tudo é instrução para quem quer refletir.

Portanto, ao Espírito que deseja, tudo serve para a reflexão, a  meditação.

O filme, cujo nome original é, simplesmente, The Butler, estreou nas telas brasileiras em 1º de novembro de 2013, com o título O mordomo da Casa Branca. Inspirado no artigo do Washington Post, Um mordomo bem servido por esta eleição, escrito por Wil Haygood em 2008, que contava a vida real do mordomo da Casa Branca, Eugene Allen, que prestou seus serviços durante trinta e quatro anos, narra a história do mordomo fictício Cecil Gaines (Forest Whitaker), abrangendo um período de oito mandatos presidenciais, entre 1952 e 1986.

Eugene nasceu em 14 de julho de 1919, na Virgínia. É retratado na indumentária de Cecil trabalhando, desde criança, em uma fazenda de algodão, numa época em que o negro, especialmente na região sul dos Estados Unidos, era mercadoria, podendo ser vendida, trocada, descartada pelos brancos, sem que isso constituísse qualquer sanção, ou transgressão à Lei.

O menino Cecil sofre seu primeiro grande drama, ao ver seu pai ser morto, sem piedade, por ousar olhar de forma afrontosa, como a pedir contas, ao dono da fazenda, Thomas Westfall (Alex Pettyfer), depois desse violentar-lhe a esposa, que enlouquece, após esse fato. Percebendo o desespero do garoto e a gravidade do ato do filho, Annabeth Westfall (Vanessa Redgrave) decide compensá-lo, de alguma forma, levando-o para o interior da sua casa, ensinando-lhe boas maneiras e como servir à mesa.

A primeira regra que aprende é que o negro doméstico não ouve nada, não vê nada. Ele está ali, atento, para servir, sem que, no entanto, possa esboçar seus verdadeiros sentimentos. Foi o início do seu aprendizado de ser invisível.

Essa dupla face, Cecil somente entenderá quase na velhice, exatamente na situação em que a primeira dama, Nancy Reagan, lhe dispensa os serviços como mordomo, convidando-o a jantar, com sua esposa, no banquete que recepciona o chanceler alemão Helmut Kohl, em visita oficial aos Estados Unidos.

Será após esse jantar que ele começará a se tornar inquieto. Ele se vira sentado à mesa, como convidado, enquanto os seus colegas negros o serviam. Foi o momento dele começar a repensar como vivera até então, o que realizara e, principalmente, entender o verdadeiro papel do filho mais velho, Louis Gaines (David Oyelowo), engajado na luta contra a segregação racial. Louis saíra de casa para estudar na Fisk University, uma universidade tradicionalmente para negros, onde começou o seu engajamento político. A partir daí, o filho do mordomo entra em diversos conflitos raciais com a população e com a polícia.
Esse quadro afeta diretamente a vida de Cecil que, por sua vez, reprova todas as escolhas do filho. A relação vai de mal a pior, enquanto Louis se aprofunda nas lutas pelos direitos dos negros. Cecil se vê pressionado, inclusive na Casa Branca, quando seu filho começa a aparecer nos noticiários.

Envolvendo-se, primeiramente, no movimento pacifista de Martin Luther King, irá compor, depois, os Panteras Negras. A fórmula de King, segundo Louis, não dera certo. Era preciso ser mais agressivo. Logo adiante, sua ética o conduziria a se desligar dos Panteras, por não aprovar os métodos por eles utilizados para alcançar os objetivos.

Isso nos diz que o que ensinamos aos nossos filhos, na infância, portas adentro do lar, permanece na intimidade deles, não importando o tempo, a distância e local em que se encontrem. As lições de moral permanecem vívidas, para serem acionadas a qualquer momento.

Exatamente no ponto de sua adesão aos Panteras Negras ocorre a ruptura entre pai e filho, que duraria anos. Mas, então, Cecil se dá conta que seu filho, que fora preso muitas vezes, não era um criminoso, era um herói: ele defendera a bandeira em que acreditava, ele fora às ruas, apanhara, fora preso, e continuara na luta.

Exatamente, nesse ponto, uma grande lição: o pai idoso vai ao encontro do filho, abraça-o e, tendo renunciado ao cargo na Casa Branca, se engaja na mesma luta do filho, à época, envolvendo a libertação de Mandela e as questões do Apharteid. Acaba sendo recolhido à prisão e ali, manifesta ao filho que se sente verdadeiramente livre.

A lição está em não se temer retornar sobre os próprios pés e reformular atitudes, ter a grandeza de reconhecer um equívoco, um mal entendido e buscar a reconciliação e o refazer dos próprios passos. A humildade, o ir ao encontro do filho, pedindo perdão é o ponto alto nesses momentos.

Igualmente, o amor filial, pois o filho revela não ter guardado mágoa ou rancor das atitudes anteriores do agora idoso pai. Entre a surpresa e a preocupação, o acolhe.

Foi Annabeth que, na distante juventude de Cecil, certo dia lhe falou que estava na hora dele seguir seu próprio rumo. Ele se despede da mãe, ainda em seu mundo de alienação mental, e, embora cheio de medo, encontrando pelo caminho o rastro da maldade humana, como dois negros enforcados, ele enfrenta as distâncias, o frio, a fome.

