Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

O mais brasileiro de todos os estrangeiros

abril/2019 - Por Mary Ishiyama

Assim foi chamado, em 1947, pelo jornal carioca A Noite Ilustrada, um homem incomum, nascido em 1866, em Milewko, na então Tchecoslováquia, que amou profundamente o Brasil.

Com esse homem, chamado Frederico Fígner, aprendemos que podemos servir a Deus nos utilizando das coisas do mundo.

Nasceu em lar humilde, de origem judaica. Cedo partiu em busca de seus ideais. Aos quinze anos, emigrou para os Estados Unidos, com pouco dinheiro, mas com grande visão comercial. Chegou ao país no momento em que Thomas Edison lançava um aparelho que registrava e reproduzia sons por intermédio de cilindros giratórios. Ficou encantado. Adquiriu um e algumas fitas. Veio ao Brasil, em 1891, aportando em Belém do Pará.

Começou a mostrar seu equipamento ao público que, fascinado em poder ouvir gravadas e reproduzidas suas vozes, lhe pagava para isso. O sucesso foi imediato. Um ano depois, chegou ao Rio de Janeiro, falando um pouco de português e com uma quantia razoável de dinheiro.

Foi ali que Fred, como era chamado, abriu sua primeira loja, a Casa Edison. Ele importou e comercializou os primeiros fonógrafos. Nesse período, chegou ao Brasil Emil Berliner, que havia lançado nos Estados Unidos um equipamento para gravar discos com qualidade sonora superior ao aparelho que ele vendia. Percebendo o potencial, Fred mudou-se para um espaço maior, onde abriu o primeiro estúdio de gravação e varejo de discos do Brasil, em 1900.

Os discos eram gravados apenas em uma das faces, eram tocados em vitrolas movidas a manivela. Uma grande revolução na música brasileira em um momento em que o rádio ainda não existia.

Até então, os artistas só se apresentavam ao vivo ou vendiam suas partituras. O primeiro disco brasileiro a ser gravado na Casa Edison foi pelo cantor Manuel Pedro dos Santos, o Bahiano, em 1902.

Depois disso,  outros cantores gravaram suas composições que eram distribuídas pela Casa Edison, do Rio de Janeiro e pela filial em São Paulo.  A procura cresceu tanto que, em 1913, Fred decidiu instalar uma indústria fonográfica de grande porte, dando origem ao consagrado selo Odeon.

Figner era um homem generoso. Certa vez, preocupado com a esposa de um funcionário, que precisava fazer uma cirurgia, pediu uma receita mediúnica a Pedro Sayão, espírita e amigo seu. À época, era ateu mas a cura o deixou impressionado.

Em breve, faria um novo teste.  Um pai de família desempregado lhe relatou seu sofrimento. Figner, de imediato, o ajudou com uma quantia em dinheiro e pediu que ele voltasse dentro de oito dias. Então, pela primeira vez em sua vida, ele fez um pedido ao Carpinteiro de Nazaré:  Se , como dizem os cristãos,  Tu tens poder, ajuda a esse pobre pai de família; arranja-lhe trabalho e meios de vida!

Oito dias passados, o homem retornou e disse ter conseguido um emprego. Entusiasmado, Fred formulou outro pedido ao Nazareno. Depois, passou a pedir a Maria, em tudo sendo atendido. Devotou-se a estudar o Espiritismo e consagrou toda a sua vida a serviço dos outros.

Fez parte da Federação Espírita Brasileira – FEB, foi seu vice-presidente, tesoureiro e membro do Conselho Fiscal. Manteve coluna no jornal Correio da Manhã, onde divulgava o Espiritismo.

Com muita disciplina, dividia seu tempo entre a família, a atividade profissional e os afazeres espíritas. Presidiu diversos grupos na FEB e em seu lar. Publicou livros, sempre custeando as edições.

Acolheu em sua casa vítimas da gripe espanhola,  que assolou o país em 1918. Se não estava na FEB ou na sua empresa, estava andando de um bairro a outro levando consolo, medicamentos, alimentos, roupas ou dinheiro a  necessitados. Pelo seu trabalho se tornou amigo de muitos artistas e, vendo a dificuldade financeira de alguns, ao chegarem à velhice, comprou um terreno e construiu o Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá que existe até hoje.

Em 1920, morreu sua filha mais velha, Rachel. A esposa estava inconsolável. Ouvindo falar de Anna Prado, em abril de 1921, partiu com toda a família para Belém do Pará, onde a médium residia. O que sucedeu naquelas sessões, o reencontro com sua filha materializada, está relatado nos livros O Trabalho dos Mortos, de Nogueira de Faria e Anna Prado, a mulher que falava com os mortos, de Samuel Nunes Magalhães, ambos edição FEB.

Fred Figner trabalhou até poucos dias antes de sua morte, aos 82 anos, em 19 de janeiro de 1947.

Do mundo espiritual, atuante ainda, escreveu sob o pseudônimo de Irmão Jacob, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, o livro Voltei, editado pela FEB.

Com o título A luta continua, adverte em página inicial:

Oh! Meus amigos do Espiritismo, que amamos tanto!

É para vocês – membros da grande família que tanto desejei servir – que grafei estas páginas, sem a presunção de convencer! Não se acreditem quitados com a Lei, por haverem atendido a pequeninos deveres de solidariedade humana, nem se suponham habilitados ao paraíso, por receberem a manifesta proteção de um amigo espiritual! Ajudem a si mesmos, no desempenho das obrigações evangélicas! Espiritismo não é somente a graça recebida, é também a necessidade de nos espiritualizarmos para as esferas superiores.

 

Referências:

WANTUIL, Zêus. Grandes espíritas do Brasil. Rio de Janeiro: FEB, 1990.

http://feparana.com.br/topico/?topico=641

http://www.escolainconcert.com.br/2014/09/a-historia-incrivel-
de-fred-figner/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Baiano_(cantor)

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