E será justamente a fome que o motivará a quebrar uma vitrine, adentrar um estabelecimento e se servir dos bolos maravilhosamente confeitados. Surpreendido, verificará que no coração dos homens, não existe somente maldade. Existem homens bons. E o negro que o encontra, acaba por lhe dar emprego no hotel. Aprimorará ali a tarefa de servir, e servir sempre.

Sua vida acabará dando uma grande guinada quando tem a oportunidade de trabalhar na Casa Branca, servindo o presidente do país, políticos e convidados que comparecem ao local.

A bondade que encontra nesse coração e a oportunidade que lhe é oferecida serão muito bem aproveitadas por Cecil. Eis a nova lição: lutar intensamente até vencer as condições mais duras, ir em frente, não temer o trabalho, os desafios.

Isso o filme demonstra muito bem ao apresentar um menino que vai de trabalhador em uma fazenda de algodão, superando óbices, com coragem, e alcança o posto de mordomo na Casa Branca, assegurando para sua família certo status, com o conforto de alguns bens materiais como a casa, boas roupas, a possibilidade dos filhos irem à Universidade, ele que jamais frequentara uma escola.

A submissão do negro doméstico, como, de forma preconceituosa, é chamado o mordomo, o criado, é salientada no filme, como a de quem realizava a verdadeira e silenciosa revolução.

Ele estava ali, servindo mas demonstrava, com sua silente atitude, que o branco dele dependia e que o trabalho do negro tinha qualificação.

Alguns detalhes nos remetem a fatos históricos, sempre emocionantes na tela das recordações e certas cenas não foram gravadas, sendo apresentadas as reais, das épocas a que se reportam. De Truman (1952) a Reagan (1981), passando pela luta de Martin Luther King Jr., o assassinato de John Kennedy, a Guerra do Vietnam, a batalha pelos direitos civis, o filme nos leva a pensar como tudo passa no mundo, de forma rápida. Hoje, se está no poder. Amanhã, outro assume o poder e, em poucas horas, tudo se altera: desde a disposição dos móveis na casa presidencial, as normas, os horários. O que parecia importante, imprescindível, deixa de ser. Tudo é mesmo transitório, nesta vida.

Um outro detalhe digno de nota é a luta empreendida por Glória (Oprah Winfrey), a esposa de Cecil, para liberar-se do alcoolismo. Amparada pelo marido, ela é uma vencedora.

E, de imediato, nosso pensamento se remete ao O Livro dos Espíritos, nas questões 909/911, em que os luminares nos informam que não existem paixões irresistíveis, bastando se acionem esforços para delas nos liberarmos. Vencê-las é uma vitória do Espírito sobre a matéria.

O amor do casal é outro detalhe de importância, um amor que supera o deslize do adultério da esposa e se engrandece nos anos. E a dor, que os abraça, quando da morte do filho mais jovem na guerra do Vietnam, mais os une. Como superar tamanha dor sem estarem unidos, apoiando-se de forma mútua?

No enterro do filho, que recebe honras militares, uma nova reflexão: por que homenagear o negro morto com tamanha pompa enquanto encarnado lhe eram negados tantos direitos? Paradoxo do ser humano que não pensa, não analisa as próprias atitudes.

Vê-se algumas atitudes presidenciais, demonstrando interesse pela situação do negro, leis que asseguram certos direitos sendo implementadas. E, contudo, os negros que trabalhavam na Casa Branca eram discriminados, pois que os seus salários eram sempre inferiores aos dos brancos, em igual função.

Isso nos remete a pensar se, em nossos lares, estamos tratando com dignidade os domésticos que nos servem. Por vezes, gritamos por direitos civis, fora do lar, engajamo-nos em determinadas lutas, defendendo questões distantes de nossa própria casa. E, contudo, ali, nossas atitudes são incoerentes com a nossa fala.

Quantas vezes afirmamos que Fulana é como se fosse da família. Isso dizemos porque confiamos nela e ela nos serve de forma total. Contudo, será que a tratamos verdadeiramente como alguém que é da família, permitindo-lhe o repouso devido, respeitando-lhe a idade, a enfermidade, dando-lhe o suporte econômico de que verdadeira necessita, o convênio médico? É uma reflexão que nos deve merecer algum tempo.

Em síntese: o filme, embora toda a ficção que lhe foi adicionada, traz proveitosas lições de vida. Quem quer que o assista, poderá se ver retratado em mais de uma cena: das que vão do relacionamento conjugal, ao trabalho em excesso, relações com os filhos, a vida em sociedade, as relações entre empregado e empregador.

Vale a pena conferir!

 

Ficha técnica:

Direção: Lee Daniels

Duração: 132 minutos

País: Estados Unidos da América

Gênero: drama

Trilha sonora: Rodrigo Leão

 

Curiosidades: Eugene Allen desencarnou em 2010, aos 90 anos, em decorrência de falência renal.

O período retratado no filme abrange os governos de Harry S. Truman (1945 – 1953), Dwight David “Ike” Eisenhower (1953 – 1961), John Fitzgerald Kennedy (1961 – 1963), Lyndon Baines Johnson (1963 – 1969), Richard Milhous Nixon (1969 – 1974), Gerald Rudolph Ford (1974 – 1977), James Earl Carter (1977 – 1981) e Ronald Wilson Reagan (1981 – 1989).

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